Sou de Fortaleza, tenho 30 anos.

Sou cearense. O Ceará é uma terra que tem um povo que ama receber pessoas, é um povo caloroso, receptivo. Moro em uma cidade que tem um litoral maravilhoso, com um povo muito alegre, divertido, feliz, uma cidade muito movimentada. Fortaleza é a quinta capital do país e, é uma cidade gigante, que tem muitas opções de diversão.

Todo cearense tem uma veia cômica e sabe fazer uma graça, sabe fazer as pessoas sorrirem, isso é algo espontâneo, não existe escola, a gente simplesmente nasce com esse talento. Acho que é um povo que encontrou na alegria uma forma de fugir dos grandes problemas que existem por lá, a desigualdade social e outros desafios. Então, eu acho que é uma forma de saírem dessa realidade um pouco cruel.

Família para mim é muito importante, é a minha base,  amo a minha família. Quando eu tinha apenas oito anos de idade, meus pais se divorciaram. Meu pai se chama Norberto, (eu, Norberto Jr), minha mãe chama-se Ana Maria. Nessa época, a minha mãe já era cristã e eu também já tinha me convertido na Igreja Presbiteriana, ainda criança, tanto eu quanto meu irmão.

O meu pai, apesar de não ter dado certo o casamento dele com a minha mãe, ele sempre foi um excelente pai, sempre muito presente, eles entenderam que não dava mais pra ficarem juntos. Minha mãe tentou restaurar o casamento dela várias vezes, mas meu pai, infelizmente teve outra pessoa fora do casamento e acabou deixando a minha mãe para ficar com essa pessoa.   

A primeira coisa que achei impressionante foi a capacidade de perdoar da minha mãe, ela o perdoou de uma forma sobrenatural. Nunca deixou ele ficar longe da gente. Então, meu pai não precisava de horário pra nos visitar. Por isso, não sofremos quase nada com a separação deles. É claro que gostaríamos que os nossos pais estivessem juntos, meu pai ainda não é cristão, mas desde aquela época ministramos pra ele. Ele separou-se novamente tempos depois. Minha mãe permaneceu sozinha desde então. Não sei se ela deseja permanecer assim.

A separação deles nunca abalou a nossa fé, pelo contrário, fortaleceu ainda mais não só a mim, mas a minha mãe e meu irmão também. Ficamos muito juntos e unidos. Até para dar esse suporte para a minha mãe. Isso acabou ajudando-a também.

Tenho apenas um irmão, o Diego, que é mais novo do que eu dois anos. Somos bem diferentes. Temos personalidades opostas. Fisicamente temos certa semelhança, de chamado somos bem diferentes. Durante a nossa adolescência essa diferença foi bem mais acentuada, tivemos alguns conflitos, eu achava que ele não era tão presente na minha vida, ele achava que eu o sufocava demais, mas essas diferenças ao longo da nossa caminhada serviram para nos complementar. Hoje, adultos, somos bem unidos.

Hoje, a gente tem uma relação de amizade muito profunda e íntima. Somos muito amigos. Investimos no chamado um do outro. A gente se ajuda, se motiva, se encoraja pra vivermos tudo o que Deus tem pra nós. Cada um na sua área. Eu sei que ele irá para outros países e eu vou ficar, mas a gente vai se complementando. Eu vou cuidando da mamãe enquanto ele vai seguindo e fazendo o que ele precisa fazer. A gente encontrou esse equilíbrio. Que bom que encontramos isso, porque é tão bom quando a gente descobre que precisa de alguém e aquela pessoa tem algo que você precisa e pode lhe ajudar. Aprendemos a aproveitar o que o outro tem de bom.

Eu sou médico e trabalho no SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) em Fortaleza. Até alguns anos atrás, eu não considerava a medicina como parte do meu chamado. Era um sonho de infância que eu tinha, apesar de ter um contexto que nada favorecia para estudar medicina, porque geralmente é uma faculdade muito cara e difícil de ser aprovado. Então, para conseguir, você precisa estudar em uma escola melhor, ter acesso a bons livros. Eu acredito que tem coisas que Deus lhe dá a direção de fazer e tem coisas que você escolhe fazer e Deus diz: se você fizer, eu vou lhe abençoar. A medicina foi mais ou menos isso. Foi um sonho meu e o Senhor me disse que se eu fizesse, Ele iria me abençoar. Foi um presente de Deus na minha vida, eu não esperava nunca pelo contexto de vida que já passei de cursar medicina, de ser médico, atuar na área.

