por Dione Alexsandra e convidados

No Dia Internacional da Mulher, achei que abordar esse tema seria a melhor forma de dar voz a muitos gritos de mulheres que estavam guardados há anos…

A DOR

Inicialmente, quero trazer uma definição do Dicionário Aurélio sobre abuso: “Mau uso. Uso excessivo. Desmando, desregramento.”

Lendo material  sobre o tema riquíssimo da minha amiga Lenise Freitas, que trabalha com vítimas de abuso, destaco alguns trechos: “Existem vários tipos de abusos, e nem todos os abusos deixam marcas visíveis. Porém, todo tipo de abuso é potencialmente capaz de contribuir para desvios no comportamento. Podendo levar o individuo que sofreu o abuso à delinquência, ao uso de drogas, a distúrbios na área de sua sexualidade, revimitização de abusos, depressão, reprodução do abuso sofrido  e outras mazelas, afastando-o de tudo que Deus planejou para ele”. Sabemos que existem diversos tipos de abusos. Entre os quais destaco: Abuso Emocional, Abuso verbal, Abusos Físicos, Abuso Sexual; entre outros…

Consequências frequentes do abuso sexual: Sentimento de culpa e vergonha; sensação de ser má pessoa, suja e de pouco valor. Perda de confiança em outras pessoas (e em Deus); Rebeldia; Sentimentos de raiva, ressentimentos, Medo constante de sofrer novo abuso; Somatizações frequentes; Depressão; Dependência Emocional; Revitimização: novos envolvimentos com pessoas abusadoras Dificuldade de relacionamento social e conjugal; Dificuldades de conquistas profissionais.

Sinais de que uma criança pode estar sofrendo ou sofreu abuso sexual:

Mudança brusca de comportamento, em alguns casos, as crianças extrovertidas podem ficar mais caladas; Agressividade e atitudes como morder, chutar, gritar e chorar; Dificuldades de relacionamento e isolamento; Insônia, falta ou excesso de sono; Medo aparentemente infundado; Pesadelos; Tremores noturnos.

Converse sobre abuso sexual:

Explique a criança que existem pessoas não confiáveis e pessoas confiáveis com quem ela pode conversar. Explique a criança que seu corpo é especial, que nem todas as partes devem ser expostas ou tocadas por outras pessoas. Toques de amor nos fazem sentir seguros e confortáveis, não nos deixam confusos, culpados ou machucados. Toques de amor não são segredos para se guardar Crianças não são culpados ou responsáveis por coisas que adultos fazem ou coisas que fazem junto com adultos. Se acontecer algo que nos deixe triste ou confuso devemos contar para uma pessoa confiável.

RESTAURAÇÃO

“Existe um caminho de paz e restauração para pessoas vítimas de abuso e também para pessoas que identificam comportamentos abusadores em si mesmos. Este não é um processo fácil e pode levar tempo além das nossas expectativas, porém podemos contar com a Graça de Cristo, uma capacitação sobrenatural, mas real, que nos auxilia em todo o tempo. O resultado final fará com que todo o esforço tenha valido à pena. Não pretendemos aqui esgotar o assunto, mas indicar primeiros passos para uma restauração. Procure ajuda!” – Lenise Freitas.

Não Culpe Deus! Entenda que Deus não foi responsável por sua dor, mas é o responsável por sua restauração. Vivemos um mundo caído, onde pessoas exercem seu livre arbítrio. Abusos não são a vontade de Deus, mas consequência de vivermos ainda em um mundo que jaz do maligno.

“Os segredos que enterramos vivos nunca morrem…”

Ouvi essa frase de Joyce Meyer e por anos ela ressoou dentro de mim… O segundo tema dessa série é abuso. E por ser um tema amplo, envolve o abuso verbal, sexual, abuso de um casamento problemático, de relações abusivas em diversos âmbitos. Pela sua amplitude tratarei de forma extremamente respeitosa sobre o tema, trazendo várias vertentes. Depoimentos de esposas de pastores que já aconselharam mulheres que vivenciaram essa experiência, relatos de mulheres que sofrem algum tipo de abuso e como elas foram restauradas.

Uma das histórias mais marcantes e surpreendentes que conheço sobre abuso é a de Joyce Meyer, que já falou abertamente de sua experiência tanto em pregações quanto em seus livros, em especial no livro: “Faça um favor a si mesmo, perdoe” ela relata detalhadamente sua história. Talvez, você não saiba, mas a ministra Joyce Meyer começou a ser abusada pelo seu pai ainda na infância e essa sequência de abusos durou até a sua juventude, segundo Joyce, seu pai abusou sexualmente dela mais de 200 vezes. Sim, isso é forte e chocante!

Ao seu lado, hoje, tem alguma mulher que sofreu algum tipo de abuso. Seja verbal ou sexual. Existem muitas mulheres e crianças gritando em sua alma, com pedidos de socorro constante. Se pudéssemos ler seus pensamentos, eles diriam: “Socorro, me ajude!”. Medo, vergonha e culpa são alguns dos sentimentos que acompanham as vítimas de abuso. Penso que se uma mulher adulta, sofre com relações abusivas que a aprisionam, imagine uma criança! O que será que elas passam, meu Deus… Muitas não sabem a quem pedir socorro, outras pensam que ninguém acreditará nelas.

Talvez você não acredite que existem pessoas dentro da igreja sofrendo nesse exato momento com relações abusivas. Mas, existem crianças, meninos e meninas, além de mulheres sendo abusadas e sofrendo em silêncio, muitas têm um medo terrível de falar sobre o tema, outras não têm em quem confiar e sofrem sozinhas caladas por uma vergonha profunda de dizer a alguém que passam por isso. Em seu relato, Joyce Meyer destaca que só ficou livre quando falou sobre os abusos. Enquanto guardava em segredo essa dor, o diabo a escravizava e a matava aos poucos, mas ela decidiu contar, falar e, a partir dai, Deus a libertou de si mesma e dos sentimentos que ela carregava por anos. Seus segredos lhe mantêm presos, mas quando você falar sobre eles, ficará livre! A culpa NÃO é sua!

