Missões e o público “barulhento”

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por Bárbara Araújo 

É comum nos depararmos em diversas esferas da sociedade com discursos que rotulam as crianças de “barulhentas”, agitadas e muito trabalhosas. Sem contar as vezes que desejamos que elas reproduzam comportamentos cheios de maturidade, querendo que elas sejam “mini-adultos”, desconsiderando o fato de que são simplesmente crianças e tais comportamentos são relevantes.

Dentro do cenário de propagar o Evangelho em um contexto missionário, podemos incorrer no erro de acharmos que apenas os adultos são as criaturas que precisam ser alcançadas, que devem nos ouvir, esquecendo que a incumbência dada por Jesus foi: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a ‘toda criatura’” (Marcos 16.15Almeida Corrigida e Fiel), as crianças entram no contexto de “toda a criatura” também.

Um episódio no ministério de Jesus esclarece muito bem a diferença entre dois públicos ouvintes, os adultos e as crianças, que está registrado em Marcos 10.13-19 (Almeida Revista e Corrigida):

“E traziam-lhe  crianças para que lhe tocasse, mas os discípulos repreendiam aos que lhes traziam. Jesus porém, vendo isso, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir os pequeninos a mim e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus. Em verdade vos digo que qualquer que não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma, entrará nele. E, tomando-as nos seus braços e impondo-lhe as mãos, as abençoou.” 

Nesse episódio, observamos que o primeiro público a cercar Jesus naquele momento era silencioso e comportado e, procurou não perder nenhum detalhe dos ensinamentos do Mestre. De repente, o quadro muda e uma agitação toma conta do lugar, era outro público chegando com as mães, este era: barulhento, curioso e falador. Que contraste! Mas também estava desejoso de ser tocado e amado por Aquele que os transformariam de fracos e indefesos em vozes de liberdade e força para uma geração que seria levantada por Aquele que tem o poder de mudar destinos e encher puros corações de grandes e nobres sonhos. (Fragmentos do Livro: “Evangelização e Discipulado Infantil”)

Tal panorama mudou? Não! Ainda hoje esses ouvintes sinceros e barulhentos fazem parte das igrejas, das periferias, das casas luxuosas, dos barracos de madeira, das ruas asfaltadas e das ruas de chão batido. Alguns deles com tênis de marca, outros com os pés descalços jogando bola em campos sem nenhuma grama, às vezes com apenas uma refeição por dia, ou simplesmente os que dormem para não sentir a fome, que se torna tão comum em seu dia a dia.

Quantas vezes nos pegamos reproduzindo o comportamento dos discípulos, rotulando que apenas os adultos estão no cenário de urgência de serem alcançados? Existem milhares de “vozes sem defesa”, que vivem a triste experiência de serem abusadas sexualmente, rejeitadas pelos seus pais e abandonadas em orfanatos, outras que sofrem violência doméstica, são tantos contextos de vulnerabilidade social, gritos silenciados pela violência e dor, que por muitas vezes não podem viver uma infância livre, marcada por boas memórias.

Uma causa humanitária, um grito que transcende a esfera da religião, uma causa que precisa ser abraçada por todos nós que nos rotulamos por missionários que irão por todo mundo levar boas notícias. Reproduzir o comportamento dos discípulos de que não perturbem o mestre se torna inviável. Um Mestre que era tão cheio de acessibilidade e amor que nos constrange. É chegado o tempo que precisamos derrubar “os paradigmas burocráticos” de proclamar as boas notícias ao público infantil, um público cheio de grandes expectativas em conhecer o Mestre Jesus que abraçou e abençoou as crianças barulhentas de sua época.

 

Bárbara Araújo
* Graduada na Escola de Missões Rhema

 

 

 

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