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Tenho 28 anos, nasci em Brasília, no Gama. Lá vivi até os 8 anos, depois fui morar no Núcleo Bandeirante. Ali fiquei a maior parte da adolescência.

Brasília é uma cidade que gosto muito. Muitos a criticam pelo clima seco, e isso é verdade; eu me adaptei no Japão e, quando voltei, senti um pouco esse clima, mas antes era acostumado.

Meu pai é da Paraíba e minha mãe é do Paraná. Meu pai cresceu em Brasília e lá eles se encontraram. Então, pude crescer com um pouco das misturas do Brasil, pois viajava com meus pais e conhecia culturas diferentes e outras regiões.

As pessoas de Brasília são mais reservadas, alguns nos acham frios, eu não acho isso; e talvez por conhecer os japoneses, vejo que eles são bem mais reservados, são cautelosos no jeito de se portar. Meu pai soube me criar não sendo tão frio, mas procurando me relacionar bem com as pessoas, procurando ser ao mesmo tempo, observador. Me ensinou a me portar por onde eu for.

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Isso me ajudou a ter tato no trato com as pessoas. Brasília é um lugar de acesso ao mundo, acesso as embaixadas que tem lá, tem uma natureza peculiar, cachoeiras. O povo de lá é bom, estudiosos, organizados, estão sempre envolvido em concursos públicos, têm uma mentalidade aberta. Meu pai até queria que eu fizesse.

Teve um tempo que eu fazia faculdade, fazia cursinho e uma faculdade de teologia, era uma loucura.

Meu pai, José Wellighton, é policial civil e também pastor do Verbo da Vida no bairro Asa Sul. Minha mãe, Jussane, é auxiliar de enfermagem e a diretora do Rhema na Asa Sul. São meus grandes referenciais. Meu pai saiu de uma família bem simples, pobres, mas se destacou. Ele sempre teve uma visão clara do futuro, desejava ter uma família, filhos, se via com um bom emprego. Ele conseguiu, através dos estudos autodidata, se desenvolver muito. Ele se graduou em direito, passou em um concurso público na policia militar e depois civil. É uma pessoa que posso confiar, é uma pessoa que me ensina tudo. Ele vai se aposentar em breve, mas ainda é policial e pastor. As instruções dele levarei para a vida.

Minha mãe é um doce de pessoa, muito carinhosa, atenciosa, mulher muito sábia. Quem a conhece se apaixona por ela.

Tenho apenas um irmão, Jader. Ele é um garoto esforçado, tem estado junto com meus pais esse tempo. Quando criança, ele teve meningite e poderia ter morrido, mas, graças a Deus, está bem. A sequela foi na audição dele. Hoje ele escuta por meio de um aparelho auditivo. É um garoto muito inteligente e foi um dos motivos porque nós conhecemos Jesus. Porque nesse tempo meus pais começaram a buscar a cura do meu irmão.

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Desde criança, sempre tive uma paixão pelo Japão. Com seis anos de idade, isso já ardia dentro de mim, mas eu não entendia o que era. Uma vez passou no Globo Repórter uma matéria sobre o Japão, pedi ao meu pai para gravar em fita VHS e lembro que ele gravou e assisti não sei quantas vezes, decorei as informações. Não éramos crentes, não tinha noção de Reino, chamado, nada disso…

Fui crescendo e sendo influenciado pela cultura pop japonesa que são os desenhos mangá. Eu assistia Cavaleiros do Zodíaco, Jaspion, essas coisas (risos) tinha até bonecos. Na escola, via algumas crianças descendentes de japoneses, eu olhava aqueles olhos puxados, cabelo preto liso, e eu pensava: “que coisa linda!” Era tudo muito belo, eu ficava meio que em um vislumbre.

Comecei a desenhar e queria ser desenhista no Japão. Fazia meus próprios mangás, meus roteiros, apresentava para os meus pais. Era umas coisas meio engraçadas (risos).

Em 2002, quando recebi Jesus, tive essa influencia do Reino, fui a um evento de jovens e ali entendi o chamado do Senhor na minha vida. Naquele momento, ouvi dentro de mim: “Você não gosta do Japão? Então, vá para as nações”. Fui na frente, recebi a oração, coloquei as mãos nos meus ouvidos, ouvia clamores, pessoas chorando, eu não entendia. Ali fui batizado no Espírito Santo e, depois, cheguei em casa dizendo: “eu vou para o Japão”.

