Em entrevista, Adelai Quefar, de Brasília (DF) fala sobre evangelismo nas prisões

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Adelai Quefar é casada com Roberto Miranda, há 25 anos, e mãe de Esdras e Izabele, de 22 e 18 anos, respectivamente, além de outros filhos do “coração” como Vitória. Ela também é líder de diversos projetos sociais em Brasília (DF) e diretora do Rhema em uma Unidade Prisional da capital federal. Confira, a seguir, a entrevista concedida ao Portal:

PORTAL – Adelai, a partir de quando você sentiu a direção para trabalhar com mulheres em condições de vulnerabilidade?

ADELAI – Foi quando comecei a trabalhar em um discipulado dentro de uma escola e, na verdade, eu comecei com as crianças. Através das crianças conheci uma parente de uma das professoras e a partir daí comecei a trabalhar com grupo de mulheres, algumas viviam na prostituição e nas drogas. Algumas viviam na homossexualidade também. E eu comecei a trazer a Palavra para esse pequeno grupo.

Chegou o momento em que conseguimos um apartamento para nos reunir e nesse dia tínhamos que comprar alguns materiais de limpeza. Então, as mulheres me chamaram para comprar algumas coisas num lugar que, segundo elas, era bem barato e disseram que era a Rua da Alegria. No meu pensamento, a Rua da Alegria tinha festas, balada, era algo voltado para diversão. Só que a alegria era outra, aquela era a rua da prostituição. Enquanto eu comprava os baldes, as coisas, elas iam me mostrando os pontos de prostituição, vi ali meninas jovens, bonitas e ali me veio algo forte: isso aqui não é Rua da Alegria, é rua da salvação. Este lugar será salvo pelo Senhor. Onze anos se passaram dessa história e são 11 anos de trabalho intenso de evangelismo e discipulado naquele lugar. Tenho acesso a casas lá, faço cultos nessa rua e falo de Jesus o tempo todo. Eu tenho visto a mão do Senhor naquele lugar. 

PORTAL – Você tem um trabalho de evangelismo nas prisões há muitos anos. Como surgiu isso? 

ADELAI – Tudo começou por causa de uma macumba (risos). Uma agente penitenciária me ligou, falando que uma irmã dela tinha visto uma macumba na frente da casa dela. E ela me falou: “Pastora, você precisa ir ver o que está acontecendo e falar com a minha irmã”, e naquela conversa coisas foram tiradas e quebradas e pedi para que ela fosse na igreja para orarmos juntas e para ela entender que era necessário ela ter a vida com o Senhor.

Lembro que o Senhor me falou por dentro: “As duas são agentes penitenciárias”, e nessa conversa ela me esclareceu o rigor e protocolo da cadeia, que não é permitida a entrada de pessoas facilmente. Ela me trouxe as instruções e eu falei: “Sim, mas se for algo que o Senhor está direcionando a fazer lá? Trazer uma Palavra de Deus…”, e ela disse que estavam precisando muito e foi ver com a direção da unidade prisional. Então, comecei o trabalho de evangelismo, e já se passaram 8 anos de muitas histórias e experiências com Deus naquele lugar.

PORTAL – Você ministrou no treinamento para diretores do Rhema, em Campina Grande, sobre relacionamento com autoridade, por que a escolha desse tema? 

ADELAI – Desde o início, sempre priorizei o princípio de submissão e autoridade. Eu sabia que só podia estar naquela unidade prisional se alguém da direção me liberasse. Ao longo dos 8 anos de atividades ali, sempre tive e tenho boa relação com as diretores que já passaram por ali. Sempre tive a certeza que estou ali para servir a essas pessoas. Sempre trazendo a elas a confiabilidade para que vissem em mim não “a crente que vai colocar a igreja lá dentro”, não, até porque quando comecei ninguém sabia de qual igreja eu faço parte. E durante todos esses anos, tenho trazido o Evangelho e não uma denominação. Vejo em todas as direções a certeza de que elas me olham assim: “Essa mulher, podemos contar com ela…”, a ponto de quando começam os motins e conflitos, elas me ligam. Existe respeito pelo meu trabalho e quando precisam, me ligam: “Pastora, a senhora pode vir aqui?…”.

Conquistar o respeito ali dentro não é algo fácil, pois a resistência à Palavra é tão grande! Quantas vezes, já cheguei ali e percebi a presença maligna influenciando inclusive em agentes, mas, em amor, eu vou vencendo cada obstáculo. Eu sempre busco manter essa segurança. Elas sabem quem eu sou e porque estou lá. Meu trabalho é aliviar a carga delas. Quando se termina uma oração ali, a expressão deles é sempre de alívio. E eu aproveito, pego esse gancho e falo: “Vocês perceberam a diferença agora? Isso é a presença do Senhor”. Deixo claro que estou ali pelas internas, mas que também oro pelas agentes e diretora. A pressão para elas é grande. 

PORTAL – Qual a importância desse tema para os diretores?

ADELAI O que falei no treinamento foi o que tenho vivido. Comecei falando uma frase que ouvi do ap. Guto Emery: “A disponibilidade do coração abre portas!”. O nosso trabalho é um trabalho esforçado, mas não é difícil. Como disse também Jannayna Albuquerque: não adianta você maratonar uma série no dia anterior e ir para a unidade prisional com a “cara lavada”, de peito aberto para um prisional. Não sei se me entende. Existe um trabalho espiritual grande antes.

