Popularidade e Ira de Deus

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por Tony Cooke

Todo pregador deve responder as seguintes perguntas dentro do seu próprio coração:

“Pregarei o que a Palavra de Deus fala ou pregarei o que as pessoas querem ouvir? Pregarei para agradar a Deus ou para agradar ao homem?” Jesus fala a respeito de pessoas que “amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12.43). 

Aqueles que preferem agradar mais aos homens do que a Deus devem considerar a seguinte observação de Jesus:

“Ai de vocês, quando todos os elogiarem, pois os antepassados dessas pessoas também elogiaram os falsos profetas” (Lucas 6.26 – NTLH)

Ao falar sobre tais indivíduos, Jeremias declara:

“Os profetas profetizam falsamente… e o meu povo assim o deseja. Mas que fareis no fim disso?” (Jeremias 5.31)

Vance Havner afirma, “Popularidade matou mais profetas de Deus do que a perseguição jamais fez”. Eu acho que a isso também pode ser aplicado a busca por popularidade. Charles Finney compartilha algumas observações em seu artigo intitulado, “Como Pregar para que Ninguém se Converta”. Alguns de seus pontos incluem:   

  • Pregue sobre doutrinas que centram a atenção no homem ao invés de centrar em Jesus. Ensine as doutrinas que fazem do homem o centro da atenção de Deus ao invés dEle como o centro da nossa devoção. Fale às pessoas somente o que Deus fará por elas;

  • Evite pregar sobre a necessidade da mudança radical do coração, por meio da Verdade sendo revelada pela ação do Espírito Santo;

  • Deixe que o seu motivo supremo seja a popularidade dentre os homens; assim, sua pregação girará em torno desse propósito e não em torno do propósito de converter almas a Cristo;

  • Faça apelos às emoções e não à consciência de seus ouvintes;

  • Pregue a salvação pela graça, mas ignore a condição de condenação e perdição do pecador, de tal forma que ele nunca entenda o significado e a necessidade dessa graça;

  • Pregue Cristo como um ser infinitamente amigável e bem-humorado. Ignore contundentes repreensões aos pecadores e aos hipócritas, que, tantas vezes, fazem seus ouvintes tremerem;

  • Fale tão pouco a respeito do inferno que as pessoas pensarão que nem você acredita na existência de tal lugar[1].    

Um dos grandes evangelistas da história americana, George Whitefield, falou, “O diabo ama apresentar Deus como totalmente misericórdia ou como totalmente justiça”. Isso nos relembra que devemos apresentar o quadro completo que a Escritura pinta. 

Em João 3.16, Jesus declara, “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Entretanto, com que frequência citamos o que Jesus falou em João 3.18? Aqui, Ele declara, “Quem crê nele não é julgado, mas quem não crê, já está julgado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”.  

De igual modo, em Romanos 1.16, Paulo conhecidamente proclama, “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. Dois versos depois, no entanto, ele afirma, “A ira de Deus se revela contra toda a impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18). Toda a Escritura é importante!   

Se eu vou fielmente pregar a Palavra de Deus em sua integridade, eu devo (e tenho o prazer de) falar às pessoas que “Deus é amor”, mas eu devo falar que Ele também é fogo consumidor (Hebreus 12.29). Se eu vou fielmente pregar a Palavra de Deus em sua integridade, eu devo (e tenho prazer de) falar que Jesus é a perfeita expressão da vontade de Deus, mas também devo apresentá-Lo como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29) e Aquele que admoesta, “se não se arrependerem, todos vocês vão morrer como eles morreram” (Lucas 13.5 – NTLH).     

J.I. Packer, um respeitado teólogo, nota a relutância da igreja moderna em abordar o que a Escritura fala a respeito da ira de Deus.