Esses últimos anos, depois que me formei, tenho visto Deus abrir muitas portas do meu chamado dentro da minha profissão que é muito bonita, pois cuida e ajuda as pessoas, não tem preço você poder ajudar alguém com seu conhecimento. Apesar de que, o conhecimento da medicina é ínfimo em relação ao poder que a Palavra de Deus tem para fazer na vida das pessoas, a nível de transformação. A medicina é como se fosse uma ponte para levar a Palavra para as pessoas.

 

Eu tenho uma personalidade muito agitada, gosto de correria, de cidade grande, me identifico muito com a adrenalina na medicina que uma emergência, resgate, terapia intensiva UTI possuem e essas são as áreas que mais gosto de atuar, apesar de antes eu achar que não teria “estômago” para atuar nelas.

Descobri um Norberto extremamente calmo nas horas de pressão. Descobri no meio da faculdade. Hoje, atuo mais nessa área.

Já vi muitos milagres acontecerem diante de mim, vi situações bem complexas também.

Algumas me marcaram mais. Esse ano, uma criança, recém nascida, nasceu com problemas de coração e tinha apenas 8 horas de vida e seu problema só podia ser revertido com cirurgia. Era uma má formação cardíaca. Ela nasceu na cidade de Quixadá, interior de Fortaleza, uns 400 km da capital e a gente precisava fazer esse transporte desse recém nascido na incubadora para a UTI neo natal em Fortaleza, só que era um caso muito grave. Teoricamente, ela teria que ir de transporte aéreo, porque a viagem de ambulância, duraria umas duas horas e meia. Nesse dia o aeromóvel estava parado por problemas e tínhamos que fazer o transporte terrestre. A criança estava entubada e para levá-la teríamos que usar um aparelho chamado ventilador mecânico, mas o nosso estava quebrado, usamos um chamado “ambu” onde o médico tem que ficar fazendo manualmente a respiração da criança 60 vezes por minuto (eu lembro até hoje…).

Apesar do risco, eu decidi fazer o transporte, orei com a equipe e fomos. Disse que eu ia aguentar ficar duas horas e meia respirando por aquele recém nascido através da minha mão. Eu poderia ficar cansado como fosse, mas iria até o fim. Então, conseguimos chegar na UTI do hospital depois de duas horas e meia. Foi um transporte bem difícil, a criança complicava no meio do caminho, mas ela chegou bem, fez a cirurgia e, recebi uma notícia mês passado que ela estava bem, desenvolvendo bem dentro da limitação, claro, por ter nascido prematura, com más formações, mas está desenvolvendo bem e a mãe está super feliz! 

Existe uma graça de Deus para fazer as coisas que eu faço. Talvez, se fosse outro médico não teria arriscado. Você correr o risco de uma criança morrer em suas mãos no caminho, é você levar aquele peso de culpa para o resto da vida. Mas, me senti o pai daquela criança naquele momento. Dei um abraço naquela mãe eu cheguei no hospital com a criança nos meus braços…

Ver a gratidão das famílias depois de um atendimento bem sucedido não tem preço. Isso só lhe incentiva a estudar mais e fazer melhor, você tirar aquela pessoa do risco eminente de morte e você poder dar um futuro novo pra ela é recompensador. É uma sensação que não sei explicar. É como se você sentisse a mesma sensação que Jesus tinha quando ele ressuscitava os filhos daquelas mães e os entregava de volta.

Teve um caso de um adolescente de apenas 13 anos que foi vítima de bala perdida no interior do Ceará. A bala entrou no olho e saiu do outro lado do cérebro. Quando eu cheguei no local para entubá-lo e colocar no ventilador mecânico ele já estava com suspeita de morte encefálica. Para a medicina a morte encefálica é algo irreversível, tanto que ali mesmo eles já falaram em doação de órgãos e essas coisas. Os pais dele eram crentes e no meio daquilo tudo, me veio por dentro algo, coloquei as minhas mãos em cima dele e falei: “Volte a vida agora, em nome de Jesus, você vai viver!”.

