Meu nome é Márcio Fernandes. Eu tenho 40 anos e nasci na cidade de São Paulo. No entanto, quando criança, eu morei lá somente por dois anos. Meus pais se conheceram no interior de São Paulo, em Sorocaba – minha mãe morava em Sorocaba e meu pai em São Paulo. Em Sorocaba, havia um zoológico muito famoso; um dia, eles se conheceram lá. Eles se casaram e foram morar em São Paulo. Meu pai era policial militar na época. Eu nasci em São Paulo, mas, com dois anos de idade, eles se mudaram para o interior do estado, para uma cidade chamada Salto; morei em Salto até os 18 anos. Depois de conhecer Paula, nos casamos e fomos morar em São Paulo por três anos. Em seguida, fomos morar em Uberlândia. Se me perguntarem qual é o meu lugar de coração, onde eu passei os melhores dias da minha vida, eu falo que é Uberlândia. Foi uma cidade muito boa que eu adotei como minha terra.

Nós nos convertemos em Uberlândia. Um belo dia, eu estava na empresa em que eu trabalhava e, nesse dia, eu fui lá para pedir para ser mandado embora. Eu sou muito transparente. Então, eu expus as razões pelas quais eu não queria mais trabalhar lá. Eu sabia do temperamento do diretor da empresa; ele era um italiano daqueles bem bravos. Sabia que, se eu contasse as razões, ele me demitiria na hora. Fui lá e coloquei a situação real na frente dele; após ouvir tudo, ele falou: “Olha, obrigado pelo que você nos disse. Eu precisava ouvir isso. Em contrapartida, eu quero lhe fazer uma proposta, para você fazer um trabalho para nós no Nordeste”. Eu aceitei. E estou aqui até hoje. Em 2008, a empresa estava abrindo aqui e tinha contratado dez clientes para começar um trabalho. Durante seis meses, eles não conseguiram desenvolver esse trabalho. Como eu já estava estagnado há um tempo, pois o mercado já estava muito saturado onde eu estava, aproveitei essa oportunidade de vim para o Nordeste. Foi uma coisa bem louca! Como eu achei que ele estava me propondo um desafio profissional, eu falei: “Pode me dar as passagens que eu vou agora!” Isso foi em uma sexta-feira. Na segunda, as passagens já estavam no meu e-mail.

Nessa época, eu estava próximo de fazer uma cirurgia bariátrica, pois pesava 150 kg. Eu já não possuía mais quase roupa nenhuma; estava me desfazendo das roupas, pois iria fazer a cirurgia em 25 dias. Eu não tinha nenhum conhecimento sobre a cidade ou sobre o que eu faria no Nordeste. Sabia somente que iria lidar com dez clientes. Na terça-feira, eu já estava em Recife. Vim para cá sem passagem de volta. Eles possuíam a expectativa de que o trabalho demoraria 30 dias. Quando deu 13 dias, liguei pedindo a passagem de volta, pois já tinha feito tudo que era para fazer. A pessoa que estava me acompanhando falou: “Nós precisamos de você aqui, pois temos outras coisas para você fazer”. Eu falei: “Converse com o meu chefe, pois o que ele decidir está decidido”. Voltei para São Paulo e me operei. Após 30 dias, já estava no Nordeste novamente, para lidar com mais dez clientes. Comecei como representante comercial autônomo; hoje, tenho uma empresa com 11 funcionários comigo. Trabalhamos com automação comercial; vendemos um aplicativo para supermercado.

Quando eu vim nessa segunda leva, já estava certo que eu ficaria em João Pessoa. Então, eu vim fazer esse novo trabalho e, em seguida, compraria as passagens para Paula e Bela chegarem também. No quarto dia, eu estava na cidade de Cacimba de Dentro; lá, o sinal de celular não pegava. O pessoal da empresa conseguiu me contactar e me informaram que minha esposa queria falar comigo. Quando eu falei com ela, ela me informou que meu pai havia falecido. Depois de um tempo processando a informação, eu falei: “Eu sei que será difícil as pessoas entenderem a atitude que eu vou tomar, mas, infelizmente, eu já fiz o que eu podia fazer por ele. Eu acredito que ele estará em um lugar melhor que nós e eu tenho que cuidar daqueles que ficam. Eu vou seguir o meu trabalho aqui, até porque, se eu sair daqui, não vou mudar o que aconteceu e não chegarei a tempo de consolar as pessoas. Então, se vocês puderem ir até lá, vão. Eu vou terminar o meu trabalho; quando terminar, eu vou para aí, para dar um abraço nos meus irmãos e na minha mãe”.