O TRAUMA

A seguir você lerá relatos de vítimas de abuso. Todos os casos são de pessoas do nosso contexto. Homens e mulheres que decidiram falar sobre o que sofreram. Os nomes foram preservados para facilitar a abordagem sobre o delicado tema:

“Eu era apenas um garotinho, tinha meus 10 anos de idade. Tudo começou com uma brincadeira, ele era um amigo da família. Certo dia, me fez tocar no seu órgão ereto, nossa que susto eu tomei, o que seria aquilo? Infelizmente, ele despertou em mim a curiosidade de querer ver e logo me fez pegar e pediu para acariciá-lo, achei estranho, fiquei assustado e com medo daquela situação, contudo ele disse: “não fala pra ninguém!” Embora fosse apenas um garoto de 10 anos sempre extrovertido, brincalhão, inteligente, hiperativo, não imaginaria que aquela experiência seria capaz de criar grandes transtornos em minha vida, sim transtornos, porque aquela experiência não se daria somente aquela única vez, por ele ser amigo da família e sempre frequentar a minha casa e até mesmo chegar a dormir lá em casa, pois era amigo do meu irmão mais velho, no silêncio da noite eu acordava apavorado com ele me tocando, mas o medo de alguém saber ou ver, começou a me aprisionar. Se iniciava ali em minha vida uma grande luta onde minha inocência estava sendo tragada, meus sonhos colocados em um mundo imaginário “protegidos” pelo medo de meus pais saberem que seu filho lindo e inocente estava sendo aliciado por uma pessoa que se dizia amigo da família, mas que, na verdade, era um pedófilo disfarçado. Esse medo que se achava dentro de mim era pelo simples fato de ser eu um cristão. Sim nasci e me criei em uma família evangélica, aprendi ainda criança na igreja o que era certo e errado, o que agradava e desagradava a Deus, mas esses ensinamentos não foram capazes de me proteger de um homem perverso e mal. Logo, com o tempo, todas aquelas experiências me fizeram acreditar que eu gostava daquilo e então, me vi desejando outro homem, nossa que lembrança terrível, me recordo por várias vezes acordar de madrugada quando um primo ou até mesmo aquele amigo (pedófilo) da família ia dormir na minha casa, dava calafrios, me acordava tremendo, (como o diabo é sujo) e quando via estava com aquele homem, tocava no órgão dele… quanta vergonha sentia ao terminar aquele momento, mas não tinha controle sobre esse sentimento diabólico que me aprisionava em um mundo inseguro, cresci me escondendo porque eu estava dentro da igreja e me sentia tão envergonhado por fazer tudo aquilo, infelizmente ou felizmente acabei indo tocar em uma pessoa que acabou falando o que eu tinha feito e, para minha vergonha, os meus pais souberam. Meu mundo desabou, nesse dia, sai de casa andando pelas ruas da cidade sem chão, pensando o que seria de mim, que vergonha para meus pais, não sabia como voltar para casa, já não era mais aquele garotinho neste tempo já haviam passados 5 anos e eu estava com 15. Criei coragem e após horas fora eu retornei tarde da noite, possuído de temor e tremor, medo, vergonha, os mais angustiantes sentimentos envolviam meu coração, me deparei com meus pais que também, acredito eu, não sabiam o que dizer, me sentaram no sofá e eu com o rosto escondido na almofada chorava, triste, envergonhado. Durante toda aquela conversa, meu rosto se encontrou escondido, fui tão amado naquele momento, graças a Deus, e o fato de ter passado por aquele momento criou em mim uma certa indignação com aquele situação, decidi nunca mais fazer aquilo novamente o que por anos consegui superar e suportar tocar ou ter qualquer contato com um homem, resisti firme nisso, mas tinha um outro lado que não me libertei – a masturbação. Estive preso por anos, acorrentado, sendo massacrado e engodado por esse sentimento. Me relacionei com mulheres, mas meu maior prazer se dava pelo sexo com homens. Cresci, conheci a Palavra da fé, superei e avancei em muitas coisas, mas, omiti o que se passara comigo. A vergonha de me expor e ser verdadeiro me fez impedir de ser tocado em áreas da minha vida que seriam libertadoras para mim e mais uma vez não permitia que pessoas chegassem tão perto de mim com medo de ser ferido, medo de alguém descobrir minha maior vergonha. Hoje ainda luto com esse sentimento procurando confrontá-lo através da palavra de Deus. Mas é um processo. O abuso na infância produz danos na vida adulta inimagináveis… Só Deus e a Sua palavra são capazes de produzir a cura!”


