Eu tenho 50 anos e sou de Matinhas, uma cidade próxima à Campina Grande-PB, é uma cidade pequenininha… Eu brinco que é a minha “Barbacena” (risos), fica no brejo da Paraíba, a cerca de 20 km daqui. Nasci no campo, na roça mesmo e fui criado em meio à agricultura.

Meu pai me levava para plantar e colher, essa era a minha vida na infância. Cresci longe da educação, porque meu pai tinha um pensamento de que os filhos tinham que trabalhar. Para ele, estudo era algo secundário, na verdade, desnecessário. Hoje, eu o entendo, porque era a forma como ele entendia que as coisas funcionavam. Foi o que ele recebeu, e assim ele repassou para nós. Até os 12 anos eu era analfabeto.

Quando eu tinha 12 anos, um senhor, chamado Cicero Flor se compadeceu da gente (de mim e dos meus irmãos) foi falar com meu pai e disse: “rapaz, eu não queria que esses meninos ficassem sem estudar, tem o Mobral aqui e eles podem estudar”. Éramos seis irmãos. Acredito que os leitores mais velhos devem lembrar do Mobral, era um sistema de ensino do governo para ensinar adultos a ler e escrever (estou eu aqui expondo o tempo passado). Meu pai falou para o seu Cicero Flor que a nossa caneta era o cabo da enxada, essa era a ideia passada do seu pai para ele e era a que ele passaria para nós, seus filhos.

Seu Cicero, insistiu: “faz o seguinte, deixa eles virem estudar a noite e eles podem permanecer trabalhando”. Então, fomos estudar a noite e trabalhar durante o dia. Normalmente, 19h30 já estávamos na sala de aula, mas não demorava e, na segunda parte da aula, eu já dormia de tão cansado do trabalho. Com muito esforço, consegui ser alfabetizado.

Quando cheguei para morar em Campina Grande, em 1981, após pressionar nosso pai para vir, foi quando comecei a desenvolver a leitura mesmo. Tudo o que eu via, eu lia – tampa de margarina, folheto, gibi, jornal. Fui para a escola particular, aos 15 anos de idade, em busca de me matricular e eles me pediram um histórico e eu não tinha. Eu cheguei lendo e escrevendo, mas sem documentação regular, porque tinha sido alfabetizado no Mobral. A diretora da escola disse que eu precisava do histórico e eu contei a minha história para ela. Fiz alguns testes,  ali vi a importância da leitura, porque tudo o que ela me mandou escrever, eu escrevi, graças a tudo o que li. Ela me colocou para começar na quinta série e conclui o primeiro e o segundo grau. Só não segui para o curso superior, mas desejei muito, precisei seguir trabalhando e essa parte falo com muita alegria.

Quando cheguei em Campina Grande, fui trabalhar com a venda de jornal, falo sobre isso com muito orgulho, porque estamos falando da década de 80, uma década difícil. Trabalhávamos muito e um trabalho duro, puxado, com uma economia bem complicada na época.

Era o fim de um governo militar e o primeiro emprego que achei foi nesse jornal, mas, vender jornal foi algo que me ajudou demais. Me falavam: “rapaz tem uns jornalistas aqui que foram jornaleiros como Paulo Roberto e até Ronaldo Cunha Lima, que se tornou Governador”, e eu pensava: “cara, esse negócio pode dar alguma coisa” (risos). Na época, “Diário da Borborema” “Gazeta do Sertão” “Jornal da Paraíba” e como foi maravilhoso aquele tempo, fiz uma clientela.

Quando estava com meus 17 anos, fui convidado para ser distribuidor de jornais e, pelo meu esforço, depois saí da área de distribuição para chefe de circulação. Logo em seguida, me tornei gerente comercial do jornal da Paraíba; fiquei por mais de 6 anos e depois passei a ser gerente de assinaturas da revista “Isto É” – uma revista de circulação nacional, vinculada ao estado de São Paulo. Passei mais de 10 anos como gerente na Paraíba, essa é a minha história profissional na área da comunicação.

