Faço a paz e crio o mal

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por Marcos Honório Jr.

Olá pessoal, hoje trago um trecho do meu novo livro, lançado recentemente pela Editora Reinar (parceira da Rhema Brasil Publicações), “Soberania ou Livre Arbítrio?”:

“Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Isaías 45.7)

Esse texto é sempre citado, quando se discute acerca da possibilidade de Deus ter criado o bem e o mal, e não somente o bem. Vale salientar que existem outros textos

semelhantes, mas esse é, sem dúvidas, o mais claro. E ao entender este, tratamos praticamente todos os outros.

À primeira vista, ele parece realmente não nos deixar saída, pois está afirmado textualmente que Deus “cria o mal”. Contra fatos, não existem argumentos, e como

literalista, talvez tenhamos que aceitar calados a informação bíblica de que Deus cria o mal. Mas como além de literalista, também creio na inerrância das Escrituras, penso que não devemos nos precipitar com esta conclusão superficial.

Quero apresentar três possíveis explicações para o texto, desde a mais frágil até a mais robusta, e juntas, estas encontram uma explicação razoável para harmonizá-lo com o restante das escrituras, que afirmam que Deus é luz.

A primeira delas baseia-se na análise léxica da palavra “crio” no texto original. Em hebraico ela significa Bara, que na referência Strong, de acordo com o tronco Qal, significa formar, criar, dar forma (sempre em relação à ação de Deus). Já no tronco Piel, essa mesma palavra pode ser traduzida por cortar. Sendo assim, seria possível dizer que houve um erro de tradução, e então, deveria estar escrito “cortar o mal”, e não “crio o mal”. O problema é que no texto a palavra está no tronco Qal. E existe ainda uma outra alternativa de tradução, essa no tronco hifil, que seria engordar. Mas não dá para engordar o mal, não é verdade?

A grande fragilidade dessa explicação está no fato de que nenhum tradutor jamais

traduziu esse texto com cortar, o que tornaria nossa vida muito mais fácil.

A segunda explicação, um tanto melhor, olha mais profundamente para o versículo e para os paralelos antitéticos citados: luz e trevas, paz e mal. No contexto, luz é o oposto de trevas, e paz o oposto de mal. Mas se pensarmos em luz e trevas, teremos que admitir que não é necessário criar as duas coisas, pois trevas são ausência de luz. Dessa forma, quando Deus toma a iniciativa de formar a luz, não de forma intencional, mas por contingência, cria as trevas. Semelhantemente, ao formar a paz, consequentemente, e de forma não intencional, cria o mal.

Particularmente, acredito que a melhor alternativa seja a terceira que apresento agora. Devemos olhar para todo o contexto, desde o capítulo anterior, quando o texto começa a se referir a Ciro. Vejamos:

“Lembra-te destas coisas, ó Jacó, ó Israel, porquanto és meu servo! Eu te formei, tu és meu servo, ó Israel; não me esquecerei de ti. Desfaço as tuas transgressões como a névoa e os teus pecados, como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi. Regozijai-vos, ó céus, porque o SENHOR fez isto; exultai, vós, ó profundezas da terra; retumbai com júbilo, vós, montes, vós, bosques e todas as suas árvores, porque o SENHOR remiu a Jacó e se glorificou em Israel. Assim diz o SENHOR, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra; que desfaço os sinais dos profetas de mentiras e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, cujo saber converto em loucuras; que confirmo a palavra do meu servo e cumpro o conselho dos meus mensageiros; que digo de Jerusalém: Ela será habitada; e das cidades de Judá: Elas serão edificadas; e quanto às suas ruínas: Eu as levantarei; que digo à profundeza das águas: Seca-te, e eu secarei os teus rios; que digo de Ciro: Ele é meu pastor e cumprirá” (Isaías 44.21-28)

tudo o que me apraz; que digo também de Jerusalém: Será edificada; e do templo: Será fundado.