“Eu estava assistindo TV com um amigo da minha mãe,  enquanto minha mãe e minhas irmãs estavam dormindo no quarto. Estávamos no sofá ele sentado e eu deitado, de modo que meus pés ficaram próximos a sua perna. Então ele pegou meu pé e colocou em cima do seu órgão sexual, vendo ele que eu não tive nenhum tipo de atitude contrária, me pediu que deitasse com a cabeça mais próximo dele, e aí pegou minha mão e colocou no seu órgão, fazendo movimentos. Até que minhas irmãs acordaram, então, como era normal eu ir na casa dele as vezes é era bem perto da minha. Me chamou pra ir lá ajudar a fazer uma limpeza, eu gostava de ajudar minha mãe em casa e, como ele morava só, era normal as vezes eu varrer a casa dele. Então, uma vez que chegamos na casa dele, ele tirou as roupa ficando somente de cueca, nessa hora eu já estava temendo e  achando aquilo errado, foi quando ele  se aproximou enquanto eu estava sentado no sofá, daí puxou minha mão e colocou no seu órgão, eu relutei e puxei minha mão, ele tentou mais uma vez, mas eu não quis fazer nada daquilo. Então temendo que eu gritasse ou falasse a alguém, ele foi tomar banho e eu fui para casa. Não houve violência, mas naquele momento em que toquei nele no sofá da minha casa, algo foi despertador em mim. Como criança, fui tocado também no meu órgão e e aquilo me despertou desejo. Já na casa dele, tive medo. Só contei a minha irmã depois de adulto e para mais ninguém. Nunca falei sobre isso com minha mãe, pois tinha medo de se castigado. Minha mãe só soube quando testemunhei em um evento da igreja. Essa experiência, ficou marcada em mim, cresci com a impressão de que me atraia por homens, mas nunca quis falar nem pensar sobre isso. Até meus 16 anos eu tinha minhas namoradinhas e tudo normal. Até que em uma oportunidade em que peguei uma carona com um rapaz, ele me assediou, e enquanto só assediava com palavras eu relutei, mas aí ele me tocou, e me lembrei de quando fui tocado e gostei, daí pensei que talvez fosse normal mesmo eu gostar, e aí a partir daquela experiência, o diabo me disse em pensamento: “desde pequeno você já gostava”. Nesse dia eu tive uma experiência homossexual e depois acabei me assumindo gay,  entrei na prostituição alguns  anos depois e comecei a sair com homens nas cidades de João Pessoa e Campina Grande. Fiquei nessa situação de homossexualidade por 13 anos, até que, através da palavra de Deus, descobri que não era assim que Deus tinha me feito, que eu estava vivendo uma grande mentira. Através da Palavra, Deus construiu em mim uma nova identidade. Agora sou um homem de Deus, totalmente transformado e restaurado. Assim como na minha vida, a Palavra de Deus pode transformar e purificar o homem, de modo que tudo o que não é de Deus sai…”

“Tudo começou quando eu tinha uns 8 anos. Eu estava dormindo e acordei com meu pai cochichando no meu ouvido. Ele falava que eu não tivesse vergonha que ele já tinha me visto nua e que eu não devia ter medo, ali eu já estava me tremendo de medo, porque eu não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Eu não entendia porque ele fazia aquilo, contei para a minha mãe, mas ela não acreditou em mim. A situação continuou acontecendo várias vezes, ele vinha a noite falava coisa absurdas, obscenas que não se diz para uma criança, coisas que preferia esquecer, eu chorava. Ele me tocava, era terrível porque eu ia crescendo com esse sentimento de vergonha e eu pensava: “por que eu?” Eram cinco mulheres lá em casa e por que eu? Só comigo ele fazia isso? Minha irmã mais velha já era uma moça eu era uma criança. Eu me achava feia, achava que ninguém nunca ia me amar. Achava que nunca casaria, não me achava digna de um homem se interessar por mim. Eu pensava que eu era a pior das criaturas. Aceitei a Cristo na adolescência, mas eu tinha muito ressentimento do meu pai, ressentimento não, era ódio mesmo. Isso durou anos. Meu pai bebia muito. Ele nunca chegou ao ato em si, mas abusou de mim de várias formas que se pode abusar de uma criança por palavras, por gestos, psicologicamente, pressionando, era terrível. Ele sabia como fazer a ameaça psicológica. No meu namoro, eu sofri, no casamento também, porque pensava que o homem só queria se aproveitar da mulher. Quando me converti, eu tinha crises de choro muitas vezes. Li um livro de auto ajuda que me ajudou muito a vencer muitos medos. Deus me falou que eu precisava perdoá-lo. Eu falei: “eu perdoo, mas não quero contato com ele”. Eu sempre brigava com Deus sobre isso. O tempo passou e antes mesmo de eu casar, meu pai abandonou a gente. Separou-se da minha mãe, o povo diz que separação é difícil, nesse caso foi bom para nós. Eu não tive mais contato com ele. Quando meu esposo foi conhecê-lo e pedir para casar comigo, ele fez o sermão clássico e me disse: “me perdoe minha filha”, e eu disse: “eu já lhe perdoei papai”. Ele disse: “me perdoe minha filha, você sabe do que eu estou falando”. Eu disse: “eu sei”; ali eu vi que eu tinha o perdoado e que ele estava consciente do mal que tinha me causado. Hoje, eu não o vejo, mas não tenho ódio. Ele não cultivou um amor de pai e filha, então, não tenho aquele carinho, isso foi rompido. Contudo, quando o vejo falo com ele. Infelizmente ele sofre de carência, mora sozinho, casou, mas separou, tem mais de 70 anos, mas não teve um relacionamento sólido. É um homem que não se encontrou com ele mesmo, mas eu o perdoei. Estou livre desse peso e ainda bem que eu encontrei o meu Deus e Deus se mostrou para mim um Pai presente, que cuida, um pai que eu nunca tive. O Senhor assumiu realmente a posição que era do meu pai natural. Sou muito grata a Deus. Não me arrependo em momento algum por entregar a Ele a minha vida na juventude, porque eu conheci um verdadeiro Pai. Ele me disse: “Não se preocupe, você não é feia, você é bonita”. Ele me trouxe essa consciência. Eu amo o Senhor, Ele cuida de mim, dos meus filhos. Se uma pessoa passou por dificuldades assim, corra para Deus, nunca corra de Deus. Conte para Ele suas dores, rasgue seu coração para Ele, diga que não consegue perdoar, diga que está doendo. Ele te entende. Ele está com você. Perdoe por você, não pense no agressor. Quando você entender que é por você, pela sua saúde mental e física, vai ter misericórdia dessa pessoa. Só Deus te faz restaurar esse sentimento. Sozinha você não consegue”.


