MVV_5478Meu nome é Iranice Barroso. Nasci em Anápolis-GO, sou a primogênita da minha casa. Meus pais têm uma história de amor muito bonita. Meu pai era um tipo “playboy” de sua época, que curtia andar de moto e minha mãe, aquela moça criada em internato de escola de freiras. Mamãe pinta, borda, costura; ela foi criada mesmo para casar. Tem muitos talentos naturais, habilidades manuais e eu herdei alguns deles; minha avó também era assim. Eles se apaixonaram ainda muito jovens. Após algumas histórias, eles se casaram e deram início a nossa família. Eles têm um amor muito bonito. Já fizeram 50 anos de casados, mas ainda são namorados. Eu sempre tive essa referência de casamento. Eles têm temperamentos diferentes, mas se dão muito bem.
 
Próximo ao meu nascimento, mamãe estava com meu pai na garupa de uma lambreta (um tipo de moto) e sofreram um acidente. Ela estava com 7 meses de gravidez e teve que ficar de repouso até que eu nascesse. Ela conta sempre que eu fui muito esperada e houve um grande temor de que eu não sobrevivesse. Essa foi a primeira tentativa do diabo de roubar minha vida e abortar o plano que Deus tinha para mim. Contudo, nasci bem e sem sequelas. Sempre fui muito ativa e desde criança gostava de viver perigosamente. Gostava muito de brincadeiras que envolvessem grandes emoções como soltar pipa, brincadeiras de rua, correr no campo e achava chatas as brincadeiras de meninas, com exceção das brincadeiras de fazer quitutes no fogãozinho à lenha, feito pelo meu vovô “Quincas” que também era um artista. A melhor parte da minha vida (infância) foi vivida em uma chácara que meu pai tem até hoje. Essa chácara é o meu lugar preferido. Minha filha desfrutou desse lugar e hoje meus netos também desfrutam dela. Ali eu era livre, gostava de passear pelo campo, colher frutas silvestres, nadar no rio, andar a cavalo… Talvez por meu pai querer muito ter um filho homem, ele investiu muito em mim. Eu me identificava muito com o papai e desde muito nova gostava de estar com ele. Com 3|4 anos, tive Nefrite Aguda. Essa foi mais uma tentativa de roubo de minha vida. Posteriormente mamãe, acidentalmente, comeu um produto envenenado e quase chegou a óbito. Nessa época, já éramos três filhos, dos quais eu era a mais velha e a mais nova ainda era um bebê. Esse foi um período muito difícil em nossa vida. No entanto, tudo deu certo! Fiquei sarada e mamãe também.
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Papai trabalhava no Fisco (Fiscalização Tributária) do estado de Goiás, como supervisor e fazia essa supervisão nos postos entre as cidades.  Ele viajava muito e muitas vezes, eu ia com ele. Como eu amava fazer essa “supervisão”! Por muitas vezes dormíamos em fazendas ou armávamos uma tenda próximo a algum rio e pernoitávamos lá. Eu ficava muito à vontade nesses ambientes. Sempre gostei de coisas assim, aventureiras. Durante o período das férias escolares, ia a família toda. Íamos geralmente em uma kombi ou em uma caminhonete. Para mim, foi uma das melhores partes da minha infância. Tenho cinco irmãos: Consuelo, Anicélia, Maria Beatriz, Iran Célio e Iran César.  Minha avó paterna morou com a gente na minha infância, então, também viajávamos com ela. Sempre convivemos muito com os primos e nossa casa sempre foi um lugar muito querido no qual os primos e muita gente queria estar. Até porque íamos para a chácara e ficávamos soltos, tomávamos banho no rio, andávamos a cavalo, brincávamos muito…
 
