Outro Olhar sobre o “Chamado”

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por Tony Cooke

Deixe-me ressaltar, primeiramente, que eu acredito no chamado do Senhor. Além das inúmeras evidências bíblicas sobre o assunto, eu tenho percebido, em minha própria vida, o chamado dEle para servi-Lo. Tendo ensinado durante anos em uma escola bíblica e tendo trabalhado com diversos ministros, tenho ciência de que Deus chama e equipa pessoas para cumprir certas tarefas em Seu nome.  

Tendo dito isso, acho que é importante ressaltar algumas questões relativas ao chamado do Senhor. Por exemplo:

  • O que acontece quando as inseguranças de uma pessoa obscurecem suas percepções quanto ao chamado de Deus?
  • Uma pessoa deve possuir um chamado específico para realizar algo significativo para Deus?
  • A forma como Deus chama uma pessoa deve ser emocionante ou sensacional para que seu chamado seja legítimo?

E quanto às nossas inseguranças?

Deparei-me, recentemente, com as afirmações de duas ministras excepcionais, Glady Aylward e Kathryn Kuhlman. Aylward (1902-1970) possuía uma distinta e frutífera carreira como missionária na China. Refletindo sobre seus anos no ministério, ela disse:

“Eu não fui a primeira escolha de Deus para o trabalho que realizei na China. Havia outra pessoa… Eu não sei quem teria sido essa primeira opção de Deus. Deve ter sido um homem – um homem maravilhoso. Um homem bem-educado. Eu não sei o que deve ter acontecido. Talvez, ele tenha morrido. Talvez, ele não estivesse disposto… E Deus olhou para baixo e viu Gladys Aylward”.

Igualmente, Kathryn Kuhlman (1907-1976), uma poderosa evangelista, comentou:

“Eu creio que a primeira escolha de Deus para esse ministério era um homem. Sua segunda escolha também. Porém, nenhum homem estava disposto a pagar o preço. Eu apenas fui ingênua o suficiente para dizer: ‘Eis-me aqui’. E Ele vem fazendo isso desde então”.  

Eu não sou suficientemente douto para saber se tais mulheres estariam corretas em suas afirmações; talvez, isso seria apenas humildade da parte delas. No entanto, eu não posso deixar de pensar se – em suas mentes – a insegurança as estava proibindo de se verem como as primeiras escolhas de Deus, quando elas, sem sombra de dúvidas, poderiam ter sido. Como elas, parece que muitas pessoas têm dificuldades em compreender o chamado de Deus em suas vidas.

Um exemplo clássico foi Gideão. Em seu caso, um senso de inferioridade parece ter sido uma pedra de tropeço significativa. Ao ser chamado por Deus, Gideão protestou: “Ai, Senhor meu! Como que livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor da casa de meu pai” (Juízes 6.15 – ARA). Entretanto, Gideão não estava sozinho em lutar contra a ideia de ser chamado por Deus. Outras figuras bíblicas que também lutaram contra seus chamados foram:

  • Moisés, ao dizer: “Quem sou eu, para que vá ao Faraó…?  (Êxodo 3.11). Ele também argumentou com Deus, alegando que o povo não acreditaria nele (Êxodo 4.1) e que ele não era eloquente (Êxodo 4.10);
  • Jeremias, que sentia que era muito novo (Jeremias 1.6);
  • Sara, que pensava ser muito velha (Gênesis 18.12);
  • Isaías, que, quando o Senhor apareceu a ele, disse: “Ai de mim! Estou perdido! Pois os meus lábios são impuros e moro no meio de um povo que também tem lábios impuros…” (Isaías 6.5 – (NTLH));
  • Pedro, cuja resposta ao encontrar Jesus foi: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lucas 5.8);
  • Paulo, que disse sobre si mesmo: “Até nem mereço ser chamado de apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus” (I Coríntios 15.9 – (NTLH)).

Todos esses casos me fazem pensar na quantidade de pessoas que, por causa de uma sensação de insegurança ou inferioridade, se abstiveram de responder ao chamado de Deus para suas vidas. Todos nos sairíamos bem se tirássemos os olhos de nós mesmos e puséssemos em Deus. Talvez, esse seja o motivo pelo qual Paulo orientou o jovem Timóteo de que Deus:

“Nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”. (II Timóteo 1.9 – (ARA)).  

Quão específico deve ser um chamado?

Frequentemente, quando ouvimos a respeito do “chamado de Deus”, pensamos em algo altamente individualizado e extremamente específico (exemplo, Deus falando para Moisés ir e libertar os filhos de Israel do Egito). Enquanto eu, de todo o coração, aceito a existência de chamados específicos para tarefas específicas, é importante perceber que também existem chamados amplos, aplicáveis universalmente para todos nós. Considere:

“E vós, igualmente, estais entre os chamados para pertencerdes a Jesus Cristo. A todos os que estais em Roma, amados de Deus, convocados para serdes santos: Graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”. (Romanos 1.6-7 (King James))

“E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes igualmente justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou”. (Romanos 8.30 (King James))

“… convocados para serem santos, juntamente com todos os que, em toda parte, invocam o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso“. (I Coríntios 1.2 (King James))

“… por meio do qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor”. (I Coríntios 1.9 (King James))

“…daquele que vos chamou pela graça de Cristo…”. (Gálatas 1.6 (King James))

“Caros irmãos, fostes chamados para a liberdade”. (Gálatas 5.13 (King James))

“Porém, considerando a santidade daquele que vos convocou, tornai-vos, da mesma maneira, santos em todas as vossas atitudes”. (I Pedro 1.15 (King James))

