As crianças de ontem – Ep.5

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por Socorro Quirino

E finalmente concluímos o projeto “As crianças de ontem“. Como foi maravilhoso poder acompanhar o crescimento desses jovens e, como eles, temos muitos outros dignos de serem honrados e que fazem os seus  professores se encherem de orgulho por ter, de alguma forma, participado das suas vidas em algum momento da sua caminhada cristã.

Os nossos participantes desse post são Josué Arcanjo e Thiago Borba, nosso pastor presidente na sede em Campina Grande (PB). Realmente, não sabemos os projetos e propósitos de Deus na vida das crianças que passam por nossas vidas, por isso estejamos prontos para semear cada um a seu tempo e deixar que Deus trabalhe no crescimento da vida delas, são muitos os dons e talentos sendo usados para o crescimento do Reino de Deus

Agradeço a todos os  participantes que contaram um pouco da sua trajetória para que o Corpo de Cristo fosse edificado e, em especial, os professores e lideres do Departamento Infantil.

THIAGO BORBA  

Meu nome é Thiago Borba. Tenho 36 anos, sou casado com Juliana e pai de Samuel, que tem 3 anos de idade. Trabalho no Centro de Operações do Ministério Verbo da Vida, desde 2008, atuo na Diretoria do MVV desde 2014 e, também, desde dezembro de 2019, como pastor da Igreja Sede em Campina Grande (PB). 

Meus pais, Thadeu e Rita Borba, são membros da sede, desde 1993, ano também em que cursaram o primeiro ano do Centro de Treinamento Bíblico Verbo da Vida. Nesta época, ainda com 9 anos, comecei a frequentar ativamente o Departamento Infantil da igreja. Por influência do meu pai, sempre tive muita afinidade com a música.Comecei a tocar violão aos 10 anos, mas, mesmo antes disso, já tocava instrumentos de percussão na igreja. Lembro de cultos no Departamento Infantil nos quais, quando não tínhamos instrumentos para tocar, o louvor era conduzido com batidas nas próprias cadeiras, como se fossem tambores.

Era um tempo de muitos desafios na igreja, mas também de muita diversão. Lembro bastante dos momentos de louvor e adoração nas salas do DI. Algo que sempre me vem à lembrança era o que ocorria ao final destes. As “tias” perguntavam se alguém tinha ouvido alguma coisa do Senhor que gostaria de compartilhar. As crianças, então, faziam fila para falar no microfone e a grande maioria dizia sempre a mesma coisa: “Ele disse que me ama”. É até engraçado lembrar disso hoje, mas tenho certeza que essa prática me ensinou muito sobre a sensibilidade e simplicidade da voz do Espírito. 

Não tenho dúvidas de que os ensinamentos que recebi e as experiências que tive durante aqueles anos no Departamento Infantil lançaram muitos dos fundamentos sobre os quais desenvolvi meu caráter e chamado. Sou muito grato a cada professor e professora que, com tanta paciência e esforço, dedicaram sua vida para ajudar a desenvolver a minha. Principalmente, naquele tempo, em que os recursos ainda eram escassos e até a experiência ainda estava sendo adquirida. Muitos deles, hoje, estão ativos no ministério, atuando até em outras áreas diferentes, mas sei que o que aprenderam servindo, naquela época, construiu neles uma estrutura que possibilita a eles fazerem o que estão fazendo. Além disso, tenho convicção que estão colhendo do fruto de cada semente que foi lançada na vida de crianças como eu. 

JOSUE  ARCANJO

Meu nome é Josué Serpa Arcanjo, sou filho dos missionários Jusciê e Joanice, no Japão. Tenho 18 anos e faço o terceiro ano do ensino médio. Comecei a participar do Departamento Infantil, desde o berçário, e fui até os oito anos de idade. Não me lembro de muitas coisas desse tempo, mas posso dizer com certeza que os fundamentos que eu aprendi através das professoras estão firmados em meu coração .

Viver em um país como o Japão é um desafio. Sofri muito para aprender o idioma e me adaptar à cultura tão diferente da nossa. Mas foi nessas horas que os ensinos do DI me ajudaram a ficar firme, ainda estou para ver um ministério que tenha tanta excelência neste departamento como o Verbo da Vida .

A minha vida  mudou e ainda tem mudado. Posso afirmar que o DI pode fazer diferença na vida de pessoas. Obrigado professores vocês foram canais de Deus para mim. Recebi muito e tenho colocado em prática o que aprendi.