Com 13 anos, eu tive uma experiência não muito boa. Meu pai, por conta do trabalho, passava muitos dias fora. Como eu era muito apegada a ele, meio que me tornei um pouco rebelde. Mamãe também trabalhava fora. Ela é professora e hoje está aposentada. Nós sofremos muito essa ausência de não termos o papai ali no nosso dia a dia, devido ao regime de escala dele. Era uma grande festa quando ele chegava e nos dava toda atenção e programávamos algo para fazermos juntos. Íamos para a chácara, fazíamos piqueniques. Eles sempre se desdobraram para nos dar de tudo.
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Eu era muito curiosa, nunca aceitava rapidamente um “não” como resposta. Eu queria saber o porque: “Por que eu não posso andar com essa pessoa? Por que eu não posso fazer isso?” E a resposta era sempre: “Porque não, pronto e acabou!”. Então, comecei a buscar o porquê dessas coisas. Eu nunca gostei muito de coisas normais. Desde pequena, eu não gostava do “brincar só com as meninas, de boneca” eu queria a rua, o conhecimento, aventura.
Foi assim que eu conheci um menino que morava na minha rua e era muito inteligente. Certo dia ele me contou que tinha conhecido umas pessoas muito interessantes e inteligentes e ele começou a usar a maconha. Eu fiquei muito curiosa com aquilo e busquei conhecer a maconha. Então, este amigo me disse que não, que nunca me apresentaria aquilo e etc. Certo dia eu encontrei um “amigo” que me passou a droga e eu fui experimentar em casa. Minha mãe e meu pai estavam viajando. A empregada não estava no momento e, enfim, eu experimentei ali sozinha no meu quarto. Confesso que, na época, eu gostei muito da droga. Como meu pai era fumante e eu curiosa, então eu já tinha experimentado o cigarro e não foi muito difícil ou diferente para mim. 
Comecei a me aproximar disso e a entrar nas drogas. Tive contato com a maconha, depois com as drogas químicas. Comecei a me envolver com pessoas desse ciclo, até mesmo colegas de escola. Eu era praticamente uma criança, com 13 anos. Mais à frente eu me envolvi com a droga que me levaria ao fundo do poço, que foi a cocaína. Então eu entrei para outras drogas químicas como o LCD, ácidos e enfim. 
 
Me envolvi tão profundamente, que passei a traficar junto com esse amigo. Nesse momento foi muita dor, porque minha família já sabia. Comecei a pegar dinheiro em casa e foi bem difícil para a minha família. Eles fizeram várias tentativas de recuperação. Minhas notas caíram na escola e eu comecei a não estudar. Tomei bomba na maioria das séries e sempre dava muito trabalho nessa área. Eu tinha muita dificuldade no aprendizado. Sempre fui muito voltada para o lado artístico. Sempre eu ia muito bem nessas áreas de arte, teatro e interpretação. Mas na área de exatas eu era muito ruim. E era complicado, porque não se via como hoje, no ensino de aproveitar a inteligência e os dons de cada um. Sofri bastante e passei a ter aversão da escola. Quando eu atingi a maior idade, resolvi que não queria mais estudar. Meus pais não aceitaram de forma alguma. Para ser mais rápido e ao menos concluir o Segundo Grau, decidi fazer o Supletivo.
 
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Minha mãe sempre falava para mim: “mas como é que você vai fazer? O que que vai fazer na vida? Como é que vai ser?”. Mas eu nunca achei complicado, porque eu era muito boa com trabalhos manuais, então, eu sempre achava uma forma de ganhar dinheiro. Na época, tinha um “amigo” que traficava e passamos a ser parceiros. Tínhamos clientes no meio grande: políticos, advogados, juízes e pessoas de classe alta. 
 
Um amigo da nossa família veio e me procurou e falou: “Olha, você está na mira da Federal, vocês precisam sair daqui, ou vão ser pegos”. Então compramos barraca, mochilas e colocamos o pé na estrada. Fomos para na Bahia, em Porto  Seguro. Isso era aproximadamente em 1977. Naquela época, era um lugar que não tinha nada. Eram só os “malucos” mesmo. Quando chegamos, eu tinha esta facilidade com artesanato e comecei a fazer para vender. Eu fazia decoração nos bares. Chegava nos lugares e pedia para decorar. Meu amigo não tinha essa facilidade, mas me acompanhava. Até que meus pais descobriram onde eu estava e foram bater lá. Foram atrás para me resgatar.  
Eles nos trouxeram de volta, não para Brasília, pois sabiam desse envolvimento todo com a questão das drogas. Ficamos em Goiânia um tempo na casa de uma tia e houve o casamento. Levamos a vida “aos trancos e barrancos”, pois não havia amor entre nós. Ele sempre viveu a vida dele de solteiro e eu tentava ter uma vida de casada, como manda a regra. Depois de cinco anos nesse convívio, eu tive meu presente que foi a coisa boa de toda essa experiência. Meu presente foi a Gabi. Na verdade, ela foi um milagre, pois eu não podia ter filhos por causa do tempo de envolvimento com as drogas. Cheguei no fundo do poço. Tentei suicídio 4 vezes, porque eu não tinha mais razão para viver. A Gabi foi algo que realmente Deus trouxe para me sustentar. Para que eu permanecesse viva. Porque ela passou a ser a razão pela qual eu queria viver. Quando eu engravidei, a minha alegria de estar com uma pessoa dentro de mim foi tão grande que eu tive uma força de vontade sobrenatural e eu não usei drogas nesse período. Até a Gabi completar um ano. Tive um parto normal. Ela nasceu saudável mas teve asma por causa de toda essa situação vivida. Graças a Deus, houve todo um processo de milagres na minha vida e a Gabi foi um deles. Ela foi curada.
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Eu sofri muito nesse relacionamento. Até que chegou o dia que me vi livre. Ele mesmo não quis mais o relacionamento. Houve sempre uma cumplicidade de amizade. Quando houve o divórcio, nos entendemos. Ele seguiu a vida dele e eu a minha. Quando a Gabi estava com um ano, eu voltei para as drogas e fui morar na casa da minha mãe. Por perceber que ela estava sendo bem cuidada, eu voltei mais fundo para as drogas. E então veio o pior momento da minha vida, onde fui ao “fundo do poço”.
 