“Porém, vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo propósito é proclamar as grandezas daquele que vos convocou das trevas para sua maravilhosa luz”. (I Pedro 2.9 (King James))

“Ora, o Deus de toda a graça, que vos convocou à sua eterna glória em Cristo Jesus…”. (I Pedro 5.10 (King James))

“…aos que foram convocados, amados por Deus, o Pai, e preservados na fé em Jesus Cristo…”. (Judas 1.1 (King James))

Somos chamados! Quer tenhamos sido chamados para sermos pregadores e estarmos atrás do púlpito ou tenhamos sido chamados para cumprir outra tarefa, esses e outros versos indicam que o chamado de todo crente é ser sal, luz, embaixador, testemunha, servo e uma benção. Isso não é somente para aqueles que possuem a “profissão” de ministros, mas todo cristão foi chamado em tempo integral!

Um cristão nunca deve falar “eu não sou chamado” como desculpa para evitar responsabilidades que são compatíveis com o chamado de todo crente. Paulo escreveu que, “sempre que pudermos, devemos fazer o bem a todos, especialmente aos que fazem parte da nossa família na fé” (Gálatas 6.10 – NTLH). Se estivermos sensíveis, o amor de Deus dentro de nós nos impelirá e motivará para agirmos mediante as oportunidades que se abrem regularmente diante de nós.  

Por falar em oportunidades, seria possível que, em algumas situações, Deus não tenha designado alguém para cumprir determinadas tarefas, mas estaria procurando por alguém, qualquer um, para respondê-Lo? Considere as palavras de Deus quando Ele afirmou: “E busquei dentre eles um homem que levantasse o muro e se pusesse na brecha perante mim por esta terra, para que eu não a destruísse; porém, a ninguém achei” (Ezequiel 22.30 – ARA). De forma semelhante, o autor de Crônicas escreveu: “seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte a favor daqueles cujo coração é perfeito para com ele” (2 Crônicas 16.9). Deus está procurando indivíduos que responderão a Ele – pessoas a quem Ele possa usar.

Quão espetacular precisa ser a forma como Deus chama alguém?

As pessoas são naturalmente fascinadas com aqueles chamados que se inclinam mais para o lado espetacular. As experiências de Moisés com a sarça ardente e de Paulo na estrada para Damascos parecem encontros divinos bem emocionantes. No entanto, eu penso ser seguro afirmar que a vasta maioria de cristãos são chamados de forma mais sutil do que alguns dos famosos personagens bíblicos. Em vez de nos sentirmos intimidados, a maioria de nós pode ser confortada na ideia de que ser chamado de forma sutil – por meio de um testemunho interior ou uma voz calma – é tão válido quanto os casos mais espetaculares. 

Quando eu era mais novo, eu ansiava por algo impressionante da parte de Deus. Entretanto, ao estudar o livro de Atos, tive uma percepção muito lúcida. Quando os indivíduos recebem seus chamados de forma espetacular, há, aparentemente, duas razões:

  • O que Deus está pedindo é algo tão fora do comum, tão fora de suas zonas de conforto, que eles nunca teriam aceitado suas missões sem uma instrução bem evidente;

  • Ou, o que eles foram chamados para fazer resultaria em tanta adversidade e perseguição que eles precisariam de um incontestável direcionamento de Deus para perseverar ao longo da tarefa.

Considerando isso, eu percebi que agir com base no que está em meu coração não é uma maneira tão ruim de viver ou servir. 

Pensamentos finais

Se você foi chamado de forma espetacular por Deus, provavelmente, você não necessita dessa informação. No entanto, se você é como a maioria dos cristãos, tenha bom ânimo em saber que você tem um grande valor e significância nos planos de Deus. Se você é como Gideão (ou Gladys Aylward ou Kathryn Kuhlman) e sente que Deus, com certeza, deveria ter escolhido outra pessoa, vá em frente e faça aquilo que Ele tem colocado em seu coração. Olhe para Ele, não para si mesmo. Se você não percebe um chamado específico, vá em frente e sirva a Deus e aos outros, aproveitando oportunidades para demonstrar o amor de Deus. Não ser chamado de forma espetacular não significa que você não possa prestar um serviço espetacular. Ame, sirva e dê de forma extravagante. O que você faz para Deus pode ser tão válido e significativo quanto o que os outros cristãos são chamados para fazer.

Finalmente, aqui estão três boas citações a serem consideradas:    

“O ‘leigo’ nunca precisa pensar na sua humilde tarefa como inferior ao do seu ministro. Que cada homem permaneça no cumprimento da tarefa ao qual foi chamado e seu trabalho será tão sagrado quanto ao trabalho ministerial. Não é o que o homem faz que determina se seu trabalho é sagrado ou secular, mas é a razão pela qual o faz. O motivo é tudo. Que o homem santifique o Senhor Deus em seu coração e, após isso, ele não fará atos comuns”

– A.W Tozer

“Todos somos sacerdotes perante a Deus. Não há essa distinção entre secular e sagrado. De fato, o oposto ao sagrado não é secular; o oposto é profano. Em suma, nenhum seguidor de Cristo exerce um trabalho secular. Todos possuímos chamados sagrados”

-Ravi Zacharias

“Se você faria o melhor com a sua vida, descubra o que Deus está fazendo em sua geração e se atire inteiramente nisso”.

– Arthur Wallis             

Fonte: Site oficial do Rev. Tony Cooke.

Traduzido por Gabriella Kashiwakura

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