Essa foi minha trajetória com cerca de 14 anos de idade, apenas alfabetizado e, a partir daí, o meu esforço para aprender mais e mais, me dedicando a pagar para aprender, enquanto trabalhava, pagava pelos meus estudos, isso foi dos meus 14 até por volta dos meus 28 anos. Lembrando que, na época tudo era tão difícil que eu morava distante e eu saia de casa a pé para o trabalho para economizar o valor da passagem que era suficiente para comprar um pacote de fubá. Nessa época, eu ainda morava  com meu pais. Lembrando que o valor de uma passagem de ônibus era equivalente ao valor de um pão, então, com o que eu economizava da passagem eu preferia trocar pelo pão. Chegava em casa cansado, mas comia aquele pão. Não tenho vergonha de contar isso, tenho orgulho.

A lição que eu tirei disso tudo é que você não deve ter vergonha do seu passado. Nem das coisas que são colocadas diante de você. Se você tem caráter e integridade, deve passar por todos os obstáculos sem ter que negativá-los no passado. Não é porque cheguei a um ponto mais estabilizado, que não posso dar um testemunho para as pessoas de onde saí. Eu sempre terei o que contar e terei lições para contar, porque a vida de integridade me levou para onde estou hoje. Talvez alguém fique perguntando, se onde estou hoje é uma posição ministerial ou profissional, mas me refiro a minha vida familiar e pessoal com um padrão segundo a vontade de Deus.

Sou grato aos meus pais, Seu Manoel Cunha e a minha mãe Maria Nazaré. Espero que não ignorem o que vou falar, mas eu não gerei o modelo de família que me pai gerou para mim. Porque meu pai já veio de outras orientações. Ele foi vítima da ignorância da vida. Não se pode extrair de uma pessoa o que não se colocou lá. Mas eu olho para ele, hoje, com muito amor. Eu tenho o privilégio de tê-lo vivo com 84 anos e a minha mãe com 80 anos. Olho para ele e sou grato porque ele me ensinou os valores morais. Amo demais a vida do meu pai. Passa um filme na minha cabeça agora a respeito de muitas coisas. Ele é um guerreiro, me deu tudo o que tinha, me deu o melhor que tinha. Se ele tivesse o que eu tenho hoje, me daria. Oro pelos meus pais todos os dias.

Quando entrei no evangelho, passei a compreender coisas que eu carregava como razão a minha vida inteira e a Palavra me ensinou que os valores que eu carregava era deturpados e errados. Fiz coisas que não eram legais. Antes de ser cristão, tive um primeiro casamento, me casei ainda jovem, com 20 anos. Com 21 anos, já era pai de Thayanna. Minha primeira filha. Casei cedo, porque, como falei, vim de uma família cheia de pressões financeiras, familiares, culturais, educacionais… Mas eu já tinha um olhar no futuro. Eu acho que fugi mais de casa, nem foi um casamento, foi uma fuga. Pensei: “quero ter minha casa, meu refúgio”. Isso aconteceu com meus irmãos e irmãs também. Muitos saíram de casa cedo. Essa falta de experiência, me levou a não saber administrar o casamento. Não foi culpa do cônjuge, eu sempre honro a vida dela. É uma pessoa sensata e equilibrada, infelizmente, não deu certo, mas nos restou um fruto poderoso: a nossa filha Thayanna Cunha.

Inicialmente, ela ficou com a mãe, mas ela olhou para a minha vida e acabou vindo morar comigo por ver o Evangelho funcionando em mim. Ela me viu cristão, pois me converti logo depois da separação, não demorou e casei com Josinete Cunha e isso foi um presente de Deus para a minha vida.

Eu já estava com uns 27 anos, um pouco mais maduro, cristão, um olhar diferente para a vida, as coisas foram acontecendo…

Josinete é uma mulher sensata, equilibrada, tranquila, simples, humilde, não gosta de ostentação, ela calçou a minha vida. Eu já vinha com a experiência do primeiro casamento e isso foi melhor até para ela também. A partir daí, foi nascendo os nossos frutos (risos). São quase 25 anos de casados, quatro filhos com ela: Junior, Sara, Suanny, Jennifer. Além de Thayanna do primeiro casamento, completando assim, cinco filhos.

