Superando o abuso sexual

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por Dione Alexsandra e convidadas

Em meu novo livro Superação, publicado pela Editora Reinar, o tema abuso sexual é abordado de forma clara e humana. Além dos meus relatos, convidei algumas mulheres que tem papel fundamental na restauração de crianças que sofreram algum tipo de abuso.

No post de hoje, trago trechos da participação de duas dessas mulheres fortes que atuam em projetos sociais ajudando, restaurando e fortalecendo muitas crianças.

Adelai Quefar e Pâmela Pacheco, as quais sou muito grata pela participação nessa obra.

Adelai Quefar

(Líder de projetos sociais em Brasília-DF)

“Vejo quão importante é falarmos sobre esse tema: abuso. Precisamos abordar de forma clara e sei que isso é tabu para muitos, pois para eles são feridas que não podem ser tocadas. E, quando isso acontece, pode machucar e trazer danos terríveis se não forem tratados. É um assunto sério, porém importante e delicado. Tem algumas dessas feridas que estão expostas, outras bem escondidas e quando se mostra aquela ferida, ela precisa ser conhecida e espremida, porque se não for mexida e, claro, exposta, não haverá uma cura de fato.

Certa vez eu estava conversando com uma enfermeira e ela falava sobre alguns pacientes que estavam jogados pelos familiares e os enfermeiros e técnicos estavam adotando esses pacientes para cuidar deles. Ela então me falou da ferida escara, conhecido hoje como “lesão por pressão”, destacando como eles a tratam. O tratamento é de dentro para fora. A enfermeira falou que tem feridas tão profundas que cabem uma mão. Mas eles precisam ir lá no fundo para tirar o excesso da pele morta, das coisas ruins que ficam ali, lavando, tratando, e com isso, ela vai sarando de dentro para fora.

Ao ouvir esse relato dela, fiquei lembrando das crianças que cuido, dos abusos que muitas sofreram e ainda sofrem e que muitas dessas feridas emocionais são tão profundas que muitos não tem tempo para tratar, curar, para terem aquele momento de auxilio na vida dela. Assim como as feridas visíveis no corpo precisam de tempo para cicatrizar, sem contar que enquanto essa ferida está sendo tratada, o paciente precisa aguentar a dor que isso provoca. Afinal, ela está sendo mexida. Mas nós sabemos que quando Jesus veio ao mundo foi para nos curar e a cura que vem dele não causa dor. Ela traz o esforço
de quem vai receber essa cura, ou seja, quem quer ser  curado precisa se esforçar pra que haja manifestação dessa cura.

O abuso é como uma ferida, e quando não é tratada vai apodrecendo até ir a óbito. Para muitos, a ferida foi lá na infância e hoje são pessoas com 40, 60 anos, ninguém cuidou delas, ou a pessoa mesmo não deixou que fosse curada.

No meio cristão tem adultos, ministros do evangelho que foram vítimas de abuso e mascararam esse abuso, colocando band-aid em uma ferida tão profunda e estão sobrevivendo, mas não conseguem viver a plenitude e a abundância da vida, porque acham que aquilo não é importante e não precisa ser falado. No livro de Isaias capítulo 1 nos diz que a ferida precisa ser espremida e atada com óleo. Essa palavra nos mostra que aquilo que te causou dor precisa ser denunciado, mexido, espremido. Denuncie onde dói,
onde doeu, para que o óleo do espirito venha curar e trazer o que de fato Jesus fez na cruz do calvário, a cura plena e perfeita. Não pense que isso é um assunto distante da sua realidade, eu vi casos de abusos dentro das igrejas, dentro dos lares cristãos, então, isso
precisa ser falado, escrito e ensinado em nosso meio.

Especialmente ensinado às nossas crianças na igreja. Eu falo que fui formada na psicologia pelo Espírito. Porque coisas que eu sentei e falei com as crianças que cuido são técnicas da psicologia que eu nem imaginei que existiam. Pelo contexto dessas crianças que foram
chegando eu fui me aprofundando e fazendo alguns cursos extras da psicologia que não eram necessários ter a graduação em si, coisas como “Grafismo”.

O trabalho que temos hoje com essas crianças que foram  abusadas sexualmente é um processo de restauração. Sabemos que uma janela foi aberta em uma janela comprometida e na maioria é a janela killer. Essa janela é que vai definir algumas coisas na sua vida no futuro. A forma que a gente tem trabalhado com essas crianças abusadas é sempre com muito amor. Com consciência de quem elas são hoje. De que o que aconteceu acabou, passou. Não é que ela vai esquecer, mas ela vai entender que aquele momento agora dela é mais importante que as dores que ela viveu. Porque as dores que ela viveu trouxeram marcas e pesar, isso é um processo de reconstrução e cada dia é um dia. É onde entra o
fruto do espírito, o amor, a paciência, a compreensão.

