O poder da honra e da desonra

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cidCid Henrique

Pastor da Igreja em Caruaru-PE

Estamos vivendo em uma época em que a ênfase no Ocidente sobre liberdade e individualidade, vinda em grande parte da cultura norte-americana, tem causado uma desvalorização de algumas outras virtudes, entre as quais a capacidade de honrar tradições, instituições e pessoas, mais notável nas culturas asiáticas.

O protestantismo, com sua ênfase em convicção pessoal, discorda veemente com o que é percebido como erro e prática de confrontação segundo o modelo nobre e heróico dos profetas bíblicos, também contribuiu para essa tendência. Expressar conformidade ou atribuir honra ganharam conotação de fraqueza. Com isso, tem havido um enfraquecimento, sem precedentes, de instituições como a família, a Igreja e a escola desde a metade do século passado.

Não estou negando que existam momentos em que precisemos confrontar determinada situação ou pessoa. Porém, existem muitíssimos de nós que, pensando ser filhos espirituais dos profetas do Antigo Testamento, são simplesmente críticos e confrontadores por natureza. Deus nos chama para honrarmos e respeitarmos as pessoas, até mesmo quando discordamos delas.

Considere a seguinte admoestação feita por Pedro:

Tratai a todos com honra, amai aos irmãos, temei a Deus, honrai ao rei. Servos, sede submissos, com todo o temor, aos vossos senhores… (1 Pe 2.17,18).

A Ordem de Deus:

Há algo dentro de nós que se rebela contra a idéia de honrar as pessoas. Dizemos, muitas vezes com ar de “espirituais”, que honraremos apenas Deus. Sentimos que é nosso dever manter os outros humildes a fim de que o orgulho não os domine. Na realidade, é o nosso orgulho que nos domina, alimentado pela inveja que sentimos do sucesso dos outros.

Veja o que nos diz a Palavra de Deus: no corpo de Cristo, devemos honrar a cada membro, dando aos que parecem mais fracos, aos menos dignos, aos que não são decorosos honra mais abundante (1 Co 12.23,24). Além de honrar a todos os homens, devemos honrar o rei, ou as autoridades seculares (1 Pe 2.17); devemos honrar os presbíteros ou aqueles que governam a igreja (1 Tm 5.17); no trabalho, devemos honrar e respeitar nossos empregadores (1 Tm 6.1). Também devemos honrar as viúvas (1 Tm 5.3), o cônjuge (1 Pe 3.7; Ef 5.33) e os idosos (Lv 19.32). Na verdade, quando o ancião entra na sala, deveríamos parar de conversar, ficar em pé e reconhecer com reverência a entrada do indivíduo mais velho. Quando foi a última vez que você viu algo assim?

O próprio Senhor concede honra às pessoas. João 12.26 diz: “Se alguém me serve, siga-me (…), e o Pai o honrará” (veja também Sl 91.14,15). Assim, se o Senhor não tem dificuldade em honrar as pessoas, considerando sua grandiosa glória, por que somos tão aptos a desonrá-las?

Em grego, a palavra honra significa “fixar valor, estimar e reverenciar”. Imagine um lar onde os filhos reverenciam os pais, e o marido e a esposa se honram. Devemo-nos estimar e atribuir valor uns aos outros, pois a honra cria uma proteção espiritual contra os ataques do inimigo, os quais, de outro modo, danificariam a qualidade de nossa vida.

Além do mais, a honra libera o poder de Deus, ao passo que a desonra o impede grandemente. Jesus ensinou: “Não há profeta sem honra senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles” (Mt 13.57,58). As pessoas da terra natal de Jesus não o honraram, e Jesus chamou sua falta de honra de “incredulidade”. A forma crítica e desonrosa com que os conterrâneos de Jesus o viam desabilitou-lhes a capacidade de receber os dons que Deus queria que recebessem através dele. Em outras palavras, quando desonramos um homem ou uma mulher de Deus, impedimos que o poder de Deus aja por intermédio deles.

“Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne…” (2 Co 5.16). Embora sejamos novas criaturas em Cristo, nosso problema é que só reconhecemos um ao outro segundo a carne. Alguém precisa morrer antes que possamos reconhecê-lo segundo o espírito; temos familiaridade demais um com o outro no nível errado. Precisamos quebrar as limitações que a carnalidade e o ciúme colocaram nas nossas percepções: Cristo habita na pessoa que está ao nosso lado.