Essa passagem é uma profecia do profeta Isaías que aponta para a redenção do povo de Israel do cativeiro da Babilônia. Deus está prometendo que restaurará a nação, a terra e o templo, e que os céus exultarão por isso, pois Deus, na sua soberania, agirá com amor em relação a Israel, redimindo-os dos seus pecados, que ainda os levariam ao cativeiro. E ao fim da profecia ele fala sobre o homem que será o canal pelo qual Deus realizará esse livramento. Esse homem é Ciro.

Ciro será o rei que unirá os reinos da Média e da Pérsia. Ele será o primeiro Rei medo-persa e derrubará o império da Babilônia. Antes mesmo que o povo fosse, Deus

já havia anunciado que o povo iria, mas que sairia de lá através do rei Ciro. Vejamos o capítulo 45 de Isaías.

“Assim diz o SENHOR ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face, e para descingir os lombos dos reis, e para abrir diante dele as portas, que não se fecharão” (Isaías 45.1)

A profecia avança olhando para Ciro, e como ele realizaria o grande feito. Deus o levantaria para servir de juízo às nações que estavam contra Ele, mais precisamente contra o povo de Israel.

“Eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro” (Isaías 45.2)

Haveria uma graça de Deus para que o reino de Ciro prosperasse e, consequentemente, os planos de Deus se cumprissem. Lembrem-se que citamos, no início do livro (Soberania, ou Livre Arbítrio?), que em alguns casos, Deus agiu deliberadamente de forma soberana. Mas aqui não se trata de decretar salvação do pecado, mas cumprir Seu plano de preservar o povo pelo qual o Messias viria à terra. Portas de ferro e portões de bronze são uma descrição perfeita da Babilônia.

“Dar-te-ei os tesouros escondidos e as riquezas encobertas, para que saibas que eu sou o SENHOR, o Deus de Israel, que te chama pelo teu nome” (Isaias 45.3)

O livro de Esdras inicia nos informando que Ciro reconheceu que havia sido chamado e capacitado por Deus para libertar o povo. Em consequência disso, todo o ouro da Babilônia foi levado para o reino de Ciro.

“Por amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido, eu te chamei pelo teu nome e te pus o sobrenome, ainda que não me conheces” (Isaías 45.4)

Essa era a razão principal de tudo isso, libertar o povo de Israel (Jacó) do cativeiro. Eles foram levados ao cativeiro por terem agido obstinadamente contra Deus, mas de lá clamaram, se arrependeram e o Senhor os ouviu.

“Eu sou o SENHOR, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces” (Isaías 45.5)

Mesmo sendo Ciro oriundo de um povo que não guardava aliança, e não tinha em sua cultura nenhum culto a Deus, Ele o levantaria para evidenciar Sua grandeza e o fato de que Ele é o verdadeiro soberano do universo.

“Para que se saiba, até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro” (Isaías 45.5)

Todas as nações, e especialmente o grande império da Babilônia, veria a mão poderosa de Deus julgando os seus pecados e libertando o povo de Israel através de Ciro.

“Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” (Isaías 45.7)

E aí surge o famoso verso, o qual temos que lê-lo dentro do seu contexto. Se fôssemos parte do império Babilônico, não seria difícil entender que Deus estava planejando algo ruim, ou mal para nós. Mas a questão é que essa ação seria justa. Este texto não está falando que Deus causa o mal moral, ou natural, mas diz que Deus é o soberano das nações.

Em alguns momentos, Ele vai agir com benevolência, mas em outros vai agir com firmeza, a fim de disciplinar a maldade dos povos de forma exemplar. Vale salientar que a palavra “mal” do verso sete é o contrário de paz, não de bem. A palavra hebraica traduzida por paz aqui é shalom, que significa um estado de tranquilidade, ausência de perturbação. Deus está dizendo que vai dar fim ao estado de paz em que a Babilônia se encontrava, e que vai julgar os seus pecados. E a glória não deveria ser dada a Ciro, pois era Deus quem estava realizando aquilo.

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