Temos crianças que estão com o espírito restaurado, mas a alma sendo trabalhada ainda. Elas voltaram a sorrir, mas o espírito do medo quer voltar a assolar muitas vezes. Quando pessoas sofrem abuso, elas precisam ser cuidadas, porque podem desencadear problemas como: síndrome do pânico, bipolaridade, esquizofrenia, entre outras coisas… Essas são doenças psicossomáticas que não são demônios, óbvio que o demônio vai agir na fraqueza, mas são doenças da alma.

Estamos cuidando delas com amor e com a Palavra de Deus. É uma vida que tem que ser tratada e sarada. Hoje eu entendo porque muitos cristãos não permanecem na fé, são cristãos oscilantes, estão crendo, confessando a Palavra, mas são pessoas que não foram tratadas na alma, pessoas que ainda não entenderam seu propósito, não entenderam quem são, de onde vieram e para onde irão. São cristãos que não denunciaram suas
fraquezas, confessaram assim: “Deus, estou aqui, está tudo bem, tudo perdoado…” amém, somos justiça de Deus, mas, qual é a sua kriptonita? Trate ela! Denuncie ela! Se rasgue diante de Deus.” 

Por Pâmela Pacheco

(Vice-presidente da ONG Ide Projetos Sociais em Soledade-PB)

“De todas as crianças que entraram na nossa Casa de Acolhimento do Projeto cerca de 70% foi por causa do abuso, e todos da própria família, na maioria das vezes, o pai.

Em 2018 recebemos cinco irmãs, a mais novinha tinha 11 meses e a mais velha 14 anos. Elas eram abusadas pelo pai e exploradas sexualmente.

Ele abusava e depois pegava elas e levava para a feira da cidade e cobrava 5 reais para os homens abusarem delas também. De fato, elas sofriam abusos de todas as esferas e em todo tipo de situação. Elas tomavam remédio controlado para dormir quando chegaram para serem cuidadas por nós na ONG. Enquanto elas estavam conosco, foram investigar a mãe para saber se ela realmente não tinha conhecimento disso.

Essas crianças passaram uns 8 meses com a gente, que era o tempo burocrático das investigações, que acabaram entregando-as para a mãe novamente por não terem provas de que ela sabia de fato que isso acontecia. Esses abusos ocorriam diariamente, as três mais velhas usavam absorvente, pois sangravam o tempo todo. Quando elas chegaram, lembro que elas desmaiavam o tempo todo e as mães sociais que cuidavam ficavam impressionadas com isso.

Não sabiam como trabalhar com elas, tinham crises nervosas, elas mal falavam, eram retraídas, mas ao longo do tempo pararam de tomar remédios, se envolveram na ajuda com as crianças menores. Lembro que no dia delas irem embora, saíram cantando: ‘Porque Ele vive, posso crer no amanhã…’Mas quando elas voltaram para casa choraram muito sem querer sair do acolhimento que tinham no projeto. E nós sofremos muito com tudo isso. Nesse projeto temos psicólogos, assistentes sociais e mães sociais que cuidam dessas meninas, porque elas vêm morar lá. As consequências do abuso na vida dessas crianças são terríveis, o emocional é mais abalado, porque é perceptível no acolhimento os níveis de traumas delas.

Elas vêm com o pensamento: ‘quem mais deveria me proteger, me agrediu’. Então, é muito delicado, e pedimos sabedoria ao Senhor pois sabemos que em Deus existe um amor, que palavra nenhuma irá preencher a dor que elas sentem. Nós simplesmente decidimos amá-las, e com um tempo, de retraídas, elas começaram a falar sobre isso abertamente de como era. Mas falar no pai, elas não queriam, casar, muito menos. Não queriam sequer falar sobre casamento. Algumas crianças vítimas de abuso lá, quando iam brincar de bonecas e tinha o boneco do pai e o da mãe, por exemplo, elas diziam que não existia pai e mãe, só irmãos, porque o pai e a mãe eram aqueles que machucavam. Vemos o quanto isso fica dentro delas de forma traumática e só a Palavra de Deus que vai sarar lá dentro.”

Trechos retirados do livro “Superação“, que está disponível para venda no Verboshop clique aqui e adquira seu exemplar. 

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