“Minha infância foi muito conturbada porque meu pai abusou de mim durante muitos anos. Isso começou bem cedo. Meu pai bebia muito e, quando ele chegava em casa, ele queria que eu o tocasse e que o deixasse me tocar também. Como eu não entendia, isso parecia que era normal. Se eu deitasse na cama com ele e minha mãe, ele sempre dava um jeito de me tocar. Ele me trazia pirulitos e me mandava agachar para tocar nas minhas partes íntimas. Eu tinha visões dele bêbado antes dele realmente aparecer bêbado em casa. Eu ficava me perguntando porque eu tinha essas visões. Mais tarde, Deus me falou que eu tinha essas visões porque Ele queria me proteger. Quando eu via meu pai bêbado, eu me escondia. Por ser criança e não ter entendimento, eu achava esses abusos algo normal; porém, um dia, na minha adolescência, eu comecei a entender que isso não era normal. Eu fui na médica com a minha mãe, e ela me perguntou: “Alguém andou tocando em você?” Eu não sabia como responder e acabei ficando calada. Achei aquelas perguntas estranhas e resolvi contar para a minha mãe, ela não acreditou em mim. Na minha adolescência, então, eu tive o entendimento de que isso que acontecia comigo não era normal. E eu comecei a enfrentar uma briga dentro de casa, ao ponto da minha mãe não gostar de mim de nenhuma forma. Se eu levasse as minhas amigas em casa, eu tinha muita vergonha e dizia que ele não era meu pai. Eu levava minhas amigas comigo para o banheiro se eu fosse tomar banho, porque eu tinha medo que ele tentasse algo com elas. Com 15 anos, eu disse para o meu pai que queria namorar e ele veio para cima de mim querendo me bater. Nesse dia, eu enfrentei ele e disse que não fazia sentido que ele tinha que agir como meu pai que ele não podia fazer comigo mais o que fez quando ei era criança. Nesse dia, ele passou mal e minha mãe me levou para o HPAP (hospital psiquiátrico para loucos) e me internou, o médico me passou remédio controlado. Meu pai era doente, todas as mulheres que iam lá em casa ele mexia com elas, mas na época eu não entendia que isso era uma doença. Essa foi uma fase, em que eu não consegui ser muito ajustada com os meus sentimentos, fiquei muito confusa em relação a paternidade lembro-me que eu peguei o Novo Testamento e falei: “Pai, eu não quero mais que ele faça isso comigo. Me ajuda a entender a sua Palavra, me ajuda a voltar a ser uma boa filha”. Eu ficava condenada achando que não era uma boa filha, porque eu falei a verdade. Então, Deus me disse que minha mãe iria descobrir e ver com seus próprios olhos; e ela viu, mas com minha irmã. Um dia, ela viu meu pai em cima da minha irmã. Minha mãe ficou sem chão. Para mim, não foi novidade, mas, para o resto da família, foi um choque. Eu tentei proteger minha irmã como pude, mas me casei e não tive mais como protegê-la. Hoje, eu trabalho com crianças, porque eu percebo que o diabo usa essa fase da infância para afligir elas com medos, sentimentos e situações em casa. Há crianças que se achegam a mim e que me contam situações que acontecem com elas; situações, estas, que elas não têm coragem de contar para os pais. É preciso que existam pessoas com sabedoria na Palavra, para ajudá-las a enfrentar esses medos. O diabo não está brincando com essas crianças. Quando elas me contam o que está acontecendo em casa e nós conversamos, eu vejo que meu chamado é realmente isso. Algumas pessoas me perguntam porque eu não sou professora no Rhema, mas, quando eu ministro para aquelas crianças/pré-adolescentes e vejo seus olhinhos, eu entendo que posso ajudá-las a serem melhores no futuro. Quando elas estiverem lá no púlpito, eu vou saber que eu tive uma contribuição para que isso acontecesse”.


“Eu tinha sete anos. Ele era meu tio e abusava de mim. Ele me disse que se eu falasse para alguém, ninguém acreditaria em mim. Eu tinha nojo quando ele me tocava. Também tinha medo, angústia e muita vergonha. Tinha medo que alguém descobrisse e achasse que a culpa era minha… Mais de 30 anos se passaram e eu descobri que o nojo que eu tinha, e que aquele abuso tinha nome: pedofilia. Já adulta, resolvi falar sobre o assunto em uma sessão de terapia e foi libertador. Descobri o que no fundo eu já sabia: A culpa não foi minha.  Esse abuso atrapalhou meus relacionamentos em todas as esferas, eu não confiava nas pessoas. Hoje, sou livre daquele peso causado por aquele homem. Ele já faleceu e teve uma morte súbita. Eu o perdoei, mas levei muito tempo para ficar livre desse sentimento. O abuso que sofri limitou meus relacionamentos e a minha vida. É horrível essa experiência. Muitas pessoas em nosso meio sofreram com situações como essas e talvez por isso elas são do jeito que são, respeite a dor das pessoas. Você nuca sabe a dor que elas têm dentro do peito. Ainda bem que Deus me ajudou a me libertar disso tudo. Denuncie a sua dor ou o segredo multiplicará este sofrimento. A vergonha nos mantém nas mãos de quem nos fere.

“Eu tinha uns 8 anos… tinha dificuldades em matemática e uma vizinha dava aulas de reforço e  a minha mãe pediu que ela me desse aulas. Nessas aulas, quando a mulher saia em alguns momentos, o marido dela vinha, se aproximava de mim e falava ao meu ouvido coisas obscenas que mesmo muito jovem, percebi que me constrangiam. Eu sempre me afastava. Teve um dia que eu queria assistir um filme e eu sabia que eles tinham esse filme e eu fui lá a noite pedir o filme emprestado. Bati na porta perguntei se ela estava, ele falou que sim, eu entrei, sentei no sofá com medo, porque vi que ele fechou o portão e a porta. Ele foi procurar o filme e percebi que não tinha ninguém. Ele sentou ao meu lado no sofá e começou a me tocar; começou a dizer que eu não me preocupasse que eu ia gostar… eu comecei a tirar a mão dele de mim. Ele começou a me beijar, foi horrível… Foi a sensação mais horrível que senti em toda a minha vida.. Pedi que ele parasse: eu dizia: por favor pare, eu não gosto disso… e ele dizia: ”mas você vai gostar…”. Em um momento eu consegui correr, mesmo tremendo muito, consegui pegar a chave abrir o portão e corri. Cheguei em casa, não contei nada para a minha mãe, mas naquela noite chorei muito. Minha mãe percebeu e me perguntou o que houve, eu acabei falando e ela ficou transtornada. Só que a gente não denunciou por causa do meu pai, porque esse homem além de nosso vizinho é amigo do meu pai. Até hoje meu pai não sabe. Até hoje a gente evita que esse homem entre em nossa casa. Ainda hoje eu vejo esse homem praticamente todos os dias, porque ele é meu vizinho. Às vezes, ele olha estranho, mas meu pai não sabe disso até hoje… “


