Choque reverso

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por Juliana Toledo

*Adendo: Eu nunca escrevi tão abertamente sobre mim e uma missão e nunca escreveria se não acreditasse que pode ajudar a outros.

Eram 3h da madrugada, lá seriam 15h. Olhos esbugalhados, sentada no sofá com a televisão ligada, sem nem saber o que estava passando enquanto as lágrimas simplesmente escorriam. Aquela luta com o fuso horário, mas, mais do que isso, uma grande luta contra as lembranças. Choque reverso: “O que estou fazendo aqui? Porque estou de volta?” Tinha achado meu lugar, me encontrado plenamente em um canto que parecia tão meu, tão familiar ao meu ser. Me perguntava diariamente se eu tinha dado o meu melhor no tempo que passei lá. E diariamente eu sabia que poderia ter feito mais, mas por que não pensei nisso enquanto estava lá? Tanta coisa se tornou banal aqui. Tanto “muído” da igreja que não tinha mais o menor sentido. Por que perdemos tempo com fofocas, brigas e coisas tão menores quando tem um mundo inteiro precisando e nos aguardando?

Passei a me sentar e conversar com os moradores de rua sempre que via um. As conversas deles, mesmo às vezes tão loucas ainda eram mais normais e reais para mim do que algumas banalidades do corpo de Cristo. Chorei em silêncio sozinha diversas noites. Rapidamente entendi que 85% das pessoas que me perguntavam: “como foi lá” queriam ouvir apenas o resumo abreviado cheio de adjetivos bons e advérbios de quantidade: “‘muito’ bom”, “trabalhei ‘muito’”, ajudamos “‘muitas’ pessoas”. Então, guardei para mim as memórias e não sabia mais como responder nem mesmo os 15% restantes que realmente queriam saber os detalhes, as dificuldades e as vitórias. Além disso, doía tanto falar sobre a missão que inconscientemente eu passei a fugir do assunto.

Constantemente as palavras de um missionário mais experiente que estava na minha despedida surgiam: “Você está emocionada porque é marinheira de primeira viagem, depois das suas 40 nações, isso se torna comum”. Pensei comigo: “Não quero nunca tornar isso comum”. Contudo, quase sempre me confrontava com aquelas palavras em perceber o quão imatura me via por não saber lidar com todas as experiências vividas. A verdade é que algumas “feridas” dessa primeira viagem missionária eu só entendi e curei quando estava fazendo a Escola de Missões Rhema, dois anos depois. Porque eu as havia ignorado e as deixado de lado. A escola me fez reabrir as memórias e perceber que por baixo das cicatrizes superficiais ainda havia feridas vivas.

Muitas vezes, temos dificuldade em entender o missionário em retorno. Às vezes queremos que ele esteja pronto para novas experiências e para relatar em todos os púlpitos as suas vivências. Precisamos ter paciência e respeitar o tempo do missionário. Esteja atento aos sinais, talvez ele está sendo educado em lhe responder, mas uma ruguinha de esforço surge em sua testa denunciando que falar sobre aquilo ainda é doloroso para ele. Nessa minha primeira experiência missionária passei dois meses no Timor-Leste. Às vezes me pergunto o quão difícil deve ser para um missionário que retornou depois de anos ou até décadas. Precisamos estar atentos as suas dores e dificuldades no retorno.

Não julgue um missionário que esteve na Europa ou em países das Américas. O choque reverso acontece com qualquer um. O missionário se conecta às necessidades das vidas de cada nação e não apenas à miséria ou pobreza. Afinal, estamos levando o Evangelho da salvação. O propósito são vidas salvas e esta necessidade existe em qualquer parte do mundo. Em alguns casos, o missionário que retorna de nações desenvolvidas sente o choque por perder as facilidades e o estilo de vida que vivia. E isso não é banal, é real. Precisamos ter empatia com a dor do outro, sem comparar com outras dores, apenas compreendendo a individualidade dos missionários. 

E se você é um missionário em retorno, não importa quanto tempo passou no campo, as experiências lá são tão fortes que semanas podem corresponder a meses. Tenha paciência consigo mesmo. Entenda seu tempo e suas dores. Se não quer falar da missão ainda, seja educado em rejeitar convites; isso pode lhe ajudar. Não se compare com outros missionários, cada um tem sua experiência e seu modo de ver o mundo. Se permita ser vulnerável e sentir as dores, contudo, não deixe que isso lhe afunde. Lembre-se que quando somos fracos, aí é que somos fortes no Senhor. Então, busque da graça d’Ele para se levantar todos os dias, embora o desânimo queira lhe parar, lute com todas as suas forças para se reanimar. Retornar do campo sempre será doloroso para quem nasceu para isso. Algumas vezes essa dor será assim um choque reverso, outras vezes será mais fácil, mas nunca comum. Não para quem está ligado ao coração de Deus.

Buscar experiências similares às vividas do campo pode lhe ajudar. Envolva-se mais em evangelismos. Se você é uma pessoa que fica bem sozinha, saia para evangelizar sozinha. Não vá para lugares perigosos, é claro, mas vá caminhar ou fazer algo atento a pessoas para as quais Deus pode lhe direcionar. E, mais uma vez, tenha paciência consigo mesmo. Quando parecer que tudo normalizou, vem um cheiro, uma pessoa, uma foto ou um lugar podem lembrar o campo e lhe fazer ter vontade de correr para lá. Tem dias também que simplesmente acordamos com saudade e as lágrimas correm outras vez. Just keep calm and breathe (Apenas tenha paciência e respire)! Sua vida é preciosa. O que você fez pode parecer pouco, mas foi muito se você obedeceu ao Senhor. Sua ousadia é louvável e tudo foi crescimento. Quando você voltar ou partir para outra nação, vai saber ainda mais o que fazer, será ainda mais proveitoso. E esse dia pode demorar ou pode ser rápido, mas ele certamente chegará, porque você nasceu para isso. 

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