O Ministério do Profeta – Parte 2

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por Lucileia Toledo

Definição

Profeta, no sentido neotestamentário, é aquele que fala “obedecendo ao impulso de uma repentina inspiração, à luz de uma súbita e momentânea revelação” (I Coríntios 14.30)

O oficio do profeta na Antiga e na Nova Aliança

O profeta é uma das carreiras ministeriais mais atuante quando consideramos a Antiga Aliança e o surgimento dos ofícios ministeriais. Embora sejam evidentes as diferenças na atuação do profeta na Nova Aliança, esse é o único dom ministerial que se desenvolveu nas duas Alianças.

Por causa disso, existem muitas confusões no meio evangélico concernentes a esse ofício, pois muitos tomam como base o comportamento do profeta na Antiga Aliança para justificar o desempenho de alguns profetas hoje. Não está errado examinarmos as atividades dos profetas do Velho Testamento para compreendermos os atuais. O equívoco está em trazermos para a Nova Aliança uma função que, para o profeta, não existe mais.

O profeta do Novo Testamento não tem a mesma posição e destaque do profeta do Antigo Testamento. O profeta do Antigo Testamento era o único ministério em operação a favor das pessoas, do ponto de vista da pregação ou ensino por expressão vocal inspirada. Tal fato, já não é válido para o Novo Testamento. O Senhor Jesus colocou o ministério quíntuplo na igreja para o aperfeiçoamento dos santos.

Na Antiga Aliança, Deus precisava conduzir o homem caído e, como este era morto espiritualmente, incapaz de se relacionar com Deus por meio do espírito, Deus ungiu homens para atuações especificas, dessa forma podia dar direções a seu povo e revelar, ainda que de forma limitada, sua vontade.

Somente os reis, os sacerdotes e os profetas eram ungidos pelo Espírito de Deus para ocuparem os seus respectivos ofícios. As demais pessoas não tinham nenhuma presença de Deus tangível em suas vidas. Eles não tinham o Espírito de Deus nem sobre eles, nem dentro deles.

Um profeta é alguém que tem visões e revelações. No Antigo Testamento, um profeta era chamado de vidente, pois podia ver e saber das coisas de maneira sobrenatural.

Era responsabilidade do profeta revelar o pensamento de Deus para todos como nação, família ou pessoa e também nos vários aspectos: governamentais, político, administrativo, cultural, geográfico, civil e religioso. Em qualquer área da existência humana, Deus revelava sua vontade por meio do profeta. Por meio da inspiração divina, o profeta recebia uma revelação que desvendava o oculto, anunciava juízos, emitia conselhos e advertências divinas.

Por isso, semelhantemente aos reis, que eram levantados para governar o povo, os profetas eram levantados por Deus para conjuntamente com esse rei conduzir o povo. O rei, no aspecto do governo; e o profeta, sendo consultado pelo rei a respeito da vontade de Deus para seu povo.

Um exemplo desse modelo foi Samuel e Saul. (I Samuel 9-15)

Mais exemplos:

“Disse o rei ao profeta Natã: Olha, eu moro em casa de cedros, e a arca de Deus se acha numa tenda. Disse Natã ao rei: Vai, faze tudo quanto está no teu coração, porque o senhor é contigo. Porém, naquela mesma noite, veio a palavra do Senhor a Natã, dizendo: Vai e dize a meu servo, Davi: Assim diz o SENHOR: Edificar-me-ás tu, casa para minha habitação?”
(II Samuel 7.2-5)

“Ao levantar-se Davi pela manhã, veio a palavra do SENHOR ao profeta Gade, vidente de Davi, dizendo: Vai e dize a Davi: Assim diz o Senhor: Três coisas te ofereço; escolhe uma delas, para que te faça” 
(II Samuel 24.11-12)

Quando o rei levantado fazia o que era bom diante do Senhor, podia contar com o auxílio do profeta no tocante às direções de Deus para seu reinado. Entretanto, quando o rei mudava seu coração e fazia o que era mau ou mesmo quando o povo de Israel mudava seu coração e voltava-se para a idolatria, sempre houve um profeta de Deus levantado para um tempo especifico ou para estações especificas com o intuito de que o coração do rei ou do povo voltasse novamente para Deus, para que assim Ele pudesse salvá-lo ou curá-lo.