“Os abusos começaram ainda na minha infância, meu pai e meus irmão me chamavam por nomes que me feriram muito. Com 13 anos sofri o primeiro abuso, um homem de 40 anos, amigo da minha mãe me violentou, ele tinha uma arma e dizia o tempo todo que iria me matar. Minha mãe não acreditou quando eu contei a ela o que tinha acontecido. Como muitas crianças, eu também achava que a culpa dos abusos era minha. Com 14 anos me afundei nas drogas, conheci a maconha, cocaína, cigarro e o álcool; com 15 anos sai de casa. Com 18 anos conheci o pai das minhas duas filhas com quem fiquei casada durante 14 anos. Eu achava que com ele estaria protegida e segura, mas não foi isso que aconteceu. Nesse casamento, eu sofri todo tipo de abuso, eu era obrigada a manter relação sexual todos os dias. Quando conheci a Palavra da fé os meus olhos foram abertos, então decidi ir embora de casa com minhas duas filhas, foi aí que meu maior pesadelo começou… Ele dizia que se eu não fosse dele, eu não seria de mais ninguém, porque ele preferia me ver morta. Ameaças de morte, invasão à minha casa, agressão física e verbal. Fui perseguida por um ano e meio, fui à delegacia várias vezes e nada era feito para proteger a mim e minha família. Até que em umas das invasões em minha casa eu chamei a polícia e ele foi preso. Hoje sou casada com um homem de Deus que me ama e me trata como uma princesa! Tenho uma família abençoada! Não tenha medo. Denuncie qualquer forma de abuso, se livre da culpa e perdoe sempre.”


“Eu na verdade sofri apenas a tentativa de abuso ainda na infância, com uns 9 anos. Ele não abusou de mim, graças a Deus, ele era o namorado da minha mãe. Eu era uma menina, não tinha um corpo formado ainda, era bem magrinha, não tinha nada que chamasse atenção. Saímos num domingo, eu e meus irmãos com ele para passear em uma floresta. Minha mãe falou que se passássemos por eucalipto eu pegasse para mim porque eu tinha muita asma naquela época e foi isso que fiz quando vi um pé de eucalipto. Quando a gente viu os eucaliptos, eu subi nas costas dele para pegar e eu estava com um vestidinho curto e nesse momento ele colocou a cabeça embaixo do meu vestido e começou a querer mexer na minha calcinha. Quando eu senti, fiquei paralisada e quando ele percebeu, tentou disfarçar. Lembro que quando ele estava com a cabeça embaixo do meu vestido ainda olhei para a minha irmã para ver se ela tinha visto, mas ela estava brincando com meu irmão e não viu. Dali para frente, eu voltei diferente para casa, passei uns dois dias diferente em casa e minha mãe percebeu que eu estava diferente, sem falar sobre o assunto e ela insistindo. “O que foi que houve?”  Ela sabia que eu tinha um problema de ter ciúmes dele com ela e que eu não gostava… e eu pensei: “seu eu falar, ela vai achar que eu estou inventando, para eles se separarem”, porque eu sabia que ela era muito séria com isso. Mas ela insistiu muito e eu acabei falando e ela acreditou imediatamente. Coisa que não acontece normalmente nas famílias, o que é péssimo. Porque a criança precisa de defesa. Se a pessoa que Deus colocou para te defender, no mínimo ela não te defende, ou pior, quando ela é o próprio agente causador da história, do problema, imagina? A minha mãe, escreveu para um tio meu e ele nos acolheu em outra cidade e fomos embora para lá. Minha mãe abandonou esse namorado e fomos morar com meu tio em outra cidade. Mas foi péssimo, porque minha mãe arrumou dois namorados e eles acabaram se apaixonando por mim, nessa época eu já tinha 15 anos. Um deles, terminou com ela de repente, ela sem saber o porquê, e depois dela insistir querer saber o porquê, ele disse:,”é porque eu estou apaixonado pela sua filha”. Então, se criava ali um clima de rivalidade entre eu e a minha mãe e ela não tinha mais uma criança, tinha uma moça e ela estava em um processo inverso. Ela estava envelhecendo e eu florescendo. Era horrível lidar com essa situação. A minha mãe não era nascida de novo, não sabia o que fazer naquela situação. Por tudo isso, eu hoje, adulta, sou muito forte em defender meninas e meninos que sofrem nessa área. Eu “suportaria” uma agressão física melhor do que eu suportaria alguém querendo mexer na sexualidade deles. Olha eu “saio de mim”… Eu sei o que sente, o que vive, o que passa na cabeça, e é porque eu nem cheguei as vias de fato, acontece coisas muito pior com quem é abusado. Eu não precisei viver isso, graças a Deus. Mas eu também sei que isso é um arranhado que satanás faz que ele vai reivindicar aquilo a vida toda de alguma maneira. Conheço gente na vida adulta estragada por causa de um negócio que aconteceu com 8 anos de idade. Isso é sério. Cada um só vai ser salvo na medida que deixa a Palavra de Deus entrar. Tem gente que não consegue. Precisamos cuidar dessas pessoas…”

 


O TRATAMENTO

Como o objetivo do texto é mostrar a dor, o trauma, mas também o tratamento, segue abaixo alguns conselhos de psicólogas que são cristãs do nosso meio cujo trabalho tem credibilidade e seriedade:

“Falar de abuso é entender que quando se trata das relações humanas, este conceito implica numa condição de desnível de poder, ou, seja, alguém por motivos diversos, abusa de outra pessoa excessivamente, ultrapassando limites de forma danosa. Os abusos se caracterizam de formas diferentes, há abuso em forma de negligência, rejeição, humilhação, ameaça de abandono, cobranças e punições exageradas, enfim, de ordem física e de ordem Psicológica. Abusos emocionais são de difícil caracterização, por serem sutis pode acontecer que anos se passem sem que o abusador ou vítima se tornem conscientes da gravidade.

