A graça é contrária à santificação?

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por Paulo Pimenta (Montes Claros-MG)
*Pastor da Igreja Verbo da Vida

Infelizmente, a maioria dos cristãos tem um entendimento equivocado ou incompleto sobre o significado da graça. Por causa dessa percepção errada, acabam anulando ou diminuindo drasticamente os efeitos maravilhosos da graça do Senhor na vida de seus filhos!

Até conseguimos compreender que é somente a graça que nos salva. Conseguimos entender que é pelo sacrifício de Jesus que conseguimos o “bilhete” de entrada pra vida eterna, que é por causa disso e somente disso que podemos nos tornar filhos de Deus.

O problema é que a maioria das pessoas entende a graça apenas como esse bilhete para a salvação. É como se a graça nos garantisse a salvação, mas a partir do momento que somos salvos, estamos debaixo de um regime legalista. Somos salvos, e agora precisamos urgentemente obedecer, o mais rápido possível, o máximo possível de regras, como o que comer e beber, o que vestir, como se comportar, o que falar, o que pensar e como agir em todas as situações do dia-a-dia. Talvez, as pessoas deem alguns meses de tolerância para o novo convertido, mas logo começam a chegar cobranças de ajustes de condutas.

É como se a graça fosse uma linda e sorridente recepcionista, que o leva até uma porta bonita e bem trabalhada do lado de fora, mas, uma vez que você passa pela porta, ela se fecha nas suas costas e um mundo espinhoso, desconhecido e difícil, está a sua frente. Muitos pastores e pregadores deixam a graça de fora do caminho da santificação, querendo conduzir o novo convertido a Cristo por um caminho que NUNCA levou ninguém a lugar nenhum!

Entendam, eu NÃO ESTOU dizendo que não deve existir um caminho de santificação. Eu NÃO ESTOU dizendo que não devam existir ajustes de condutas. O que eu ESTOU DIZENDO é que a santificação (ou esses ajustes) são feitos lado a lado com a mesma bela recepcionista – a graça – que nos conduziu até a porta da salvação!

“Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Romanos 5.17).

“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tito 2.11-13).

Veja que é por meio da graça que podemos reinar em vida (reinar sobre o pecado, no contexto de Romanos 5). É pela graça que somos ensinados a renunciar o nosso antigo estilo de vida!

A graça NÃO é uma licença para continuar vivendo no pecado. Pelo contrário, é a habilidade divina para vencer o pecado!

É claro que você pode até conhecer esses textos e esses conceitos. Mas, na prática, normalmente, não agimos de forma graciosa com os que erram. O que acontece é que, quando alguém erra, o povo julga e condena. Ainda alegando que “Fulano diz que é crente, mas faz isso e aquilo!” Queridos, a característica principal do crente, antes da santidade, é o ARREPENDIMENTO! Quando estamos arrependidos, já sabemos que nossos erros são erros! Mas, é somente quando temos a consciência que somos sempre (e gostaria de enfatizar: SEMPRE) perdoados é que conseguimos nos erguer e continuar a nossa caminhada de santificação!

Quando uma igreja ou uma comunidade tem por hábito julgar e condenar atos, ser legalistas e rígidos com o pecado (o que pode dar uma aparência errada sobre santidade), a tendência é que essa igreja não produza verdadeiros santos, mas pessoas com aparência de santidade.

Veja o quão grave é isso! Quando a aparência de santidade é colocada como um grande valor, o novo convertido vai procurar, primeiramente, limpar antes o “exterior do copo e do prato” e logo essa aparência de santidade, legalista, vai se tornar o suficiente pra ele! Essa busca legalista pela santidade só conseguiu produzir pessoas com o espírito deturpado, como os fariseus. Pessoas que valorizam as obras e desvalorizam a graça! Entendam, as obras são sim importantes, porém as verdadeiras obras só são construídas por meio da Graça!

Perceba que não é à toa que nos ambientes mais legalistas acontecem mais escândalos com ministros do evangelho. Eles acabam “chegando lá” exercitando a aparência, encobrindo os erros ao invés de trata-los por meio da graça.

E como conduzir o povo por meio da graça? Criando, na igreja, um espírito misericordioso e perdoador, como é o de Jesus. Se alguém ao seu lado cair, compreenda, exerça empatia, ajude-o a levantar, perdoe! Perdoe sempre, perdoe milhões de vezes. Torça para que os ministros que erraram se recuperem e se levantem! E quando se levantarem, não fique desprestigiando e desonrando ninguém porque aquele ministro cometeu um erro no passado. Veja, a graça sempre perdoa e acredita! Paulo foi perdoado, Marcos cometeu um grave erro já sendo crente e foi perdoado. Por que temos tanta dificuldade, às vezes, de espalhar a mesma misericórdia?

Você pode dizer que esse pensamento meu é perigoso. Que pode levar as pessoas à dissolução. Que se as pessoas pensarem que são perdoadas de tudo e que vão continuar sendo perdoadas, vão querer permanecer em seus pecados. Ok, eu entendo essa preocupação! Embora eu me preocupe um pouco com quem pensa assim, afinal de contas, se você só não peca por medo, será que você realmente se arrependeu? Será que você realmente alcançou a salvação por meio da Graça?

É importante compreendermos o seguinte: a igreja é um grupo de pessoas que se ajuntaram porque se ARREPENDERAM de seus pecados. Portanto, nós JÁ SOMOS ARREPENDIDOS! Se somos arrependidos, pecamos por fragilidade e não porque queremos! Se somos arrependidos, jamais vamos querer usar a graça para pecar mais, pois o arrependimento pressupõe que não gostamos de pecar, por mais que o pecado possa ser saboroso ou tentador, conhecemos que não devemos andar nessas práticas.

MESMO ASSIM é possível que alguém queira “voltar ao vômito” ou a nadar na lama, como disseram Pedro e Paulo, respectivamente. Nesse caso, não há nada que possamos fazer. A própria Palavra prevê que é possível alguém que foi restaurado querer voltar às velhas práticas – e lidar com suas gradativas e terríveis consequências! Entretanto, isso não pode alterar a nossa pregação! Veja o que Paulo diz aos Gálatas:

“Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós ou um anjo do céu pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado! Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja amaldiçoado!” (Gálatas 1.6-9).

Nós não temos autorização para pregar nada diferente do Evangelho da Graça. As pessoas vão ouvir e agir como quiserem, mas nós temos a obrigação de pregar e obedecer fielmente ao que a Palavra ensina. Ensinemos, então, e conduzamos o povo à santidade através do perdão, da misericórdia. Através da graça!

 

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