Passava vários dias cheirando muitas gramas de pó, bebia muito e ainda usava maconha. Nesse período, eu fiquei muito doente, debilitada, muito magra, fiquei desfigurada. Minha família toda já sabia e tentaram ajudas sem resultado. Foi quando eu me senti muito mal por ser a vergonha da minha família. Passei a viver lá nos fundos da casa. Gabi ficava dentro da casa, com minha família. Entendo que eles faziam isso para protegê-la, contudo, também era muito difícil para mim. O que me fazia continuar era sempre ela. Várias vezes eu tentei suicídio. Certa vez, eu estava tentando suicídio e ela entrou no quarto, abriu a porta e falou: “mamãe, você sabia que você é a razão da minha vida?”. Ao ouvir isso, não tive mais coragem de prosseguir . Passei a viver por causa dela, mas com muita vergonha. Quando eu pensava: “O que vai ser da minha filha com a mãe assim?” Eu não via saída. Eu sabia que estava errada, mas não conseguia mudar. Eu era uma viciada. É difícil para as famílias entenderem isso, no sofrimento eles acabam também te cobrando muito. Eu tentava de várias formas ajuda, mas era em vão, porque eu ficava “limpa” um tempo, mas depois eu voltava.
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O convívio com minha família chegou a ficar realmente impossível, então eu peguei a mochila e fui parar em Canoa Quebrada, no Ceará. Lá eu me tornei realmente uma hippie. Era mais ou menos o ano de 1986, passei a viver do artesanato. Eu fazia artesanato e vendia na praia. À noite, eu fazia salada de frutas e vendia na rua. Me enfiei pesado nas drogas. Fiquei um tempo lá e Gabi ficou com meus pais. Até que chegou um dia que eu fiquei muito doente. Eu morava em uma casinha de pau a pique, dormia em uma rede e estava realmente muito doente, sentia muitas dores e não sabia o por quê. Eu estava com 14 bichos de pé em um pé e um bicho  geográfico no outro pé. O que quase me fez perder o dedo. Sentia muitas dores abdominais. Eu não sabia o que era. Um médico holandês, um desses médicos “malucos” que estava ali nessas aventuras também, começou a me levar um remédio de vez em quando, e ele me disse que eu não poderia usar o álcool e as drogas para que o remédio fizesse efeito. Nessa época, fiquei muito mal, sem nenhum cuidado, pois foi em uma época de setembro que é muito calor, fica insuportável. Muito mosquito e os turistas quase não iam. Então, os “malucos” vão para outro lugar. Como eu estava doente, eu fiquei lá sozinha sem cuidado. Às vezes eu conseguia comida, às vezes não. Eu levantava e caía, algumas vezes eu me deparava acordando no meio das minhas necessidade fisiológicas. De vez em quando, aparecia alguém, que eu entendo que era o cuidado de Deus, e aparecia alguma comida ou algo do tipo. 
 
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Houve um dia que eu entendi que eu estava morrendo. Eu estava em uma rede e começou a passar toda a minha vida diante de mim. Todos os meus pecados, como em um filme. E eu entrei em um arrependimento profundo e comecei a falar: “Deus, me tira daqui desse lugar e dessa vida”. Logo depois, eu desmaiei. Quando eu acordei, havia uma pessoa, uma menina loira, que eu não sei o nome, ela falou assim para mim: “Oi tudo bem? Olha, eu vim aqui pra tirar você desse lugar. E ela falou: Arruma suas coisas. Mas eu não conseguia me levantar. Lá não tinha nenhum meio de transporte, pois é um vale onde não chegava carro. Só havia uma kombi que fazia o transporte para uma cidade mais próxima, de três em três dias. Essa menina arrumou minha mochila, me colocou dentro de um carro e fomos para a cidade mais próxima. Ela me deu um remédio líquido. Eu lembro que tomei o líquido de uma vez, porque não estava conseguindo suportar as dores. Ela me colocou dentro de um ônibus e me levou para o aeroporto de Fortaleza. Eu falei com ela: “Como eu vou fazer? Eu não tenho dinheiro”. E ela falou: “Tudo bem, meu pai é um coronel da FAB, você vai em um vôo desses”. Eu não estava nem sabendo quem eu era de tão mau que estava. Quando chegamos no aeroporto, ela colocou minha mochila no chão, eu deitei e ela me pediu para esperar. Ela me deixou ali e saiu. Quando eu estava deitada, passou um homem e ajoelhou do meu lado e falou assim: “Você é uma jovem tão linda, o que você está fazendo nesse lugar?” E eu falei: “sei lá o que eu estou fazendo”. Eu era muito louca, falava muitas gírias. Não me lembro de muitos detalhes dessa conversa, mas ele pegou minha mochila, tirou uma caderneta de dentro, achou o telefone da minha casa e ligou para o meu pai. Ele perguntou meu nome. Depois eu fiquei sabendo que ele ligou para o meu pai e falou assim: “Olha, eu estou aqui em Fortaleza e sua filha está aqui no chão em cima de uma mochila, ela está muito doente (ele era um médico da FUNAI) e eu me compadeci dela e se o senhor tem recurso para levá-la de volta, o senhor precisa fazer isso rápido, pois pode ser que ela não sobreviva”. Meu pai, ficou desesperado, porque ele nem sonhava onde eu estava, falou: “pelo amor de Deus, faça o que for preciso”. 
 