Na atualidade, abusos financeiros com idosos tem incidência notável, há uma usurpação de autonomia de maneira silenciosa que devasta o emocional desta população, porém as estatísticas mostram que a maioria dos abusos acontecem com crianças e adolescentes e na maioria das vezes praticados por parentes ou pessoas próximas as vítimas.

Criou–se então o dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual e Exploração de Crianças e Adolescentes que é 18 de   maio.   A Lei   Federal que estabeleceu a data foi a de Nº 9.970 de 2000. O ECA (Estatuto da Criança e Adolescente, diz que violência sexual é crime, sob pena de reclusão e multa. A violência sexual, desde o século XX, é considerada problema social e está inclusa no contexto de Direitos Humanos, comprometendo o  processo  de desenvolvimento físico, psicológico e social das vítimas.

Sentimentos de medo, angustia, vergonha e também culpa, são comuns nas pessoas que sofrem abuso (de qualquer ordem), quando trata-se de abuso sexual este medo ainda agrava-se pelo risco de contaminação das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). Abuso precisa ser denunciado, no caso dos pais, eles precisam ficar atentos a sinais comportamentais da criança como por exemplo: isolamento, rendimento escolar baixo, comprometimento da atenção, pesadelos recorrentes etc.

As sequelas do abuso são várias, entretanto, não podemos generalizar, sempre é importante considerar a fase da vida, o tipo e a autoria do abuso, somando-se estes fatores à singularidade de cada indivíduo, ou seja, cada pessoa reage de forma diferente, pois sua história de vida também é única. Apontamos algumas situações, uma delas é a desconfiança, a pessoa abusada costuma ter dificuldades nas relações interpessoais, insegurança para confiar nas pessoas, outras passam a se “fecharem” e não conseguem dialogar, enfim, as reações emocionais são complexas.

O que dizer de prático então as pessoas que sofreram abuso? Ainda que conversar com um amigo, ou mesmo um líder religioso possa   ajudar, deve-se entender que: é fundamental a busca por um Psicólogo (a), pois a Psicoterapia tem fundamentação científica, buscando trabalhar a reconstrução da identidade e os sintomas causados pelos traumas.

Os Transtornos de Ansiedade, Depressão, Síndrome de Pânico, Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT), são diagnósticos cada vez mais frequentes, causados por diversos tipos de sofrimentos psíquicos, tendo em vista a seriedade de um trauma oriundo do abuso, estes podem ser   decorrentes   também   de tal vivência. A escuta Clínica diferenciada, as técnicas científicas bem trabalhadas e o acolhimento necessário serão diferencial nos casos, inclusive nos que aconteceram na infância e nunca foram tratados.

Como os leitores que o blog Gente Boa alcança é diverso, convém lembrar aos profissionais da área (Psicologia), que não se limitem apenas às intervenções técnicas, mas, acolham com respeito a angústia dos pacientes e considerem o trabalho em equipe multidisciplinar. Embora não exista uma padronização metodológica para se trabalhar abuso, o Psicólogo deve sempre pautar seu trabalho, visando o respeito, a promoção da dignidade e da integridade do ser humano, promovendo saúde e qualidade de vida.

Dou ênfase a pautarmos nosso trabalho comprometidos com o Código de Ética- Conselho Federal de Psicologia (CFP), consultando também, sempre que necessário o CREPOP (Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas), que é a resposta do Sistema Conselhos de Psicologia aos anseios profissionais da categoria.” Graça Silva Moreira (Psicóloga- CRP 13/7298)

 

“Há vários tipos de abusos, contudo independente da sua natureza e da idade da vítima, pode levar a consequências graves na vida de uma pessoa, inclusive, a escolhas “erradas”… sentimento de vergonha, de ser má, suja, menos valia, muita culpa perpassam a mente e a história da vida do sobrevivente de abuso que, muitas vezes, sofre ameaças para não contar… o medo toma conta… e são tantos medos! As repercussões não param, podendo ocasionar  falta de confiança nas pessoas, baixa auto estima, insegurança, introspecção, timidez que pode levar a dificuldade de relacionamento social, dificuldade de conseguir conquistas pessoais e profissionais, bem como ao desenvolvimento de dependência química, de doenças psicossomáticas,  ansiedade, depressão, compulsões sexuais, transtornos alimentares e suicídio.

Estudos afirmam que grande número de sobreviventes se tornam prostitutas, pois não se sentem dignas ou capazes de construir uma família. Quanto à sexualidade, pode sofrer grande prejuízo como a falta de satisfação sexual, nojo durante a relação, aversão ao sexo, inclusive ao sexo do abusador, levando a pessoa a preferir se relacionar sexualmente com uma pessoa do mesmo sexo. Diante de tudo isso é importante esclarecer que a culpa nunca é da pessoa abusada, por mais que ela acredite nisso; isso é uma crença equivocada e precisa ser abandonada. A pessoa que sofre abuso é uma vítima, ainda que tenha gostado do prazer que sentiu…

Alguns estudiosos do assunto falam que se uma pessoa sofreu abuso em alguma fase da vida, mas que no momento atual reconhece que foi algo difícil, mas que passou e que não teve culpa conseguindo, inclusive relatar o fato sem vergonha ou constrangimento e que lida bem com a vida é porque está bem e conseguiu seguir em frente… Contudo, há muita gente presa, que não consegue falar…