Eles não entendiam muito bem naquela época e diziam: “vamos orar”. Hoje, eles não apenas entendem, mas me dão suporte em tudo.

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Aos 15 anos, conheci uma senhora perto de casa que era japonesa, ela vendia revistas e eu sempre comprava. Ela começou a me ensinar algumas coisinhas em japonês, ela tirava xerox do livro e me ensinava. Eu ia estudar em casa, lia, não entendia nada. Depois, ela me falou de uma igreja evangélica que ensinava Japonês e achei muito bom. Conheci a igreja junto com meus pais, me tornei amigo do pastor, a esposa dele era japonesa. Passei alguns anos estudando os termos básicos, eu divulgava tudo da cultura japonesa, influenciava meus amigos, meu irmão, estava no final do ensino médio, e ia fazer vestibular. Pensei em fazer história, mas me falaram: “vai estudar letras e literatura japonesa”. Prestei o vestibular, passei na Universidade de Brasília (UNB).

Nesse tempo, eu pensava em ser pastor. Meus pais já estavam apoiando, minha vida estava tomando um rumo de ir para Belo Horizonte estudar na Batista da lagoinha. Quando passei para a universidade, percebi que não era aquilo, fui estudar na UNB. O Senhor me abençoou. Lá descobri que existia bolsa de estudos para o Japão por um ano, pedi a Deus para me conceder esse desejo. Era uma concorrência muito grande, mas decidi confiar em Deus.

Comecei a prosperar em disciplinas, a graça me abençoou e fui me destacando em meio aos alunos, deu tudo certo. Cheguei a ganhar um curso de uma semana pela fundação japão, fui e fiquei lá com tudo pago. Tentei 2 bolsas de estudos na embaixada, não consegui por esse processo e, no último ano, houve uma seleção entre os alunos, consegui ser selecionado para ir à uma universidade em Tóquio que tinha convênio com a UNB; uma das melhores escolas do Japão. Isso foi em setembro de 2011. Fiquei lá até setembro de 2012.

Recebi bolsa de estudos com um valor alto, vivi bem, estudei, ensinei português…

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As pessoas costumam dizer que o idioma japonês é muito difícil, eu não acho, porque sempre gostei. Você se apaixona pela língua. Eu passava horas estudando, porque eles tem ideogramas, os kanjis. Para você ser alfabetizado tem que aprender pelo menos 2 mil kanjis, é muita coisa.

Tinha prazer em estudar e isso me ajudou a prosperar na universidade. A gramatica é diferente, mas o português é mais dificil. O Japonês tem menos fonemas que o português, a gramatica é mais fácil porque não tem conjugação de verbos. O que é diferente é a escrita que é muito complexa. Para a nossa mente ocidental, se torna muito diferente.

Para nós é assim: Sujeito – Verbo -Objeto. Por exemplo: – Eu gosto de limão.

Para eles é o contrário: Sujeito – Objeto – Verbo. Ou seja: eu de limão gosto.

Até você encaixar isso na sua mente e acostumar, leva tempo.

Eles não tem artigo definido, indefinido, substantivo masculino e feminino.

A conjugação deles é passado e presente e, dependendo, você já entende como futuro também.

Falar o japonês é um desafio. O inglês se fala em qualquer lugar, a maioria dos estudantes sente essa dificuldade com o idioma. Japonês é muita teoria, eu tinha bagagem de conteúdos e gramática, mas não tinha experiência, lá comecei a desenvolver isso.

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Antes de entrar no Verbo da Vida, meu pai havia me convidado para assistir uma aula demonstrativa do Rhema em Taguatinga. Logo que cheguei na igreja, percebi que tinha um quadro com algumas fotos de missionários e vi de cara a bandeira do Japão. Isso chamou a minha atenção. Na época, eu participava de um grupo de intercessão pelos países asiáticos com amigos universitários, eu era da Igreja Batista Central em Brasília. Não conhecia nada de missões ainda, mas peguei o contato de Juscie e Joanice, mandei mensagem e começamos a conversar; mas eles não estavam no Japão nessa época.

Eu conhecia jovens coreanos e japoneses universitários que estudavam em Brasilia, como a Yuki que hoje está estudando na escola de ministros aqui. Nos reuníamos saíamos com eles, falávamos de Jesus. Yuki recebeu Jesus nesse tempo. Com Juscie, falei do que estava em meu coração, meus sonhos, planos e continuamos mantendo contato.