Um dos maiores empecilhos para o reconhecimento de Cristo nas pessoas são as suas falhas. Entretanto, nossas falhas passadas não são limitação para Deus. João Marcos abandonou Paulo e Barnabé, mas Barnabé viu o potencial de Cristo nele e o honrou, não pelo que tinha feito, mas pelo que poderia ser – pelo seu destino. E que destino este Marcos, autor do segundo evangelho, no fim, pôde alcançar!

As Conseqüências da Honra e da Desonra:

Paulo nos lembra do quarto mandamento ao escrever: “Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra” (Ef 6.2,3). Em outras palavras, se habitualmente desonrarmos nossos pais ou aqueles que estão em autoridade sobre nós, acontecerá o contrário e teremos grandes problemas.

Honrar alguém não nos diminui, apenas eleva a outra pessoa. Não é um ato de temor, mas de humildade. Paulo escreve: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas”(Rm 13.1). Todas as autoridades constituídas representam a resposta de Deus para o caos e a anarquia.

Sabemos que há ocasiões em que os homens abusam de sua autoridade oficial e resistem à vontade de Deus. Nesses casos, devemos obedecer à autoridade superior do Senhor, que está acima da autoridade institucional. Mas isso é somente quando somos ordenados por um governante, empregador ou até autoridade na igreja a desobedecer diretamente à Palavra de Deus ou renunciar à verdade. Contudo, mesmo neste contexto, não devemos desonrar os que estão em autoridade a fim de obedecer a uma autoridade superior. Não precisamos ter uma atitude rebelde em relação às pessoas a fim de ter uma atitude obediente para com Deus.

O grande exemplo bíblico desse princípio encontra-se na história de Noé, em Gênesis 9.20-27, na ocasião em que se embriagou depois do dilúvio e ficou despido dentro da tenda. Seu filho, Cão, entrou na tenda, viu a nudez do pai e revelou o fato aos seus irmãos. Os outros dois filhos (Sem e Jafé), porém, tomaram uma capa, entraram na tenda de costas e cobriram a nudez do pai. Por causa desse fato, os dois foram abençoados enquanto Cão foi amaldiçoado.

Para nos abrirmos às bênçãos de Deus, precisamos aprender a submeter-nos aos líderes que são imperfeitos sem desonrá-los. O grande fato é que não há líderes perfeitos. Seu chefe, pastor, professor, prefeito e até seu pai e sua mãe são imperfeitos. Quando os expomos à humilhação ou à desonra ao revelar para os outros as suas fraquezas, trazemos uma maldição sobre nós. Nunca progrediremos na vida com tal atitude.

Você diz: “Se eu me submeter, vou me sentir hipócrita, alguém que só sabe dizer sim. Se eu vejo algo errado numa pessoa, vou advertir os outros a respeito”. Tome cuidado. O que você chama de coragem para “falar a verdade” pode, na verdade, ser uma atitude enganosa de rebeldia e desonra. Pode ser uma forma de camuflar nossa justiça própria, orgulho e incapacidade de honrar os outros.

Isso não significa que você não deva se preocupar quando percebe que há um problema. É possível que você tenha um conselho ou até uma palavra de Deus para ajudar seu líder. Porém, não abra a porta para a desonra, principalmente na igreja. Se está enxergando um problema, não siga o exemplo de Cão! Não vá contar aos outros, mas cubra a situação em amor. Siga o procedimento que Jesus nos ensinou em Mateus 18, permanecendo respeitoso e humilde enquanto procura pôr um fim ao pecado na vida daquela pessoa.

Até que vejamos a esperança e a dignidade de Cristo dentro de cada pessoa, nunca quebraremos a maldição que a desonra tem causado às nossas almas. Precisamos aprender a não enterrar as pessoas nos seus fracassos. Cristo permanece sempre presente, sempre disposto a restaurar e liberar seu poder, até nos seus vasos caídos e feridos. Para isso, precisamos cooperar, perdoando e aceitando a obra de Deus neles. No sentido mais verdadeiro, é o Espírito de Cristo e o seu potencial que merecem ser reconhecidos e honrados em cada um, até naqueles que ainda não o conhecem.

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