Noberto pai é um cara muito bagunceiro, palhaço e amigo, mas também, dou muito sermão. Sou de conversar, abraçar, chorar junto, sou muito família. Nos meus momentos livres, quero estar com eles.

Certa vez, tive uma experiência de entrar no quarto e encontrei Sara, que hoje está com 18 anos, mas ,na ocasião, estava com uns 12 anos, ela chorava compulsivamente, inconsolável e perguntei: “o que houve minha filha?” E ela falou: “eu queria que congelasse tudo aqui em casa, esse tempo, a gente não crescesse, ninguém envelhecesse, ninguém casasse, saísse de casa porque quando penso que vamos crescer, casar, e essa família vai se separar isso me dá muita tristeza e estou chorando por causa disso…”  Naquele momento, eu sai impactado daquele quarto. Pensei: “esta ai uma resposta para o valor da família. porque ela almejava inclusive abrir mão de um futuro casamento para manter aquela mesma vida, aquilo já era o suficiente para ela. Ela estava vivendo dias bons ali.

Eu entendo que algumas pessoas não querem ter filhos. A gente vê o mundo atualmente, cheio de pressões e dificuldades. Mas também fico com certo cuidado quando vejo as pessoas fazendo cálculos demais e tendo muito medo de ser pai ou mãe. Pensando nos custos, em como cuidar; pensando em como vai ser o futuro delas…  Alguns fazem o esforço para ter o mínimo possível de filhos. Respeito. Mas tenho uma visão mais aberta, não me limitei nessa questão. Fui pai cinco vezes e faria tudo de novo. Nos momentos mais difíceis financeiros que fui pai, eu vi Deus abrir portas sobrenaturais para que as coisas acontecessem. Vi Deus me favorecendo. Vale a pena. Uma família em Cristo vale a pena, sou muito feliz!

Além dos meus cinco filhos naturais, eu tenho os meus filhos espirituais e os jovens, em especial, estão no meu coração. Certa vez, uma missionária me falou que eu tinha um certo “chamego” com os jovens (risos), e é verdade! Ela me falou que é a vontade de Deus que eu gere esses filhos espirituais e eu vejo que isso tem sido real em minha vida. Aos 40 anos, eu gerei o evento JPN e, hoje, 10 anos depois, com meus 50 anos, eu ainda cuido desse evento, e me dou de coração, porque amo cuidar de jovens. A minha casa é cheia de jovens. Eles têm acesso a mim. Eu vi que é algo da parte de Deus. É um sentimento de paternidade mesmo. Alguns deles, não têm pai e veem em mim esse sentimento de pai e eu cuido deles como um.

Um dos maiores problemas que os jovens enfrentam é a desestruturação familiar. Porque muitos pais não sabem lidar com os filhos, não sabem aconselhar, a maioria dos pais não conhecem o Senhor e alguns dos que conhecem, não conseguem mais administrar a base familiar desses jovens. Assim, eles ficam muitos feridos e sem referência de pai e mãe. Eu acompanho alguns diretamente e alguns estão machucados, mas sempre recomendo que eles honrem pai e mãe, independente de se os pais são cristãos ou não. Porque é mandamento e a Bíblia é clara quanto a isso. Foi o meu caso, a minha vida se acertou quando eu fui entender as limitações do meu pai. Então, eu não joguei a conta para cima dele, eu assumi a conta e liberei perdão. Quando honramos pai e mãe, a Bíblia fala a respeito de dias felizes. Se você quer ser feliz, ter dias longos, o princípio é honrar pai e mãe, independe de.

Eu estava observando a história de Billy Graham e pensando: “rapaz, quem conviveu com um homem desse é feliz nessa terra”.

Tenho alguns referenciais. No âmbito ministerial, vou citar alguém que estou do lado há 20 anos: o pastor João Roberto. Depois que você convive com alguém por todo esse tempo, você tira muitas lições. Ele é um homem de caráter. Eu estou ao lado de um homem de Deus. Eu decidi honrar a vida dele e me submeter. Ele é o meu mentor. Durante esses 20 anos, ele me curou de muitas coisas. Quase 50% do tempo de vida que eu tenho é do lado dele e, nesse percentual extraio muitas coisas dele.