Quando fui estudar no Japão em setembro de 2011, conheci Juscie e Joanice em dezembro. Eele morava em Nagoia na época, tinha voltado da França depois do terremoto, e, nosso encontro foi em Yamanashi. Lembro que era bem na época de ano novo e festas. Lá, encontramos dois pastores que se uniram ao sonho do Rhema. Foi um contato rápido com Jusciê.

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Voltei do Japão em 2012 e, em fevereiro de 2013, fui de uma vez para lá e estou desde esse tempo.

Na primeira ida, fui com o visto de estudante e com os custos cobertos pelo Ministério da Educação. Quando voltei como missionário, era outro visto como atividade religiosa. É bem burocrático, mas vi mais uma vez o favor de Deus em minha vida. Ter chegado lá, sem dinheiro, e tudo lá é bem caro, mas fui favorecido por Deus.

Fui abençoado com a passagem de avião por uma irmã e comprei a passagem antes de ter o visto em mãos. Estava agindo em fé e o visto chegou em cima da hora, um dia antes. Considerando o valor da passagem, tudo foi milagre.

Eu amo conhecer coisas novas, experimentar coisas diferentes. Desde antes de ir para o Japão, ainda no Brasil, comia coisas diferentes com os amigos coreanos. Sem falar que tenho em minha família pessoas do sul e do nordeste, então, se experimenta comidas bem diferentes. Meu pai sempre foi de viajar pelo Brasil e íamos conhecendo as diferentes culturas e comidas dentro do nosso imenso país. Lembro de algumas comidas vietnamitas, uns amigos fizeram um jantar e a aparência da comida não era bonita; meus pais comeram por educação, mas eu comi com vontade, sem medo. No Japão me realizei, gosto de tudo, principalmente do sushi e sashimi de lá; que são bem diferentes dos que fazem aqui.

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O chamado para mim é o meu sentido de vida. Acho que cada um nasce com um propósito. Me encaixei bem lá e sei que isso acontece por causa da vocação. Me sinto satisfeito, grato, feliz no Senhor. Entendo que esse é o sentido do meu viver e acredito que isso alegra o coração de Deus. A Ásia em si é muito amada por mim. Conheço a Coreia do Sul, mas desejo ir em outros lugares, como as Filipinas. Conheci um Diretor do Rhema em Cingapura, tenho a visão missionária de ir a esses lugares, quero ir até o Camboja visitar a missionária Jussara e tentar ajudá-la de alguma forma. São planos…

Nós brasileiros, temos um senso irônico bem aguçado; fazemos piada de tudo. Às vezes, somos até sarcásticos. E eu tinha muito disso, mas os japoneses são muito puros e, para nós, parece bem bobo até. Então, se eu chegasse para eles brincando, ironizando algo, eles acreditam nisso. Eles não entendem que é uma piada. Eu tive problemas com isso no começo. Imitava os mafiosos japoneses, na época eu tinha a barba grande, eu já sou alto, grande, e isso é incomum. Eles se assustavam um pouco (risos). Depois eu dizia: ‘brincadeira!’

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No geral, quando observo a nossa juventude, vejo que muitos têm tido pensamentos fúteis. Jovens têm perdido tempo com coisas que não produzem nada e não trarão nenhum beneficio. A explosão da internet está aí, temos muito mais acesso às informações do que tínhamos há 10/15 anos atrás. As pessoas tem acesso às informações muito rápido. Mas, ao mesmo tempo, deixamos de produzir; porque estamos consumindo mais informações. Acho que as pessoas de antigamente produziam mais. Com a facilidade das redes sociais, as pessoas têm procurado ao máximo a popularidade. Agora é a cultura do selfie: “eu, eu, me curte”. Acabam se expondo muito. Vejo as meninas se expondo cada vez mais.

Muitos expõem suas opiniões como se fossem grandes pensadores filosóficos. Com isso, acabam falando coisas que não convém, gerando muitos conflitos desnecessários, por causa dessa falta de humildade. É uma geração desfocada, perderam o foco de verdade. Muitos jovens estão sem saber o que querem, o que devem fazer, o mundo deles é Facebook, Instagram, eles estão sem propósito para viver.

Quero despertar nos jovens essa ideia de propósito, ou seja, algo muito maior que toda essa futilidade. Algo mais intenso no Senhor. Deus é mais do que essa fama, popularidade na internet; esse mostrar a si mesmo constantemente. Temos uma vida espiritual que vale muito mais que tudo isso.