Um pouco antes de sua morte, eu havia estado com ele, para comunicar essa mudança para o Nordeste. Ele era alcoólatra; faleceu por conta de uma hemorragia estomacal em função de uma cirrose hepática. Eu já havia visitado e oferecido toda assistência que poderíamos oferecer, inclusive com a possibilidade dele ser internado e fazer um tratamento médico. Então, eu continuei o meu trabalho. Com esse acontecimento, elas não foram me encontrar, pois eu tive que voltar depois de terminar o trabalho para falar com a minha família. Ao invés de Paula me ajudar a escolher o apartamento que moraríamos, mandei foto de dois apartamentos para ela escolher à distância e fechei negócio na imobiliária. Foi tudo muito prático. Já estamos adaptados à mudanças.   

A minha história com Paula é uma coisa louca. Somente entendendo como nos conhecemos para entender como estamos juntos até hoje! Por conta do problema do meu pai, eu sempre quis sair de casa, pois, quando você não possui um lar estruturado, a válvula de escape é sair de casa. Eu comecei a trabalhar muito cedo; quando tinha nove anos, meus pais fabricavam salgados e eu ia vender na porta da fábrica. Quando eu tinha 11 anos, meu pai abriu uma loja de cortinas. Eu estudava à tarde e, pelas manhãs, ficava na loja. Quando fui para o ensino médio, estudava à noite e ficava de dia na loja. Em um determinado período, havia uma empresa que estava contratando pessoas a partir dos 16 anos; então, fui para lá. Nessa empresa, conheci a Paula. Começamos a conversar, ela começou a falar dos problemas dela. Ela contou sobre a mãe dela, que era dependente de remédios, e eu me lembrei do meu pai. Então, começamos uma amizade. Ela tinha namorado, e eu uma namorada, mas éramos amigos de trabalho. Essa amizade foi se aprofundando até que, um dia, eu falei: “Eu acho que dá mais certo se eu ficar com Paula do que com a minha namorada”. Ela largou o namorado dela, eu larguei minha namorada. Começamos a namorar.

 

Eu a admiro pela força e pela coragem que possui. Desde quando nós éramos namorados (começamos a namorar quando possuíamos 17 anos de idade), ela vem demonstrando essa coragem. Com quatro meses de namoro, falei para ela: “Vamos nos casar?”. Ela aceitou. Casamo-nos com sete meses de namoro. Admiro esse caráter que ela tem de confiar nas minhas loucuras.

Ela é uma pessoa muito carinhosa; na verdade, ela me ensinou o que é amar. Não sabia o que era amar antes dela. Não me importava com aniversário, com datas, com nada. Ela, no entanto, sempre foi carinhosa. Em todo aniversario, ela fazia algo. Um dia, Deus falou comigo: “Você sabe o que é o amor! Eu sou o amor e você aprendeu isso com ela e comigo. Você precisa demonstrar. Ela sabe que você a ama por tudo que vocês passaram, mas, você precisa demonstrar isso com atitudes”. Após isso, resolvi mudar. Desde então, tenho aprendido a como cuidar dela. Tivemos problemas no nosso relacionamento; quase nos separamos. Graças a Deus que isso não aconteceu! Há um ditado no mundo que diz: “O que não nos destrói, nos fortalece”. Foi justamente isso: não fomos destruídos; fomos fortalecidos. A admiro por essa força, por entender essas loucuras e por ser um complemento. Eu acho que jamais vou encontrar alguém na vida que irá me complementar como ela me complementa. Eu a amo e espero que ela tenha paciência para me aguentar até o fim dos dias das nossas vidas. Para mim, Paula é todo esse referencial de mãe e de mulher, de carinho, de amor e de paciência. Todos os dias, eu aprendo mais com ela.