Fiz o transporte cheguei no Hospital de Trauma em Fortaleza e ele sem responder nada ainda, assim que eu o coloquei no hospital, ele começou a apresentar alguns sinais de desenvolvimento neurológico. Esses últimos dias, a família mandou uma foto dele pra mim. Ele está bem, sem o olho, mas vai ganhar uma prótese, mas ele está vivo, normal e por incrível que pareça sem sequela nenhuma. Um rapazinho de 13 anos, com uma vida inteira pela frente. Cristão, da igreja, que poderia ter perdido a vida ali.

Eu creio que quando você está em um lugar, tem que estar sensível para saber o que Deus quer fazer para lhe usar. Só Deus sabe o que esse jovem vai ser e o que ele vai fazer de história nessa Terra. De pregar a Palavra, falar dos milagres de Deus na vida dele e saber que eu estive lá naquele momento e fui usado por Deus para intervir sobrenaturalmente também, é algo muito impactante para mim.

Eu não sou aquele médico que fica falando o tempo todo e evangelizando todo paciente que entra no consultório, mas eu procuro estar sensível. Algumas vezes, Deus me manda falar algumas coisas e vou lá e converso, demonstro Jesus, o amor de Deus, e algumas vezes, Deus manda eu orar de uma forma muito específica. Quando preciso, faço com todo mundo, inclusive com a equipe sem problemas. Todos eles me conhecem, sabem da fé e do Jesus que carrego. Do poder da salvação, não tenho vergonha. Se precisar, oro, as orações internas são constantes…

Infelizmente, já lidei com a perda de pessoas diante de mim, infelizmente nenhum ser humano está pronto para lidar com a morte, porque fomos criados para a vida para vivermos eternamente, a morte em si traz um pesar e pra um médico traz uma reflexão muito grande, porque você fica se perguntando o que você poderia ter feito a mais? Até onde você poderia ter ido? Será que você fez tudo o que você poderia ter feito?

Mas, infelizmente têm coisas que vão além da minha ciência, têm coisas que dependem da fé das próprias pessoas. Eu entendo as limitações que a medicina tem, sou consciente disso e, claro que a tristeza acontece porque a gente cria vínculos com os pacientes. Já aconteceu de eu chorar escondido no banheiro, já aconteceu de chegar em casa arrasado por pacientes que eu amava terem partido. Tiveram pacientes que se converteram dias antes de morrer e, eu estava ali crendo junto com eles, até o fim. Temos uma alma e ela se entristece bastante, mas vamos aprendendo ao longo do caminho a nos recompormos e cuidarmos dos próximos pacientes que vão chegando.

Meu casamento… três anos de casados, maravilhosos, meu Deus. Tayara é maravilhosa. Minha mãe é missionária, meu irmão também, meu pai mora no interior. Ela é a companheira que eu tenho.

Quando Tayara chegou na minha vida eu estava em uma fase extremamente desacreditado nessa área amorosa.

Eu tive um pouco de depressão durante a minha adolescência, que na época eu também não soube lidar com algumas coisas. Cheguei a procurar psicólogos, fui melhorando, até mesmo com o apoio dos meus amigos, mas essa era uma área que o diabo colocava muitos sofismas na minha mente. Pensamentos que eu não iria casar, que não teria mulher nenhuma que fosse me querer, que eu era feio, baixinho, magro demais, que por sinal, hoje nem sou mais (risos).

Eu era muito tímido. Tinha tido muitas decepções, frustrações, pois todas as meninas que eu havia gostado nenhuma me quis na época, estava muito desacreditado mesmo.

Fui conversar com Veruska, que foi a minha professora do Rhema e, nem sei como a gente ficou amigo, porque eu nem era um aluno destaque, foi algo de Deus, ela me perceber e cuidar de mim durante a aula dela. Ela ficou hospedada na casa de um casal de amigos meus que me ajudavam financeiramente na faculdade e acabei tendo abertura com ela. Um belo dia ela chegou pra mim e disse: “Norberto, tu não namora por que?”

Eu tinha 21 anos, quieto, lembro que nesse dia eu desabei no choro e comecei a falar pra ela todas as frustrações que eu tinha e, ela trouxe uma palavra maravilhosa para a minha vida. Ela me ajudou ali naquele momento.

Depois ela disse: olha, tem uma pessoa, uma amiga minha, que dava certinho contigo (que era a Tayara). Foi quando ela fez a ponte e a partir daí que as coisas começaram a acontecer.