Num primeiro momento, o profeta exercia um importante papel de conselheiro no palácio real (Natã, cf. II Sm 12.1; I Rs 1.8,10,11). Contudo, após a divisão do reino de Israel, o profeta passou a ser perseguido, pois sua profecia confrontava diretamente a nobreza, a dissimulação dos sacerdotes e a injustiça social (Jr 1.18,19; 5.30,31; Is 58.1-12).

Os profetas na Antiga Aliança proclamavam a vontade de Deus, chamando o povo para a santidade e para o abandono da idolatria. Expressões como “veio a mim a palavra do Senhor” e “assim diz o Senhor” eram formas usuais para o profeta começar a mensagem divina (Jr 1.4; Is 45.1). Símbolos e visões também eram formas de Deus falar através dos profetas ao seu povo (Jr 31.28; Dn 7.1)

Vale ressaltar que santidade será sempre a mensagem que arde no coração de um profeta, seja ele da Antiga ou da Nova Aliança. Todavia, de fato, todos os profetas, a partir de Samuel, um por um, tiveram um tema central em suas mensagens: predisseram a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo (At 3.24).

“Foi a respeito dessa salvação que os profetas que falaram da graça destinada investigaram e examinaram, procurando saber o tempo e as circunstâncias para as quais apontava o Espírito de Cristo que neles estava, quando lhes predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se seguiriam àqueles sofrimentos” (I Pedro 1.10,11)

Na Nova Aliança Jesus não colocou o profeta no ofício para guiar ou conduzir os crentes.

Cada crente tem o Espírito Santo dentro dele para guiá-lo, conduzi-lo, cada crente pode ouvir a Deus por si mesmo. Portanto, na Nova Aliança, não é bíblico buscar direção de Deus através de um profeta. Todavia é totalmente bíblico receber orientações de Deus por meio de um profeta. Deus sempre vai comunicar aos corações de seus filhos a sua vontade, porém, pode usar um profeta para acentuar detalhes ainda não claros nos corações. Deus, pela sua soberania, pode trazer uma palavra para uma pessoa através de um profeta para confirmar algo que essa pessoa já tem em seu próprio espírito.

Todo crente precisa aprender a ser orientado pelo testemunho interior dado pelo Espírito Santo ao seu espírito humano e saber em seu próprio espírito como, quando e para onde Deus o está guiando. Se algo que um profeta diz confirma o que você tem em seu espírito, tudo bem; caso não, esqueça!

O Espírito de Deus está dentro de cada crente para o guiar (Rm 8.14, Jo 16.13), mas é necessário desenvolver maturidade por meio da obediência imediata ao testemunho interior em seu próprio espírito. O testemunho interior é tão espetacular e revelador quanto a profecia proferia por um profeta. Entretanto, não é bíblico, por essa causa, desprezarmos as orientações de Deus dadas por meio dos profetas.

Mesmo na Nova Aliança Deus tem usado seus profetas para trazer a nações, povos, famílias e a pessoas seu tom e timbre para cada época, momento ou estação, seja, de forma governamental, eclesiástica, econômica, política, geográfica ou cultural. Todavia, embora as semelhanças entre o ministério do profeta no Antigo Testamento e no Novo Testamento sejam notáveis, o profeta do Novo Testamento não tem o mesmo status (posição) do profeta do Velho Testamento, ele não é mais o guia de Deus para seus filhos, mas continua com total capacidade de ver na dimensão do espírito e saber de coisas sobrenaturalmente, através dos dons de revelação.

O ofício do profeta é um dom ministerial dado por Deus à igreja. Assim como os demais dons ministeriais são concedidos, o de profeta também o é, demonstrando, dessa forma, que não é um título, cargo ou função que pode ser repassado como um legado ou diploma atribuído depois de certa formação acadêmica. Apenas Deus, por meio Jesus, pode colocar dentro do homem esse chamado específico, o qual pode ser desenvolvido com a fidelidade, entretanto nunca será atribuído por vontade humana.

Os sinais e equipamentos de um profeta

O profeta deve ser, antes de tudo, um pregador ou mestre da Palavra. O propósito primário de um profeta deve ser a pregação e/ou o ensino da Palavra. A profecia não é a principal faceta do ministério do profeta. Podemos perceber isso mesmo no ministério dos profetas do Antigo Testamento. Antes de tudo eles eram pregadores.

Jesus atuou nos cinco dons ministeriais e sabia distinguir muito bem o que foi ungido para fazer:

“O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração” (Lucas 4.18, Mateus 9.35)

Mesmo como profeta, o ministério de Jesus consistia primeiramente no ensino. Em segundo lugar, na pregação. E em terceiro lugar, na cura.

Qualquer um que é chamado para o ministério quíntuplo, é primeiramente chamado para pregar ou para ensinar o evangelho. Pregar é o mesmo que proclamar. Ensinar é o mesmo que explicar ou expor. Portanto, qualquer um que é chamado em um dos dons do ministério deve ser sempre pregador ou mestre, pois, de uma forma ou outra, proclama ou explica o evangelho.

Indignação contra o pecado é uma chamada constante à santidade nas proclamações do profeta.

Um Profeta tem revelações e visões por meio de:

– Palavra de Sabedoria: revelação sobrenatural pelo Espírito de Deus, concernente ao propósito da mente e vontade de Deus. Refere-se ao futuro ou aos planos e propósitos de Deus.

– Palavra de Conhecimento: revelação sobrenatural, pelo Espírito de Deus, de fatos da mente de Deus concernentes a pessoas, lugares ou coisas. Sempre se refere ao presente ou passado.

– Discernimento de Espíritos: discernimento sobrenatural da dimensão espiritual. Enxergar e ouvir na dimensão espiritual.

Qualquer crente cheio do Espírito Santo pode ter a manifestação desses dons conforme a vontade do Espírito e a necessidade, entretanto, um profeta terá uma manifestação muito mais consistente e com muito mais frequência desses dons.Há uma unção e um equipamento espiritual dado pelo Espírito Santo para o ofício do profeta.

O dom da profecia e o ministério do profeta são coisas distintas. Sabemos que existe o dom espiritual da profecia, no entanto, apesar de esse dom estar presente no ministério do profeta, é distinto do dom ministerial do profeta.

O espírito do profeta está sujeito ao profeta

“E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (I Coríntios 14.32)

O profeta fala por inspiração divina, ou fala sob a unção e o poder do Espírito Santo de acordo com a inspiração do momento. Observamos isso tanto nos profetas da Antiga Aliança quanto nos profetas da Nova Aliança. Contudo vale ressaltar que um profeta não é possuído pelo Espírito Santo ou recebe 24 horas por dia e sete vezes por semana revelações de Deus.

Um profeta pode, inclusive, ao receber uma revelação, analisar o momento, a forma (de acordo com o nível de maturidade da pessoa que vai receber) e o lugar adequado para transmitir a mensagem de Deus (em público ou particular).

Da mesma forma, ainda contando com a inspiração do Espírito Santo, deve manter uma vida de estudos e meditação na palavra, não negligenciando seu tempo de crescimento nas Escrituras, preparando a si mesmo, orando e esperando em Deus, pois o profeta vai profetizar de acordo com proporção de sua fé.

O dom ministerial e a personalidade do profeta

Deus não anula a personalidade de seus filhos por motivo de um dom ministerial. Entretanto, personalidade não deve se confundir com falta de educação ou desejo de ser excêntrico.

É bem verdade que é uma característica dos profetas serem diferentes e algumas vezes causar estranheza, entretanto isso não deve ser motivo para a falta de equilíbrio ou para escândalos. Muitos profetas escondem sua carnalidade e, por conseguinte, sua imaturidade, agindo de forma inconveniente em nome de Deus. A unção poder ser mais facilmente quebrada pelo desequilíbrio do profeta no tratamento com o povo, seja na entrega da profecia ou pela imposição de mãos de forma inadequada, do que por uma música tocada na hora errada, embora seja evidente que a música influencia diretamente na manifestação da unção.

O profeta maduro pode antes de uma possível imposição de mãos verificar se a pessoa que vai receber não corre riscos de cair e se machucar. Também pode estar atento ao espaço físico do local antes de colocar todos para correr ou pular, pode instruir a plateia a fazer o que Deus colocou no seu coração de forma organizada e ordenada.A unção não vai “fugir” por causa de um zelo para com os filhos de Deus; pelo contrário, ela pode ser potencializada.

Tão importante quanto fluir na unção é fluir como está proposto no coração de Deus. Deus é um Deus do incomum, extraordinário e sobrenatural, mas também é um Deus que ama o equilíbrio, a organização e o planejamento. Essas coisas não são, de forma alguma, menos espetaculares e sobrenaturais do que as chamadas de: “manto”, “fogo” ou “retetê.” O zelo por Deus, a compaixão por vidas, o zelo e o apego pela doutrina são caraterísticas que devem operar no ministério de um profeta, e não o barulho causado enquanto se move na unção.

 

Leia a Parte 1. 

*Esse texto continua na Parte 3. 

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