Isabela foi meu presente de aniversário. Quando ela nasceu, alguns dias depois, fiz 21 anos. Foi muito difícil, pois, no caso de um casamento, perante a lei dos homens, é “fácil” você desmanchar o compromisso. No entanto, não há como você voltar o processo no caso de filhos. Quando ela nasceu, eu falei: “Meu Deus! Agora, o negócio ficou sério!”. Foi algo maravilhoso, pois crescemos junto com ela. Ela nunca nos deu problema. Sempre foi uma pessoa calma e serena; alguém com a qual tivemos o cuidado grande de ensinar o que é correto. Ela foi uma semente que nós regamos com muito carinho, amor e dedicação. Passou todas as dificuldades com conosco, vejo que isso a tornou uma pessoa forte e de caráter. Eu admiro essa coragem dela, de estar longe da família hoje, pois nós a criamos buscando nunca deixar nada faltar a ela – seja na parte financeira ou na parte familiar. Essa ida dela para fora foi um sinal que nós cumprimos o nosso objetivo. Dá um orgulho de ver que tudo que nós plantamos está frutificando. Ela é a realização de um sonho meu. Eu tenho uma vontade tremenda de morar nos EUA e de falar inglês fluente. Eu sei que eu vou realizar esse sonho um dia, mas, se eu não o realizar, ele já está realizado, pois o fato dela estar lá, para mim, é como se eu estivesse. Eu peço que Deus nos dê sabedoria para continuar a guiando e que ela seja melhor do que nós.

Como eu comecei a trabalhar cedo, possuía o objetivo de me aposentar cedo. Antes de João Luca nascer, eu possuía uma condição que me impedia de ter mais filhos. Fomos ao médico e ele chegou a falar que, no nosso caso, as soluções eram fertilização in vitro ou milagre. Em 2013, começamos a fazer o Rhema. Quando começou a matéria “Cristo aquele que cura”, aquilo falou muito forte comigo. Naquele ano, Kenneth W. Hagin veio ao Brasil para ministrar e, em uma de suas ministrações, ele falou: “Se você tem um problema que, aos olhos da medicina já foi detectado, venha aqui na frente”. Eu fui o primeiro a receber a imposição de mão e recebi a cura. Depois de 30 dias, Paula já estava grávida. Se alguém tem dúvidas de que milagres existem, ele foi um milagre! Depois disso, meus planos de aposentadoria acabaram.

João Luca foi meu energético. Como eu estava em um ritmo descendente, eu comecei do zero de novo. Eu comecei a redesenhar a minha empresa. João Luca veio para me dar uma nova visão de vida; hoje, eu me vejo com mais vigor para fazer as coisas do que quando eu tinha 20 anos de idade. Eu tenho um blog sobre a minha obesidade, para poder incentivar pessoas a fazer a cirurgia e pretendo escrever um que é “40 é melhor que 20”, pois, hoje, com 40 anos, tenho mais vigor do que quando eu possuía 20 anos de idade. E o maior motivo disso é o João Luca, pois ele me motiva a buscar novos caminhos e a traçar novos objetivos. Quero que ele tenha tudo o que a Isabela teve e muito mais. Hoje, eu tenho mais tempo para cuidar dele do que eu tive com a Isabela; onde eu posso, levo ele junto. Eu o deixo fazer tudo comigo, pois, quando a Isabela nasceu, praticamente nos primeiros anos de vida dela, eu trabalhava constantemente. Hoje, já tenho mais esse cuidado.

Então, para mim, ele é esse renovo e um dos maiores exemplos de milagre. Até os dois anos de idade, ele não falava, mas eu estava tranquilo, pois eu sabia que nenhum milagre vem imperfeito. Eu sabia que, no tempo certo, ele falaria. Hoje, eu tenho que falar para ele parar de falar! (risos) Ele é uma pessoa extremamente inteligente e com personalidade forte. Para mim, foi um renovo de força e de energia que Deus me deu; como se Ele estivesse falando: “Pensa que acabou? Tem mais ainda para você”. Ele é minha motivação; enquanto Deus me der força e sabedoria, vou trabalhar e vou servir. Esse é o talento que Deus me deu e eu não voltarei com o meu saco vazio.