Meu pai comprou a passagem para Brasília, e esse médico fez contato com um casal conhecido dele, que morava em Fortaleza. Em seguida, a menina voltou e disse que não seria possível eu ir pelo avião da FAB, mas que, como já estava tudo certo, ela ia me acompanhar até a hora de eu entrar no avião. Ela disse que cuidaria de mim. Me levaram para a casa desse casal, não sei dizer nada como era, eu estava muito mau. Eles cuidaram de mim. Foi quando eu comi decentemente, tomei uma sopa. Eles cuidaram do meu pé. Lembro de eles me dando uma dose de vódka, colocaram uma mordaça na minha boca, colocaram água fervendo e uma gaze no meu dedo onde estava o bicho geográfico, pois ele disse que era a única forma de matar o bicho. Realmente matou o bicho e eu também quase morri de dor (risos). Mas eu tinha tanta dor que uma só substituía a outra. Depois, eles tiraram os bichos de pé. Por isso, eu sei que eram 14. 
Dormi, e no outro dia me colocaram no carro com a menina. Eu quase precisei entrar de maca no avião. Ela me acompanhou até dentro do avião e, quando as pessoas do avião assumiram, ela desapareceu, eu não sei quem ela é.  Depois entendi que ela era um anjo. 
Quando eu cheguei, desci com os comissários que me levaram de cadeira de rodas até minha mãe. Minha família me recebeu e correu comigo para o hospital. O diagnóstico do meu quadro era: desidratação, desnutrição, e infecção no aparelho respiratório e digestivo.
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Depois que eu me recuperei, voltei de novo para o fim do poço. Me afundei novamente nas drogas. Um dia eu estava em um momento muito difícil, muito doente e sem saída. Tinha uma Bíblia no meu quarto e, no desespero ajoelhei, agarrei essa Bíblia e dei um grito: “DEUS, SE VOCÊ EXISTE DE FATO, ME TIRA DESSA VIDA! SE VOCÊ FIZER ISSO, EU PROMETO QUE VOU ENTREGAR MINHA VIDA PARA VOCÊ, POIS EU ENTENDO QUE NÃO TEM COMO EU SAIR DISSO SOZINHA”. Quando eu fiz essa oração e pedi a ajuda de Deus, eu tive uma experiência muito forte. Tive uma visão, não sei se aberta ou fechada, mas eu vi o diabo aparecendo e abrindo uma porta, e eu falei: “meu Deus me tira daqui!” O diabo falou assim: “Não, agora você chegou no ponto que eu queria te levar, agora chegou seu fim, esse é seu lugar”. Ele abriu uma porta, vi muito fogo e era algo que ao mesmo tempo era negro e era uma escuridão com fogo. Algo estranho, uma coisa tenebrosa. Eu senti um pavor e um medo muito grande. Fui empurrada e me lembro de estar descendo profundamente em um buraco sem fim. Tudo isso aconteceu enquanto eu estava agarrada com a Bíblia e tinha acabado de fazer aquela oração para Deus. Eu entendo que o diabo viu que eu poderia ter uma possibilidade de salvação ali. O diabo quer te torturar ao máximo, ele quer arrastar o máximo de pessoas para o inferno.
Quando eu estava caindo neste lugar, eu dei um grito e falei: “JESUS, ME TIRA DESSE LUGAR, ME SALVA”! E, de repente, eu senti uma mão, em uma velocidade muito grande, bem firme segurando no meu braço e eu parei de cair e subi de uma vez. Foi uma subida muito rápida, bem mais rápida do que eu estava caindo. De repente eu me vi em um lugar de luz. Era muita luz e muita paz. Eu não vi nada além disso, apenas muita luz e muita paz. Foi a primeira vez que eu senti paz na minha vida, eu nunca havia experimentado essa paz. Era uma paz profunda. E então eu vi aquele olhar. Aquele olhar que mudou a minha vida. Que é inesquecível e que eu o verei em breve. Aquele olhar me consumiu, ele passou dentro de mim, junto com aquela paz e aquele amor. Algo como se escorresse, inundou toda a minha vida, todo o meu coração.
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Havia uma prima minha, a Celeste, que havia se convertido. A sua irmã Celina, que havia crescido comigo e éramos muito próximas, estava tentando me ajudar e me levar para uma reunião de oração. Eu marcava várias vezes com ela e não ia. Sempre aparecia alguém do tráfico ou envolvido com isso que me impedia de ir. Nesse dia, eu já estava marcada com uma pessoa que iria lá buscar uma quantidade muito grande de cocaína, e era um negócio muito importante. Eu tive essa experiência com Deus, Celina tinha marcado de me levar nesse dia e, simplesmente, a pessoa não apareceu, o que era algo impossível de acontecer. Então, a Celina conseguiu chegar e eu fui com ela. Minha aparência, nessa época era de uma Punk: cabelo bem curto, piercing no nariz, tinha apenas um “rabinho” de cabelo atrás, muitos brincos na orelha, uma roupa de couro toda preta e pesava apenas 36 kilos. Quando eu cheguei, a pessoa que estava me esperando para orar por mim, falou para a Celeste: “Você está louca! O inferno inteiro vai se manifestar nesse ser”!. E a Celeste falou: “nós vamos orar sim”. Nós estamos orando por essa vida há muito tempo. Então, ela me mandou ajoelhar e elas impuseram as mãos sobre mim. Quando ela começou a orar por mim veio um fogo. Um fogo diferente daquele que eu fui jogada. Um fogo consumidor que ardia no amor, mas não queimava, não me consumia, mas consumia toda a maldade. Era um fogo que me queimava, mas ele era frio e ao mesmo tempo quente, não sei explicar. 
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Eu estava naquele fogo e  novamente minha vida passava diante de mim, como naquele dia em Canoa Quebrada, e me vinha esse arrependimento muito profundo. Era um arrependimento com tanta dor, com tanto desespero que, para me livrar daquilo, eu me joguei no chão e esse fogo ia me consumindo. Eu fiquei tão consumida por esse fogo que fiquei encharcada. Me levantei como alguém que havia saído de um poço de água. O Senhor começou a usar a irmã que estava orando por mim e começou a trazer as promessas e Ele me falou assim: ”Eu te escolhi no ventre da sua mãe. E hoje eu estou te trazendo para este lado e estou quebrando uma ponte para o outro lado. A partir de hoje, começo a escrever uma nova história…” E começou a falar coisas ao meu respeito e a respeito da minha vida. Coisas que estamos vivendo. Ele me disse que me daria um marido segundo o coração dele. Me disse que era uma pérola que ele iria tirar do seu tesouro e ia me dar. Disse que faria a mesma coisa pela minha filha. Ele falou que eu ia seguir os caminhos dele e eu não voltaria atrás. E eu nunca voltei.
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O Senhor me disse também muitas coisas da bondade dEle que eu tenho vivido. Muitas coisas que eu não lembrava e que eu venho lembrando à medida que as promessas vão se cumprindo. Ele me disse que eu iria as nações e que eu seria um socorro para as nações. Que tudo o que o diabo tinha usado na minha vida contra mim ele usaria contra ele. E que minha filha também teria esse chamado para as nações e que seria algo muito lindo. Naquele instante eu fui batizada com o Espírito santo, comecei a falar em línguas, profetizar e ter visões e me levantei dali completamente livre, com uma paz profunda que eu não queria trocar por nada nessa vida. Eu sai dali pregando até para os cachorrros, porque eu queria, que todos tivessem aquela experiência.
Cheguei em casa e lá estava a Zilda, que era uma irmã muito amada e foi a babá da Gabi. Foi ela quem muitas vezes me tirou da rua quando eu estava lá jogada e ninguém sabia. Assim como meu pais e meus irmãos, ela também ajudou a cuidar da minha filha, em um momento em que eu não pude ser mãe. Ela foi uma mãe para ela. Ela me amou sem pedir nada em troca. Amou minha filha sem nada em troca, como se fosse filha dela. O pai dela era o caseiro lá da chácara do meu pai e ela foi lá para casa para trabalhar, mas ela foi essa amiga mais chegada que uma irmã. Eu a considero e amo tanto quanto eu amo uma irmã minha de sangue.
Quando eu cheguei em casa, ela olhou para mim e disse que eu estava como uma lâmpada fluorescente, e ela me perguntou o que havia acontecido. Respondi: “Jesus de Nazaré mudou minha vida”!, e ela falou: “Eu quero isso”. Voltei para a casa da minha prima com ela para receber oração, e foi batizada no Espírito Santo, também. Veio para casa comigo e o Senhor fez essa conexão. Ela também morava nos fundos da casa e nós começamos a ficar madrugadas lendo a Bíblia. Era mais ou menos assim: eu lia, o Espírito Santo me explicava e eu tentava explicar para ela. Nós passamos a ser muito envolvidas com as coisas da igreja. O Espírito Santo começou a ensinar a Palavra para a gente. Tínhamos experiências com Deus. Fomos nos fortalecendo e ela passou a ser o que ela é até hoje: uma intercessora fiel. Ela me sustentou também nesse tempo como uma irmã em Cristo, porque o diabo quis muitas vezes me matar, roubar minha vida, eu não conhecia minha identidade em Deus, então ela dormia comigo para me ajudar. 
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Minhas primas se revezavam para me levar para a igreja, para o monte, para orações (Pois os traficantes e pessoas do meio ficavam atrás de mim). Em uma reunião na casa da minha prima, conheci um pastor da Igreja Quadrangular perto da minha casa e comecei a congregar ali. Então eu comecei a me apaixonar mais e mais pela Palavra. A Gabi ia comigo e eu falei com meus pais: “Olha, a partir de hoje, eu quero a Gabi dormindo comigo”. Arrumei meu quarto, e a Gabi começou a me ajudar. Antes, eu era roqueira, sempre estava junto com as bandas famosas de rock dos anos 80 em Brasília, então, eu tinha muito dificuldade de deixar a música e às vezes cantava. 
A cada manhã ela acordava e começava a me animar em Deus. Ela falava: “mamãe vamos cantar para Jesus? E começava: “Deus está aqui…” 
E ela sempre ia comigo para a igreja. Algumas vezes traficantes me barraram na frente da igreja e ela gritava alto, pedia socorro, falava: “mamãe é de Deus, vocês não vão levar minha mãe”. Quando eu cheguei nessa igreja, o Jorge, que hoje é meu marido, era co-pastor lá. E Gabriela se apaixonou por ele e ele por ela. Quando terminava o culto, ela corria para onde ele estava sentado para brincar com ele. Fiz amizade com a irmã dele e contei para ela que estava passando essa dificuldade que os traficantes queriam me pegar, então ela falou com o Jorge, sem dar muitos detalhes e eles começaram a me dar carona pra casa. 
 