Muita gente que, inclusive está em Cristo, mas não conseguiu se desvencilhar das marcas do abuso ou tem uma auto imagem diferente de quem foi criada pra ser nEle. Se você é uma dessas pessoas, e se identifica com alguns dos sintomas ou passa por alguma das dificuldades referidas acima, que está lhe impedindo de avançar e ser quem Deus lhe criou pra ser, precisa buscar ajuda, pois Deus lhe criou pra ser plena nEle e desfrutar de uma vida abundante. Buscar ajuda não é vergonha e sim um sinal de coragem e de compromisso consigo para se tornar quem você de fato é em Deus… O processo de ajuda se dá em primeiro lugar através de um relacionamento íntimo com o Pai e a sua Palavra, mas, pode ser que você também precise de uma ajuda profissional, um Psicólogo ou Conselheiro Cristão capacitado que te ajudará a entender o que aconteceu, a descobrir quem você é de fato e a lidar com as marcas e os sintomas de forma que elas não mais te impeçam de avançar e desfrutar do melhor de Deus pra tua vida”. Catharina Lígia Torquato Leal de Foronda (Psicóloga – CRP 13/3036)

 

“Deparar-se com a vivência de um abuso, em qualquer que seja a sua manifestação,  apropriar-se do vivido e falar sobre, se mostra de modo difícil, doloroso. Diversas são as emoções vivenciadas, e existe muitas vezes um peso ao não encontrar um modo de falar sobre o ocorrido. A pessoa que vive uma violência, como elucidam alguns autores, tais como (SILVA,2002), experiência uma perda de autonomia. Assim como as literaturas apontam o fenômeno do silêncio, que também é vivenciado nessas situações, seja pela vergonha de falar, seja pela dor,  ou seja por não se encontrar um modo de dizer. E quando falamos do público infanto-juvenil, que segundo  as estatísticas são o maior público que vive o abuso, a complexidade de lidar com a violência é ainda maior. Por isso, é imprescindível aos pais que tiveram filhos que passaram por esta situação de violência, o auxílio na busca por ajuda de profissionais capacitados na área. Para que elas possam ser acompanhadas, escutadas, cuidadas, e assim possam apropriar-se, e lidarem com a dor do abuso, que pode afetar a saúde psíquica, social  e física. 

Lembrando também, que cabe aos pais, pela lei, a responsabilidade da proteção e cuidado das crianças.  De modo que proporcionar o cuidado psicológico,  bem como outros que forem necessários, já faz parte disso. O profissional da Psicologia é qualificado para acolher , e cuidar do escutar o sofrimento. E por maior que seja essa dor, negá-la, escondê-la, silenciá-la, não auxilia no processo de cuidado da saúde. Como profissional,  vejo quão imprescindível é para a criança, e também aos pais, o cuidado psicológico, que pode viabilizar a família, chegar a uma compreensão das ressonâncias que podem surgir, bem como o entendimento de tudo que envolve o assunto, além do primordial : um modo de lidar e seguir apesar da dor. Se você tem filhos que viveram o abuso, existem profissionais que podem os auxiliar. Escutem seus filhos, acolham, busquem ajuda, e denunciem, pois o abuso é crime!” Janiklessya de Oliveira Santos (Psicóloga CRP-02/20241)

 

ABUSO, PSICOTERAPIA E POESIA!

por Graça Silva Moreira

Quando o ser humano sofre abuso, seja de que forma for, torna-se “fechado” para o mundo, a vida fica como jardim sem flor. Mais difícil de entender, é como tal pessoa passa a se comportar, às vezes tem vontade de morrer e a força da pressão psíquica sofrida, dói mais que qualquer agressão física.

Não vou generalizar, a singularidade humana tenho que respeitar, mas para quem   foi abusado(a), pode pensar que o melhor mesmo é morrer ou se calar, contudo a Psicologia está exatamente para nesses casos (dentre outros) ajudar, os Psicólogos nessa área podem muito bem atuar.

Buscar Psicoterapia é por socorro gritar, o que calado estava, falado vai ser, e essa ciência tão linda tem métodos e técnicas para com cada caso lidar, a alma humana tratar e o jardim voltar a florescer, porque em meio as tempestades, sem distinção de sexo, cor, idade, cultura ou qualquer desventura, o que vale é lutar.

Trauma compartilhado é problema desvendado, dor revelada pode ser trabalhada,  pessoa ferida pode ser tratada, angustia não precisa prevalecer, o vínculo Psicoterapêutico faz efeito, na vida para tudo tem jeito, porque aconteça o que acontecer, vale à pena viver!

 

 