A redação abaixo foi premiada entre 15 mil japoneses. Conheça um pouco da história de superação, desse pequeno grande missionário. 

RECOMEÇAR

Uma manhã, acordei mais cedo do que o habitual, tomei o pequeno-café e apanhei um táxi com nós quatro, a família. O destino era o aeroporto. Como criança, fiquei surpreso com o som do motor do avião. Foi a minha primeira vez a andar de avião. O passaporte confirmava uma viagem que traria uma grande mudança na minha vida. Tive que viver num país completamente diferente do meu país natal, palavras e cultura totalmente diferente. Chegamos ao Japão em agosto de 2010. Fiquei tão nervoso e depois das férias de verão, fui matriculado na escola primária, no segundo ano, para o segundo semestre. Centenas de crianças usando chapéu amarelo, e na parte de trás tinham uma mochila quadrada estranha.

Lembro-me de segurar fortemente a mão do meu pai. Cabelo, cor de pele, forma de rosto, tudo era “igual” para mim. O muro das palavras (a língua japonesa) também foi enorme. Estudei japonês antes de vir para o Japão. Eu sabia ler hiragana, mas não consegui falar e nem ler o kanji (os ideogramas ou letras da escrita japonesa). Havia muitas crianças estrangeiras na escola primária, e havia três intérpretes. É por isso que tive aulas extras e, com a turma, só aulas de esportes e artes. As outras aulas tinha que aprender japonês separado da minha turma.

A minha luta mais difícil foi compreender uma cultura isolada, uma sociedade que vive em uma ilha, formada por clãs e vilas em sua historia. Desde criança, ensinaram-me a não me importar com a opinião dos outros: “viva pelo que você acredita”. É por isso que eu não queria lembrar-me dessas opiniões alheias. Eu estava sofrendo bullying.

Os japoneses, nem todos eles, vão odiar pessoas que são diferentes de si mesmas. No entanto, quando íamos ao supermercado doía muito vê o distanciamento das pessoas, era como se tivéssemos com uma doença contagiosa. Em comparação com outros clientes, somos tratados diferentes. Na escola recebia provocação por causa do meu cabelo. É como um ninho de pássaro, diziam eles, parece um “yakisoba”. Ouvi muitas vezes: “Cuidado! Não toque nele, você vai se sujar!”. Tratavam-me com o um doente: “É melhor não tocar nessa cadeira, porque é um assento de estrangeiro”, parece que eu estava marcado como sujo. Cada vez que os ouvia, pensava: queria desaparecer. Ninguém queria jogar e nem brincar comigo, de toda classe, quase quarenta alunos. Mesmo com tudo isso, todos os dias, fui para a escola sem descanso.

Mas um dia, chegou o meu limite. Ao toque de regresso para casa, no fim do dia de aula, e quando eu estava indo para a porta da frente, caí forte ao ser atropelado pelas costas e caí feio. A garrafa de água veio para frente e chocou o meu nariz. Quando abri os olhos, estava cheio de sangue à minha volta. Parei a escola primária japonesa e comecei a freqüentar a escola primária brasileira no Japão. Então pude falar livremente a minha língua nativa, tive amigos e uma boa pontuação na prova. Correu tudo bem.

Dois anos se passaram. Mas houve desconforto no meu coração. Estou no Japão, e comecei a pensar que deveria aprender cultura japonesa, porque estou no Japão. Dizendo aos meus pais, eles ficaram surpreendidos, e lembraram-me do caso que tivera, há dois anos, e eu estava ansioso. Mas logo concordaram com a minha opinião. Já faz 10 anos que estou no Japão. O tempo passado no Japão é maior do que tempo vivido na minha pátria Brasil. Agora posso falar japonês como estudante geral do ensino médio. Eu sei ler e escrever, mas estou lutando para me lembrar dos kanji’s. Consigo entender a magnífica cultura japonesa e gosto deste país.

Estava a pensar sobre meu futuro, voltar ao meu país natal ou ficar no Japão. Pela minha experiência dura, quero ajudar crianças estrangeiras no Japão. Vou entrar na faculdade e obter o conhecimento que preciso para ajudar crianças e pais que vêm do exterior. E, através da interpretação e palestras nas escolas e outros, quero ajudá-los a entender a cultura japonesa, quero entender e ajudar a compreensão da cultura do exterior para o povo japonês. Ajudar a romper essa parede de palavras: o “muro da cultura” é grosso. Mas não é impossível superá-lo… porque eu superei!

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