O moderno hábito da igreja cristã é não tocar no assunto. Aqueles que ainda acreditam na ira de Deus falam pouco a respeito disso; talvez nem pensem muito sobre isso. Para uma era que tem, desavergonhadamente, se vendido aos deuses da ganância, do orgulho, do sexo e do ego, a igreja balbucia sobre a bondade de Deus, mas virtualmente fala nada a respeito de Seu julgamento… O fato é que o tema da ira divina se tornou um tabu na sociedade moderna, e os cristãos têm aceitado esse tabu e se condicionado a não tratar sobre o assunto[2].

Antes de Packer, Richard Niebuhr observou que os temas essenciais da fé cristã estavam sendo arrancados do cristianismo, por meio da teologia liberal. Ele resumiu (em 1937) um anêmico e neutralizado “Evangelho” nas seguintes palavras:

“Um Deus sem ira trouxe o homem sem pecado a um Reino sem julgamento, por meio de ministrações de um Cristo sem Cruz”[3].

A meu ver, Niebuhr encapsula as quatro áreas que devem ser omitidas se o ministro quiser ser popular dentre os demais. Em outras palavras, não mencione ira, pecado, julgamento e a cruz.    

Em um artigo denominado “Contra o Amor Debilitado”, o teólogo Timothy George escreve que uma grande denominação (conhecida por sua fé firmada na integridade da Palavra de Deus e na essência do Evangelho) havia considerado incluir a música “Somente em Cristo”, em um novo hinário que eles estavam produzindo. No entanto, uma referência à morte substitutiva de Cristo foi considerada problemática. George escreve, 

Eles não podiam concordar com a seguinte linha na terceira estrofe: “Na cruz em que Jesus morreu/ a ira de Deus foi satisfeita”. Eles queriam substituir tal linha por: “… Jesus morreu/ o amor de Deus foi ampliado”. Os autores dessa canção insistiram na letra original, e o Comitê, em uma votação de nove por seis, decidiu que tal canção não seria incluída.[4]

Imagine só! Um grupo está disposto a falar sobre o amor de Deus, mas não está disposto a reconhecer que, na cruz, Jesus satisfez a ira de Deus. É inegável que a Bíblia aborda sobre o amor de Deus, mas a Escritura, sem hesitação e sem reservas, também apresenta a ira de Deus.

O mundo não tem problemas se um pregador fala, “Deus é amor” (e isso é verdade – Deus é amor, conforme I João 4.8 e 16 alegremente declaram). Na verdade, o mundo pode até aplaudir tal afirmação. Entretanto, por mais fundamental, imperativo e vital que o amor de Deus seja, isso não é tudo o que o Novo Testamento ensina. Considere o seguinte:  

  • “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (João 3.36);
  • Romanos 2.5 cita o “dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”;
  • “Por estas coisas é que vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Colossenses 3.6);
  • Paulo escreve que, quando Jesus retornar, Ele virá “em chamas de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder” (II Tessalonicenses 1.8-9). 

Se as Escrituras acima não o convenceram sobre a realidade da ira de Deus, eu o encorajo a fazer um estudo da palavra “ira” no livro de Apocalipse. O Evangelho não aborda que Deus é incapaz de se irar, mas que “Misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2.13). A Boa Notícia que temos por causa de Jesus é expressa nas seguintes Escrituras:  

  • “Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Romanos 5.9);
  • “… esperando que Jesus, o Filho de Deus, a quem Deus ressuscitou, volte do céu, esse Jesus que nos salva do castigo divino que está por vir” (I Tessalonicenses 1.10 – NTLH);
  • “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tessalonicenses 5.9). 

O que devemos fazer? Nós devemos, da mesma forma que Paulo, pregar todo o conselho de Deus (Atos 20.27). Sabiamente, H.B. Charles nota que, “A verdade sem amor é brutalidade. Amor sem verdade é hipocrisia”. Keith Intrater afirma, “Pregar o fogo do inferno sem a glória do Céu é condenação. Pregar a glória do Céu sem avisar as pessoas sobre o fogo do inferno é embalá-los em um falso senso de segurança”. Devemos nos esforçar para apresentar todo o Evangelho!