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Sou muito sonhador. Produzo coisas que desejo alcançar na minha mente. Tenho muito a aprender ainda, mas, pela minha idade, me vejo com uma experiência de vida bem grande. Por causa de lugares que passei, pessoas que conheci e coisas que vivi. Porém ainda me vejo como um aprendiz, imaturo em muita coisa, com muito a estudar. Sou curioso, gosto de observar e aprender com as pessoas; isso acho que peguei do meu pai. Gosto de ter referenciais.

Sou uma pessoa ousada, que enfrenta os temores, cada dia tenho os meus medos, coisas que precisam ser vencidas a cada dia. Vejo que sou ousado graças a Deus. Se não fosse isso, seria um cara cheio de complexos de inferioridade, parado, que não acreditava em si mesmo. Mas, por causa dessa Palavra, me vejo como um José que vai desbravar, vai correr a carreira.

Às vezes, por ser muito observador, não sou uma pessoa tão dinâmica (talvez). Sou uma pessoa que necessita de uma pausa, de um tempo para descansar, refletir, recuperar as energias. Sim, eu gosto muito de estar com as pessoas, de conhecer pessoas novas, mas, ao mesmo tempo, eu tenho uma grande necessidade de estar sozinho. Esse é um momento muito importante para mim.

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Gosto de fazer muitas coisas com meus amigos. Mas muitos deles são bem ocupados, e não dependo muito deles. Se quero conhecer um lugar, e não tem um amigo disponível naquele dia, vou sozinho. Se tiver algum deles comigo, vamos lá. Mas não sou dependente deles. Já viajei com um amigo coreano sem dinheiro e foi uma aventura; dormimos na estação de trem, com moradores de rua, em loja de conveniência, foi uma experiência legal. Outra vez, queria repetir a aventura, chamei alguns amigos e até se animaram, mas depois desistiram. Então, fui sozinho conhecer novos lugares no Japão. Gosto de estar ocupado. Fazer várias coisas é muito bom. Gosto de ir à academia, praticar um esporte, isso é sempre um momento bom para mim.

Hoje, tenho amigos no Japão, mas passei mais de um ano fazendo tudo sozinho. Ia para a academia sozinho, por disciplina, conquistando a mim mesmo. Aos poucos, consegui amigos japoneses, eles se empolgaram. É bom ter amigos, mas não podemos depender totalmente deles.

Gosto de ler bons livros. Não sou do tipo que puxo uma conversa rapidamente, mas, aos poucos, vou conquistando as amizades e eles vão me conquistando.

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Meu pai é o meu maior mentor, ele é a pessoa que me acoelho, que tira as minhas dúvidas. Às vezes, só sentado no carro, dando algumas voltas com ele, aprendo muitas coisas. Ligo para ele e, guiado por Deus, ele me fala coisas que batem no meu coração. Eu sei onde ele estava, onde está hoje, como ele tem crescido, amadurecido, ele é meu grande pai.

Pastor Joselito também é um grande líder, um referencial. Foi uma honra congregar na igreja com ele, aprender tantas coisas, é uma pessoa com quem gosto de conversar, confio nele. Por ele ser meu pastor, ser pastor do meu pai, é um homem de fé, amo a postura firme dele.

Existem mentores que não convivo, mas são referenciais para mim. Gosto muito do Manassés Guerra, do jeito, da pregação dele, da vida que ele tem levado ministerialmente. Acompanho algumas coisas dele. Leio seus livros, ouço suas mensagens, pessoalmente só fui a uma pregação dele bem no inicio quando ele estava abrindo a igreja em Curitiba e, quando o vi pregando, me identifiquei. Ele me ajudou em algumas coisas no Rhema, fui puxando da vida dele, gostaria de estar mais perto dele, mas procuro acompanhá-lo de alguma forma.

Outra pessoa que gosto muito e tento acompanhar mesmo de longe é o Simon Potter. Pela vida missionária, pela integridade, sabedoria, pelo caráter. Ele é um homem extremamente sábio. Vi algumas pregações dele aqui no Brasil, mas tive contato com ele no Japão, com sua esposa também, ele é sábio, tem tato para lidar com líderes, tem sensibilidade no espírito. Ele me ajudou também com algumas aulas do Rhema, tenho sido influenciado pela vida dele. É um grande exemplo para a minha vida.

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