Gabriela já ficava no carro com ele. Nos cultos ela ficava do meu lado desenhando. Ela desenhava uma casinha com duas janelas. Um casal em uma janela e uma criança em outra, e ela falava: “Mamãe, escreve aqui olha: Essa é a casa que o Senhor vai me dar”. Ela fazia dois desenhos iguais. Entregava um para mim e um para o Jorge. Em dia eu perguntei: “Filha, o que é isso?” E ela falou: “Sabe o que é mamãe? É que eu estou pedindo para o Papai do céu que eu quero ser igual a todo mundo. Quero ter casa com papai e mamãe, eu não quero morar com vovó e vovô. Então Deus falou que vai me dar uma casa com mãe e com mãe. Eu quero que o meu pai seja o pastor Jorge”. Eu quase desmaiei. O Jorge andava muito com uma irmã dele. Eu pensava que ele era casado, ele era co-pastor na igreja e eu tinha muito respeito por ele. Além disso, eu ainda me sentia um lixo. Eu dizia: “Filha, isso não vai acontecer”, e ela chorava e falava: “vai acontecer, vai acontecer”. Comecei a pensar no por quê ela estava falando isso e passei a observar o Jorge. Me tornei uma crente fiel, tudo o que tinha na igreja, eu estava e com pouco tempo eu passei a ser obreira, dedicada. De tanto Gabi falar isso, começou a brotar um sentimento no meu coração. E aí eu fiquei apavorada. Eu procurei minha prima e disse o que eu estava sentindo e falei: “mas ele é casado, e ela disse: não, ele não é casado!”
 