7 COMENTÁRIOS

  1. Eu nunca fui tocada/violada da forma que é relatada no artigo. Porém, quando criança, aos 07 anos, também me vi assediada por um homem adulto. Era um amigo da minha mãe, que costumava nos visitar na companhia de um antigo namorado dela (o meu pai faleceu quando eu ainda era pequena). Pessoas assim entram na sua casa sem que nada denuncie o seu comportamento. Não são como os atores mal encarados, de expressão sombria, que vemos nos filmes. São pessoas absolutamente comuns. Elas pedem licença ao entrar. Respondem adequadamente às conversas. Riem na hora certa. Passam por todos os padrões de avaliação e são consideradas tão normais quanto qualquer um. No meu caso, mal me cumprimentou nas primeiras vezes em que esteve conosco e só se dirigia a mim para uma ou outra brincadeira na mesa de jantar. Um dia, ele veio ao meu quarto enquanto todos estavam lá fora, na área externa. Entrou sem bater e disse que íamos passear após o almoço, que a minha mãe tinha pedido para ele vir me ajudar a trocar de roupa. E, sem nem pausar o jogo que eu estava jogando (o meu irmão tinha deixado um Nintendo comigo e disse que eu nunca conseguiria jogar por ser “muito menininha”. Estava no quarto, justamente empenhada em provar o contrário), eu deixei que ele retirasse todas as peças que eu estava vestindo. Parece a coisa mais tola do mundo, mas a criança não tem esse “insight” de desconfiar e ir checar com os pais se a história contada por aquele adulto é verdade. Criança não é rápida em identificar maldade. Nunca tinha ouvido falar sobre essas coisas, achava que os adultos “amigos da mamãe” eram todos pessoas boas e que jamais me fariam mal. Se ele queria me ajudar, que homem bonzinho ele era! Só me dei conta de que ele era diferente, quando o olhei e ele não estava fazendo um único movimento para me vestir. Só me encarava. Senti um arrepio. Neste momento, alguém entrou procurando por ele, o que o fez sair correndo para a sala. Aí começou. Todas as vezes em que ia nos visitar, ele andava atrás de mim, me chamava para brincar, dizia que estava na hora de trocar de roupa. Falava frases em linguajar obsceno e fazia gestos de conotação sexual quando ninguém mais via. Não sabia exatamente o que era aquilo, só sabia que assustava. Fui ficando com medo dele. Se ouvia que ele vinha, ficava calada, retraída, tensa. Baixava a cabeça quando o via e passava por ele sempre muito depressa. Se sentava à mesa com ele, não dizia uma palavra, não olhava em sua direção e comia bem pouco. Ele sempre tinha uma história de “ir ao banheiro” e sair adentrando pelo corredor. Na minha casa, as chaves de todas as portas sempre ficavam nas fechaduras e passei a trancar a porta do meu quarto. Ao me perguntarem por qual motivo a porta estava trancada, não respondia. Dizia “Porque eu quis!” com voz irritada, levava bronca pela falta de educação e me sentia pior ainda. Mesmo assim, não contava. Até hoje, não sei por qual razão eu silenciava. Acho que a criança nem consegue discernir o que realmente está acontecendo, tem medo de se colocar contra um adulto e de expor algo que ela não sabe o que é, mas sabe que não é certo nem normal. Sabia que era uma coisa feia, errada e tinha uma vergonha, algo que não sei traduzir bem. Graças a Deus, o meu tormento acabou antes que algo de pior acontecesse. A minha mãe percebeu que o meu comportamento era sempre quando este homem vinha. Lembro de ouvi-la dizer: “Você está assustando a minha filha!”. Foi a última vez em que o vi. Ele foi banido de nosso convívio. Sinto por todas as crianças cujos temores não são identificados por seus pais e por todas que temem os próprios pais, autores de violência dos mais diversos tipos. Não moro em um bairro de vulnerabilidade, não tinha uma mãe com vícios e nem vim de uma realidade de criminalidade/violência. Mas este homem entrou em nossa casa e comeu em nossa mesa. Às vezes é um amigo, um amigo de um amigo, um amigo de um parente, um padrasto…Isso pode acontecer em qualquer classe social, em lares estruturados e famílias que nunca imaginariam algo do tipo. Pessoas capazes de atos assim acessam a vida das vítimas de diversas formas. Não sou mãe nem psicóloga, não ouso me julgar apta a conselhos. Mas da minha experiência retirei as minhas lições: casa é intimidade, acesso aberto à sua privacidade, ao seu cônjuge e aos seus filhos. Faz-se necessário um mínimo de sabedoria e prudência ao permitir o “passe livre” de alguém. Graças a Deus, a educação de crianças mudou muito e já existe um esforço em ensiná-las sobre proteger o próprio corpo. Foi algo que não tive (porque não era um debate tão comum) e foi fácil para este homem me ver sem roupa nenhuma dentro de poucos instantes. É muito importante ensinar às crianças quem é que troca a roupa delas e as ajudam a tomar banho, que outros adultos não têm essa permissão e que elas não devem exibir nenhuma parte dos seus corpos a estranhos, ainda que eles peçam ou digam que “mamãe mandou”. Finalmente: Não subestime uma criança. Assim como uma mulher sabe discernir um olhar de admiração e um olhar pervertido, a criança também sabe quando um carinho não é normal ou quando uma brincadeira é feia e esquisita. E ela não desenvolve uma aversão tão profunda à toa. Que possamos todos estar sensíveis aos sinais que os pequenos emitem, e que possamos “ouvir” aquilo que eles não sabem como dizer. Um olhar atento e cuidadoso pode prevenir muitas coisas. Dione, parabéns pela iniciativa, pelo texto bem redigido, pela pesquisa apurada e por toda a sua dedicação. Que os seus dons e talentos sejam sempre muito frutíferos para o Reino e que Deus te abençoe grandemente! Paz e sucesso para você!

    • Lais, obrigada pela coragem de falar… de saber hoje já adulta como lidar com o que vivenciou e como sensatez poder ajudar outros com conselhos tão sábios. Esse olhar maduro é o que os pais precisar ter nos dias atuais especialmente. O nosso objetivo é ajudar para que casos como esses não sejam mais tão constantes e que mais crianças não sofram com tudo isso. Eu agradeço pela leitura do artigo, pelo depoimento de sua experiência e que bom que você soube lidar e aprender com tudo o que viveu. Forte abraço!

  2. Uma matéria completa, esclarecedora, sensível, corajosa, confrontadora e acima de tudo humana! Deixo meus parabéns pelo excelente tema escolhido, que foi abordado de uma forma tão única e com tanta sensibilidade! Parabéns a Dione e a todos que contribuíram para o conteúdo do tema. Ficou fantástico! Deus abençoe!

    • Ahhh Doutora… Que honra saber que está ao meu lado nessa caminhada que só está começando… Temos uma jornada pela frente. Conte comigo porque eu sei que posso contar contigo. Seu amor pela medicina é encantador, mas seu amor pelo ser humano é divino. Sigamos sendo e fazendo o nosso melhor. Por mais vozes que promovam a liberdade pelo conhecimento da palavra. Abraço com profunda admiração.

      • Que palavras tão lindas Dione! Você como sempre me emocionando! Amo sua vida e admiro o que você tem feito e realizado!! Você é uma pessoa tão admirável que não tenho nem palavras para lhe descrever! Continue seguindo a voz do seu coração, sempre!

    • Janielle seguirei buscando em Deus outros temas para alcançar outras pessoas que, assim como essas, estão precisando de ajuda em Deus e na sua Palavra! Forte abraço!

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