Tayara me fortaleceu muito, principalmente na questão do meu chamado. Eu não tinha problemas com estudos, profissão, sempre corri atrás do que eu queria, sempre acordei cedo, animado pra estudar, trabalhava para comprar as minhas coisas, nessas áreas eu tinha uma autoestima bacana.

Mas, com relação a área emocional e chamado, eram as áreas que mais sofria e o principal assunto da gente eram esses. Ela acreditava tanto em mim, que foi isso o que me fez eu me apaixonar por ela. Tayara acreditava em mim, me fortaleceu tanto nessa área que eu desenvolvi o sentimento por ela, comecei a amá-la e admirá-la como alguém especial.

Eu não seria a mesma pessoa que sou hoje se não tivesse a encontrado. Se ela não estivesse na minha vida. Ela foi uma mulher que me ergueu por dentro e me ergue até hoje. Sem ela eu não teria chegado onde cheguei. É minha companheira, melhor amiga, esposa, tudo a gente faz junto. A gente não sabe comprar uma roupa se o outro não estiver presente. Planejar uma viagem, não fazemos nada sem o outro. É um tesouro que Deus me deu. Ela sabe tudo o que nós já passamos, na época eu era um menino que não tinha nada para oferecer, não tinha carro, grana, só tinha vontade de crescer. Ela deixou tudo aquilo de lado e ela conseguiu entrar no Noberto pelo lado que as pessoas não conseguiram entrar. Ela me viu pelo lado que eu era de verdade, por dentro e foi amor à primeira vista.  Ela me conheceu pelo que eu era de verdade e não pelo que eu mostrava ser. E hoje conquistamos as coisas juntos, apartamento, trabalho, a faculdade dela, que ela concluiu após o nosso casamento. Pra ela foi um desafio grande, pois quando casamos, ela passou ainda dois anos estudando e concluindo a faculdade, cuidando de casa e fazendo tudo.

Eu tenho o sonho de, junto com a minha esposa, abrir um grande projeto social. Eu amo ajudar as pessoas. Queria um dia ter um grande projeto que conseguisse mudar a vida de muitas crianças e adolescentes, dar a elas um futuro. Mostrar que elas podem, pois muita gente acha que não tem capacidade de morar fora, estudar, de fazer uma boa faculdade, uma universidade pública, e na verdade, as pessoas não sabem que elas podem conquistar tudo isso. Eu creio que isso vai ser real e um dia vai se manifestar. Não sei em que cidade vai ser, porque a gente não sabe se vai ficar em Fortaleza pra sempre. Quero ajudar as pessoas não só no espiritual, mas no físico, na assistência social, no emocional também. Se alguém precisar, nós paramos o que estamos fazendo e ajudamos, nós combinamos nisso, amamos ajudarmos as pessoas juntos.

Tenho alguns conselhos para os jovens:

Honrar os pais acima de tudo. Esse é o legado que vai trazer a benção de Deus para a sua vida.

Ser perseverante e nunca desistir. Porque o aprendizado em qualquer área vai depender de muitos fatores. Todo mundo consegue ser aquilo que quiser ser, se apenas esforçar-se para isso.

Trilhar as decisões certas, os caminhos certos, não ter preguiça e ser perseverante, porque assim você vai chegar lá.

Eu sou um homem que ama ao Senhor acima de tudo, que tem tentado pregar o amor por onde vou, que tenho tentado ser um médico que ajuda ao máximo as pessoas.

Um marido esforçado, um filho que ama os pais e cuida deles e, que deseja ser pai um dia… em breve…

Talvez, a pessoa que mais me inspirou a ser o homem que eu sou hoje foi a minha mãe. Ela é uma mulher muito guerreira. Foi através dela que eu recebi Jesus, o batismo no Espírito Santo e conheci a Palavra da Fé.

O chamado a gente tem desde o ventre, mas quem ensina o caminho é seu pai e sua mãe e, a minha mãe me ensinou isso.

Toda gratidão que eu tiver por ela não pagará o que ela fez por mim.

Nos momentos mais difíceis, no vestibular, quando faltava dinheiro, ela foi a mulher que sempre estava do meu lado me incentivando, do jeito dela, eu sabia que toda aquela fortaleza e firmeza, era tudo o que eu precisava para continuar…

Ela é a minha missionária do coração, uma das mulheres que eu mais admiro na face da Terra. A ela a minha gratidão.

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