Então, eu passei a dar mais abertura ao sentimento. Eu não queria casar. Eu estava tão satisfeita com o que estava acontecendo na minha vida, que eu só queria que o Senhor me ajudasse a criar minha filha. Mas o desejo do coração da Gabi era ter uma família completa. Esse sentimento foi aumentando, aumentando e aumentando, ao ponto de eu ver o Jorge e ficar com frio na barriga. Eu percebia ele sempre me olhando também, mas eu achava que isso era só da minha parte. A gente sempre sentava na primeira fileira e, quando eu abria o olho, ele estava me olhando. Um dia o Senhor me deu meio que um ‘ok’, eu já me senti noiva dele, esperando que algo fosse acontecer. Então, eu falei assim para o Senhor: “Eu não tenho interesse em casar, mas se você vê nisso algo que traga benefício para o Reino, eu te dou meu sim”. Porque minha filha queria um pai e eu via nele um homem de Deus. 
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Certo dia, minha prima me procurou, eu estava nessa igreja e ela falou: Eu vou começar uma obra lá em casa. O  pastor Vilarindo vai abrir uma congregação na minha casa e eu preciso da sua ajuda. Eu falei: “Não, mas eu não posso porque eu entendo que Deus tem algo comigo e com o Jorge, mas eu vou orar”. E o Senhor me falou assim: “Mas você está aí por minha causa ou por causa dele?” Eu respondi: “Por sua causa senhor”. Eu respondi: “Foi o meu posicionamento de ir que fez o Jorge se mover. Eu conversei com o pastor falando a ele que estava saindo por causa desta direção. Saí da igreja e sumi por um tempo. O Jorge já tinha me chamado para um encontro uma vez, mas depois nunca mais disse nada. Ele só me dizia para ficar fria. Depois que saí da igreja vi ele certo dia. Eu estava vindo com a Celina do Plano Piloto. De longe vi um caminhão tombado e o Corpo de Bombeiros lá e a Celina falou: “Vish Iranice, o bombeiro está ali” (Jorge era bombeiro). Ele estava nessa ocorrência e pediu para pararmos o carro, pois ele havia me reconhecido, mas eu acelerei e não quis saber. Depois disso ele foi atrás do meu telefone e me ligou até me encontrar em casa e me chamou para um encontro. Nesse dia eu fui sem expectativas. No final do encontro já fui me despedindo, mas ele me parou e disse que queria se casar comigo. Já foi direto e pediu para falar com meus pais assim que fosse possível. 
Nos casamos e foi muito lindo o nosso casamento. A Gabi foi nossa daminha de honra, a mais feliz que eu já vi. Ela estava realizada né? Vivendo a sua promessa! (Risos)
Como é lindo ver a fidelidade do nosso Pai. Depois de tudo o que passei, receber a filiação de um Pai maravilhoso e ainda ganhar dEle o melhor marido, o melhor Pai para minha filha, que também me deu um filho (Werner) e o melhor avô para o Arthur e a Catarina, faz de tudo isso menos que nada!
 