Falo de uma vida com Deus. Uma consciência de onde você está indo. A gente entra em serpentários. E quando entramos, temos que estar preparados, sabendo o que precisamos fazer, até mesmo, com que roupa é preciso estar para entrar ali. Com as autoridades, eu percebo que meu trabalho, durante esses anos, ecoou e chegou até eles. Simplesmente  a disponibilidade de um coração.

Minhas ações ali no presídio foram repercutindo. Eles viram a identidade de um trabalho de amor. Um diretor do Rhema na unidade prisional precisa fazer as coisas com diligência diante de “Cesar” e de Deus. É agir corretamente diante de Deus e dos homens, estamos na terra, mas vivemos em Cristo. Quando somos reconhecidos pelo que fazemos, devemos ovacionar não como nosso, mas o trabalho é para a glória de Deus! Vamos fazer o nosso trabalho em amor e eles vão reconhecer isso. Ao longo desses anos, eles viram o resultado do nosso trabalho.

PORTAL – Você falou sobre ser chamada para mediar conflitos. Sobre essa experiência na Unidade Prisional, poderia citar um fato?

ADELAI –  Tenho uma experiência bem forte que aconteceu recentemente. Foi algo com um transexual que estava preso lá. Ele já tinha tentado suicídio várias vezes e ele estava no isolamento. E até mesmo lá, no isolado, ele já tinha tentado algumas vezes tirar a própria vida. Fui chamada pela diretora e ela falou: “Se essa mulher der jeito nessa situação, eu vou virar crente…” Essa frase para mim foi o máximo (risos).

Claro, eu entendi o desespero da mulher, da profissional, mas também de uma alma clamando: “Me ajuda, eu não sei o que fazer. Já fiz os devidos castigos, mas está além do meu alcance… eu não consigo” e, ao entrarem em contato comigo eu fui até lá sabendo que era uma situação de alguém com a alma completamente comprometida que estava passando por conflitos. E uma compaixão veio tão forte ao meu coração naquele momento! Cheguei lá, ele estava naquele isolamento, e ali a gente percebe a pressão espiritual.

Vi aquele rosto numa pequena janelinha. Primeiro, quando ele me viu, recuou, não me encarou, mas eu comecei a levar a Palavra de Deus para ele. Fui falando e orando no espírito, falei: “Eu vim aqui trazer algo para você. Talvez você nunca imaginou que eu viesse aqui nessa situação e nesse horário falar essas coisas”. Ali o Senhor foi me trazendo palavras de conhecimento, os segredos do coração dele. Ele já tinha estado no caminho e havia se afastado dele. Ali ele foi desarmando e o semblante dele mudou. Vi a opressão maligna ir se desfazendo diante de mim. Ele, então, levantou as mãos para o céu e falou: “Meu Deus, muito obrigado! Quanto tempo que eu não sentia esse alívio…”

Naquele momento, percebi aquela pessoa cativa que Satanás estava mantendo há muito tempo. Quando estava conversando com ele após a oração, ele tirou pedaços da sua roupa que tinha rasgado para simular uma corda e um pequeno pedaço de caco de vidro, ele iria tirar a sua vida ali naquele dia. Seu corpo mostrava as marcas das tentativas de suicídio. Ele me falou: “Não ia passar de hoje, eu ia tirar aminha vida. Ia sair desta terra, pois não aguentava mais…”. Ali ele entregou a corda e o caco de vidro. Oramos, ele cantou um louvor da época que era da igreja. Ali houve a confissão a Jesus e a reconciliação de fato dele com o Senhor. Essa foi uma experiência sobrenatural. Ele saiu do isolamento.

PORTAL – Você recebeu recentemente a visita da 1ª dama do Brasil, Michelle Bolsonaro, na sua ONG na capital federal. O que representou esse momento?

ADELAI – Receber a Michelle na ONG foi algo sobrenatural, porque estava além do cotidiano natural. E realmente, eu não esperava. Mas o Senhor promoveu esse encontro.

O nosso trabalho foi ecoando, indo, repercutindo e chegou aos ouvidos dela. Como ela tem uma veia muito forte para os trabalhos sociais, desejou nos conhecer.

Ela ficou maravilhada porque nós não temos ajudas governamentais. Temos o Senhor, o nosso provedor. Quando a vi, o Senhor me trouxe palavras específicas para a vida dela. Era para ela estar lá por cerca de 45 minutos, de acordo com o protocolo. O seguranças foram lá um dia antes e também horas antes dela chegar e me falaram a mesma coisa com respeito ao protocolo. Reforçou que seriam só 45 minutos de visita, por causa da agenda dela e me orientaram a ser pontual e especifica.

Eu entendi os protocolos e ela chegou, e foi ficando, foi ficando, e ficou conosco 4 horas. Abriu o coração! Ela é uma mulher de Deus e vejo que para esse tempo, era para ela estar ali, ela não abre mão do apoio às pessoas, não importa se está nos palácios ou nos vilarejos. Só o Senhor podia fazer essas coisas. Cada lugar que eu entro, estou ali por amor, independentemente, de qualquer coisa. Eu trabalho no anonimato, não tenho redes sociais, meu trabalho é resgatar pessoas e quanto menos eu for vista, melhor. Eu preciso me reservar ao anonimato, lido com crianças abusadas e, muitas vezes, já fui ameaçada de morte por pedófilos. Ninguém imagina os lugares que entro e se não for o Senhor para guardar nem sei como faria tudo o que faço. Cada dia é um dia de vitória para mim. 

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