Tenho meus dois irmãos, o mais velho e o mais novo são exemplos de caráter na minha vida. Flávio e Claudio Cunha. Eles são dois exemplos, mesmo não estando perto, eles marcaram a minha vida. Pelos conselhos, pela ajuda e suporte.

Não sou um homem que seguro lágrimas, choro muito com o sofrimento das pessoas. Sou uma pessoa que já peguei meu dinheiro e a minha feira e dei para as pessoas, não gosto de ver filme dramático, porque choro muito. Não gosto de injustiça, não gosto de ver pessoas sofrendo injustiça. Sou dramático mesmo… Me importo muito com a causa alheia.

Não gosto de mentiras. Eu tenho uma oração que repito sempre. Tem valores que repito para mim mesmo. Digo sempre: “Senhor, eu não sou mentiroso”. Mentira é um espírito e repreendo em nome de Jesus, não sou orgulhoso e invejoso. Esses comportamentos são como carrapichos e isso nos torna soberbos. E luto para isso não ser impregnado em mim. Admiro quem não se deixa levar por isso.

Digo aos jovens: “Seja verdadeiro comigo. Quer me frustrar? Minta para mim”. Eu fico decepcionado se alguém mente para mim.

Sou grato a Josinete, minha esposa. Ela tem uma sabedoria que não sei explicar, uma mansidão enorme, isso funciona muito, essa mansidão dela me ajuda muito no ministério. Ela me suporta nos bons e maus momentos, ela ri e chora comigo, e não saiu do barco, mesmo quando ele parecia que ia afundar.

Sou muito grato aos meus pais. Por tudo que são e representam na minha vida.

Ao pastor Bud, meu Deus, como sou grato por tê-lo conhecido. Às vezes, quando sento ali na minha cadeira na igreja sede, e olho para a minha direita, que era o lugar que ele sentava bem na ponta da fila. Quando olho e não o vejo mais, sinto muita falta dele…

Só ele ali, sem pregar, as vezes, só reclamando, porque algo aconteceu e eu não vi e ele dizia: “irmão, você não viu isso não?” (risos) ele faz muita falta… Ele deixou uma lacuna e eu não sei quando vou me acostumar com a ausência dele. Não gosto de ver os vídeos com ele. Essa gratidão se estende à mama Jan, claro…

Mas quem eu era, quem era a minha família, pobre miseráveis, de mentalidade mesmo. De valores. Quando cheguei para essa entrevista lhe perguntei: “estou dentro do tempo?” e olha que eu estava na hora, mas isso foi o pastor que me ensinou – a ser pontual.

Eu queria ver uma avaliação sobre mim, pareço ser um cara chato para algumas pessoas… Eu tenho um jeito de falar que parece ser chato, mas sou fácil de lidar, tenho um coração grande. Sou generoso, mas quero crescer nisso ainda mais. Gosto de dividir as coisas com as pessoas.

Tenho alguns sonhos. Creio nos meus filhos casados, bem casados. Quero terminar os meus dias no campo, voltar para onde comecei meus dias, gosto do campo. Acho que eu vim cumprir uma missão e, quando terminar, eu quero voltar para lá. No tempo certo, quero voltar para lá.

Quando eu estiver bem velhinho, quero morrer no campo. Perdi o medo da morte. É natural calcular os seus dias, principalmente quando vamos envelhecendo. Já estou com 50 anos, acho que faltam ainda uns 35/40 anos; comecei a me acostumar mais com isso quando passei a olhar mais para a eternidade.

O que me espera é maior do que o que eu tenho, esse caminho é um trajeto bom. Não faço com medo. Então, definitivamente, perdi o medo da morte. Quero encerrar meus dias olhando os lírios do campo.

1 COMENTÁRIO

  1. Uau!! Que lindo… quantas riquezas de lembranças e detalhes. Amo vc, sua vida, sua família… fui as lágrimas. Creio que juntos olharmos os lírios dos campos.

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