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Nós nunca tivemos outros filhos. E eu sempre quis que o Jorge tivesse a experiência da paternidade. “Briguei” muito com Deus porque não conseguia engravidar. Certo dia, eu estava muito triste por causa disto, e aí ele chegou pra mim e falou assim: “Amada, vamos desistir disso, porque eu já estou realizado como pai. Talvez Deus tenha coisas para nós nas quais não caberá mais um filho agora”. Nós oramos juntos e abrimos mão disso e trocamos o ter mais um filho, pelas nações. 
Desde que eu me converti, sempre soube que era missionária, o Jorge demorou um pouco mais, pois ele era muito envolvido na vida pastoral. Eu fui cumprindo o chamado dele e ele o meu, juntos. Ele me ajudou a dar continuidade àquilo que o diabo parou na minha vida. Quando a Gabi já estava com 17 anos, já era uma adolescente, eu voltei para a faculdade. Incentivada por eles. Antes disso, fiz um ano de supletivo para terminar a escola e eles fizeram comigo, pois eu tinha muitas dificuldades, por conta das drogas que limitam o potencial do nosso cérebro. Gabi estudava de manhã e à noite, ela ia comigo. No final do ano, teve o vestibular e passei para o curso de Moda. Gabi também prestou vestibular e passou para Psicologia. Eu não sabia nem como mexer em um computador, mas Jorge e Gabi me ajudaram em tudo. Todos os trabalhos eles fizeram comigo. Na minha formatura, o Jorge foi convidado para ministrar no culto de acção de graças. Todos amaram, ficaram admirados com o quanto ele sabia sobre moda (risos). O Jorge foi e é essa figura de Cristo na minha vida. 
 
Nós fizemos o Rhema em 2006/2007 e foi aí que começou a segunda parte da nossa vida. Em seguida, em 2010, fizemos a Escola de Ministros. Deus começou a nos preparar para o Timor Leste. Ficamos 2011 no Timor. Voltamos e ficamos pouco tempo. Em 2012 fomos morar um tempo na Austrália, para aprender o inglês. Em Setembro de 2012, voltamos para o Brasil com uma direção por dentro de ficar à disposição do pastor Joselito e Ana Helena, a fim de sermos treinados e pegar o “sotaque” do Verbo da Vida.
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Eu sempre tive algo com a África. Um dia, assistindo o filme Diamantes de Sangue, eu chorei muito e orei: “Senhor, eu quero ajudar essas pessoas”. E veio uma compaixão em mim que me consumia. Eu sempre tive uma ardente vontade de estar ali, louvando com aquele povo, com aquela alegria. Admiro a arte deles. Eu sempre recebi palavras de que eu iria à África. O Timor não está esquecido. Hoje, temos o entendimento de que não iremos a uma nação, são as nações. Atualmente nos sentimos tão sem raízes, o mundo para nós está muito pequeno. O que tem dentro de nós é avançar com a Palavra. 
 
Entendemos que ser professores do Rhema é um meio e não um fim. É como carimbar nosso passaporte para levar a Palavra. Podemos apoiar o Ministério e facilitar essa obra, cumprir o chamado do pastor Bud, ser um braço do pastor Joselito e  Ana Helena, cumprindo a visão que Deus deu a essas pessoas. Somos auxiliadores. Somos o braço estendido desse Ministério aonde vamos. Vejo a urgência das coisas grandes que Deus tem para fazer. Deus tem nos falado que a Palavra vai avançar por toda Moçambique. É como se eles estivessem há muito tempo esperando. Quando encontramos com algumas pessoas vemos a sede e desejo delas pela Palavra. Estou completamente apaixonada por essa nação. Nunca imaginei, mas, certa vez, me despedindo da minha filha, genro e dos meus netos, no aeroporto, foi uma despedida muito difícil, porque eles são as minhas delícias, e eu estava chorando muito. Pedi ao Espírito Santo uma palavra de consolo e veio muito forte no meu coração: “A dor que a renúncia traz é consolada pela grandeza do propósito”. Essa é a minha frase.
 
Quando olho para a minha vida, para toda esta história que pode ser escrita aqui, penso: O que mais eu poderia fazer hoje? A não ser me entregar completamente à Palavra de Deus? Deus cuidou de mim nos detalhes. Ele cuidou da minha filha. Ele deu o melhor para mim e deu o melhor para ela. Quando você foca o propósito, pensa: “Quantas vidas serão alcançadas?”. A despeito de toda dor de deixarmos nossa família, focamos no propósito e esse é o nosso consolo. Eu amo saber que estou sendo essa cooperadora de Deus, andando e realizando a vontade dEle, diante de tudo isso. Iranice é uma mulher rendida ao propósito de Deus. Estou fechada com o Senhor, não tenho a minha vida por preciosa. Não importa o que a minha alma está gritando, eu vou além. Eu devo isso ao Senhor, por gratidão. Isso me move. Eu sou a Iranice de Deus, aquilo que Ele quer que eu seja. Amo minha família, muito mesmo, eles são aqueles para os quais sempre vou voltar, mas a pessoa mais importante da minha vida é o Senhor. Então, como diz o Jorge: “Vamos adiante”.

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