Não estou sugerindo que devemos treinar diáconos para receber visitantes com “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mateus 3.7). Eu creio que as igrejas devem ser lugares amorosos, amigáveis, acolhedores e encorajadores. Entretanto, as pessoas também não devem sentar nos bancos das igrejas durante anos sem ouvir a respeito da “bondade e severidade de Deus” (Romanos 11.22, com ênfase adicionada).    

Uma vez, eu estava ensinando em uma escola bíblica em outra nação e, brevemente, abordei sobre o julgamento que caiu sobre a líder da igreja, Jezebel (Apocalipse 2.20-23), e sobre o membro não arrependido da igreja que Paulo entregou a Satanás para a destruição da carne (I Coríntios 5.1-5). Um dos estudantes estava me levando ao aeroporto e ele possuía diversos questionamentos sobre tais passagens. Eu fiquei um pouco surpreso quando ele disse, “Eu tenho frequentado consistentemente a igreja durante quinze anos e nunca ouvi sobre tais passagens da forma que foram abordadas”.      

A revista Cristianismo Hoje[5] utiliza, de forma brilhante, as seguintes palavras: “Quando você observa o mundo hoje, você percebe uma guinada em direção a uma ortodoxia feia e uma heresia atraente – uma verdade falada de forma aguda e sem amor e uma falsidade falada de forma cativante e convincente”[6]. A revista procede, então, a encorajar o que eles chamam de “Bela Ortodoxia”, que eu assumo que nada mais seja do que Paulo advogava quando falou que “conheçamos toda a verdade e a proclamemos em amor” (Efésios 4.15 – MSG).   

Em 1970, James McGready, um ministro presbiteriano, foi contra uma corrente de tendências populares de sua época. Muitos pregadores não estavam fazendo apelos para as pessoas se arrependerem e receberem Cristo, pois eles acreditavam que somente os eleitos seriam salvos. McGready, entretanto, estava determinado que sua responsabilidade era de pregar o Evangelho total e claramente, convidando as pessoas a responderem ao arrependimento e à fé. Ele declarou:  

“Ministros devem usar todos os meios para alertar e acordar os pecadores sem Cristo, embora o mundo nos despreze. Temos a obrigação de fazer isso ou, então, o sangue dos pecadores será exigido de nossas mãos – sua condenação cairá à nossa porta”.   

Não há nada de errado em ser criativo na comunicação, relevante em nossos ensinamentos, e graciosos e gentis em nosso tom. Eu considero admiráveis todos esses aspectos. Entretanto, devemos também aspirar a ser pessoas da verdade e da convicção. É importante notar que Jesus não trazia graça sem verdade ou verdade sem graça. Em vez disso, “graça e verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1.17, ênfase adicionada). As pessoas necessitam e merecem ambos.   

[1] Leia o resto de “Como Pregar para que Ninguém se Converta” (Tradução livre. O nome do texto original é “How to Preach Without Converting Anybody”) de Charles Finney em: http://www.tonycooke.org/riches-from-history/how-to-preach/

[2] J. I. Packer, Conhecendo a Deus (Tradução livre. O nome original do livro é Knowing God). Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 1973, 148-149.

[3] H. Richard Niebuhr, O Reino de Deus na América (Tradução livre. O nome original do livro é The Kingdom of God in America). New York: Harper and Row, 1937, 193.

[4] Timothy George, “Contra o Amor Debilitado” (Tradução livre. O nome original do artigo é “No Squishy Love”) First Things, July 29, 2013. https://www.firstthings.com/web-exclusives/2013/07/no-squishy-love.

[5] Cristianismo Hoje é uma tradução livre. O nome original da revista é Christianity Today.

[6]“Bela Ortodoxia” (Tradução livre. O nome original do artigo é “Beautiful Orthodoxy”). Christianity Today, accessed May 17, 2018. https://www.christianitytoday.org/who-we-are/beautiful-orthodoxy/.

 

 

Traduzido por Gabriella Kashiwakura

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