Como pai, eu procuro atender às expectativas dos meus filhos. Eu gostaria de ser filho de mim mesmo! Eu acho que eu seria um bom pai para mim mesmo! (risos) Às vezes, eu sou pai até demais. Por exemplo, tenho 11 funcionários; às vezes, eu passo muito a mão na cabeça deles, para evitar que eles sofram. E isso pode ser uma falha. Às vezes, a pessoa precisa passar por algumas dificuldades, para aprender a dar valor. Por mais que você tente explicar a ela; infelizmente, muitas coisas, ela só aprenderá no dia-a-dia. Então, como pai, eu sou até um pouco pai demais. Eu estou tentando controlar isso. Um dos motivos de deixar a Isabela morar fora é justamente para que ela aprenda com as dificuldades. Uma pessoa me falou algo uma vez que me marcou muito. Ele falou que morar longe dos pais é o lugar em que o filho chora e o pai não vê. E isso me marcou. Como pai, eu sei que eu sou um bom pai! Tenho coisas a melhorar; preciso tirar um pouco o corpo da frente, para que eles sintam um pouco da realidade.

Sobre gratidão, primeiramente, eu sou muito grato a Deus. Se eu fosse colocar todas as pessoas por quem eu sou grato, seria uma lista imensa de pessoas. Eu gostaria de honrar todas as pessoas que passaram pela minha vida; independentemente de terem feito bem ou mal, eu aprendi alguma coisa com cada uma delas. Também honro todo o Ministério Verbo da Vida, pois foi um divisor de águas na minha vida espiritual. Eu também gosto muito de honrar a minha tia Augusta. Sempre que ela faz aniversário, gosto de mandar alguma coisa para ela, pois, por incrível que pareça, ela não é cristã. Ela é uma pessoa que possui vícios, mas tem algo que, às vezes, eu não acho no meio cristão: um coração pronto para servir. O que aprendi sobre servir foi com ela. Eu aprendi isso com ela e exerço o que eu aprendi dentro da igreja. Eu também honro a minha família. Acho que, se eu colocar nomes, eu serei injusto.                                      

Márcio é uma pessoa que não aceita não como resposta. É uma pessoa que procura sempre fazer as coisas na melhor forma possível. Eu acho que esse senso de autocrítica é muito aguçado em mim. Tenho o prazer em servir; quando Shirla Lacerda – uma pessoa que eu admiro muito como ministra do Evangelho – falou sobre o ministério de socorros, me tirou um peso muito grande das minhas costas, pois eu não era de nenhum dos cinco dons. Quando eu descobri o dom do ministério de socorros de servir, eu descobri que era para isso que eu sirvo. Eu sirvo para servir. É um prazer muito grande servir no ministério. Eu vejo o serviço que nós prestamos aos ministros como uma forma de honrá-los. Eu sei o peso que é você ser um ministro do Evangelho; então, eu vejo que eles possuem um talento que Deus deu – o talento de honrar e de ensinar as pessoas. E tem que haver uma recompensa para isso. Quando nos preocupamos em tratá-los com honra, em fazer com que eles cheguem nos lugares, isso despertou dentro de mim esse desejo de servir. Por isso que, quando me chamam para servir os ministros, só se estiver chovendo canivete e eu não estiver com o meu guarda-chuva de aço para não ir. Caso contrário, eu vou para poder honrá-los. Então, se fosse para me definir, eu diria que eu sou uma pessoa que gosta de servir e que possui humildade para aprender. Eu nunca sei tudo de tudo; eu acho que, quando o ser humano acha que sabe tudo de tudo, esse é o inicio do seu declínio. Eu tenho a consciência de saber que eu ainda preciso aprender muito. Como o pastor Humberto diz, eu sei que a minha humildade vai me colocar em lugares onde jamais a minha arrogância me permitirá colocar os pés. Eu busco isso e me defino dessa forma.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA