A anatomia de um tumulto

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por Tony Cooke

Duas emoções – medo e raiva – correram desenfreadas nos Estados Unidos, durante as recentes eleições presidenciais, atingindo um nível febril. Para alguns, o medo se transformou em pânico, e a raiva se transformou em fúria. Muitos pareceram querer agarrar a gola uns dos outros, e as palavras de alguns exalavam veneno. Testemunhamos meses de tumultos em muitas cidades durante o verão, e o ódio expresso na capital do país trouxe mais angústia e agitação para a população.

O objetivo deste artigo não é tanto analisar os recentes acontecimentos nos Estados Unidos, mas tentar obter algumas lições do que aconteceu por volta de dois mil anos atrás na antiga Éfeso. Talvez as percepções que ganhamos com o que eles vivenciaram nos ajudem a compreender e navegar com mais eficácia pelo momento atual. Não estou dizendo que ambos acontecimentos contêm paralelos exatos; certamente, existem dinâmicas diferentes nos dois cenários respectivos.

Nosso cenário, trata-se da antiga Éfeso na Ásia Menor (atual Turquia) por volta de 56 DC. O ministério de Paulo trouxe mudanças drásticas para esta cidade e região, e inúmeras pessoas nasceram de novo. Tão grande foi o impacto do Evangelho que a viabilidade financeira de uma indústria massiva e idólatra foi ameaçada.

“Por essa altura, houve um grande tumulto em Éfeso, por causa dos que andavam no caminho do Senhor. 24 Começou com Demétrio, um ourives de prata que fazia templos de prata para Ártemis que fazia e proporcionava aos artesãos um nada pequeno rendimento. 25 Reunindo esses trabalhadores e outros que se ocupavam em ofícios semelhantes, dirigiu-lhes as seguintes palavras: “Companheiros, este trabalho é a fonte dos nossos proventos. 26 Como bem sabem, pelo que já viram e ouviram, este homem, Paulo, tem convencido inúmeras pessoas que os deuses feitos por mãos humanas não são deuses. Isto está a tornar-se evidente não só aqui em Éfeso, mas também em toda a província. 27 É claro que não me preocupo apenas com o descrédito da nossa atividade, mas penso também no perigo do templo da grande Ártemis perder a sua influência e a deusa magnífica, adorada não só nesta parte da província da Ásia como também no mundo inteiro, cair no esquecimento” (Atos 19.23-27 -NTLH).

Foi nessa ocasião que houve, na cidade de Éfeso, uma grande desordem por causa do Caminho do Senhor. Um ourives chamado Demétrio fazia pequenos modelos de prata do templo da deusa Diana, e o seu negócio dava muito lucro aos que trabalhavam com ele. Então ele chamou estes e outros da mesma profissão e disse: “Meus amigos, vocês sabem que a nossa riqueza vem deste nosso ofício. Vocês mesmos podem ver e ouvir o que esse tal de Paulo está fazendo. Ele afirma que os deuses feitos por mãos humanas não são deuses de verdade. E está conseguindo convencer muita gente, tanto daqui como de quase toda a província da Ásia. Assim nós estamos correndo o perigo de ver o povo rejeitar o nosso negócio. E não é só isso. Existe o perigo de o templo da grande deusa Diana não ficar valendo mais nada e também de ser destruída a grandeza dessa deusa adorada por todos na Ásia e no mundo inteiro”.    

Demétrio – o Líder
Se você observar o que destaquei no texto, verá que Demétrio estava preocupado com quatro coisas:
Riqueza (v. 25)
Respeito (v. 27)
Influência (v. 27)
Prestígio (v. 27)

A sinceridade da preocupação de Demétrio por Diana é questionável. Em outras palavras, até que ponto ele estava preocupado com a reputação de Diana e com ele mesmo? Nessa história em particular, Demétrio provocou um tumulto porque tinha medo de perder riqueza e poder, mas quantos motins e revoluções foram alimentados por aqueles que não tinham, mas usaram o caos e o ódio na tentativa de obtê-los. Benjamin Franklin disse: “Duas paixões têm uma influência poderosa nos assuntos dos homens: o amor ao poder e o amor ao dinheiro”.

“E, ouvindo-o, encheram-se de ira, e clamaram, dizendo: Grande é a Diana dos efésios” Atos 19.28 (NTLH).

Quando a multidão ouviu isso, ficou furiosa e começou a gritar: “Viva a grande Diana de Éfeso!”.

O Núcleo

A essa altura, Demétrio estava simplesmente conversando com seus próprios funcionários e com aqueles que exerciam negócios semelhantes. A versão ARA diz: “…encheram-se de furor e clamavam”. Esta palavra realmente se refere à ira, ou à raiva violenta. Por que furor? Demétrio os encheu de medo a respeito do que eles poderiam perder. Lembre-se de que isso pode ocorrer nos dois sentidos: as pessoas podem estar emocionalmente alteradas por causa do que temem perder ou podem ficar ressentidas com o que não têm, mas desejam desesperadamente.

“E encheu-se de confusão toda a cidade e, unânimes, correram ao teatro, arrebatando a Gaio e a Aristarco, macedônios, companheiros de Paulo na viagem.
Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado.
E, tendo dito isto, despediu a assembleia” (Atos 19.29, 32 – NTLH).

E a confusão se espalhou por toda a cidade. A multidão agarrou Gaio e Aristarco, dois macedônios que viajavam com Paulo, e os arrastou até o teatro. Naquela altura dos acontecimentos a multidão que se achava no teatro estava em completa desordem: uns gritavam uma coisa, e outros gritavam outra, pois a maioria nem sabia por que estava ali. 

A Multidão e os Espectadores Inocentes

Lembre-se, havia um instigador primário (Demétrio) e seu núcleo (seus funcionários e aqueles de ocupações semelhantes), mas agora vemos isso afetando toda a cidade. O efeito? Confusão! Essa confusão ou tumulto resultou em uma multidão frenética que estava fora de controle. O que eu acho mais fascinante é que Lucas observa que “a maioria nem sabia por que estava ali”.

Eu me pergunto o quão comum isso é hoje? Quantas pessoas entram em um frenesi porque outra pessoa está chateada? Talvez alguns tenham seus próprios medos, raiva e inseguranças subjacentes, mas só agem quando outra pessoa o faz. Em sua confusão, eles são impulsionados a replicar o comportamento de outras pessoas.

E não vamos esquecer Gaio e Aristarco, companheiros de viagem de Paulo. Refiro-me a eles como espectadores inocentes porque as Escrituras dizem que foram arrastados para o teatro. Simplesmente porque eram associados a Paulo, eles se tornaram alvos e provavelmente se sentiram extremamente ameaçados.

“E, querendo Paulo apresentar-se ao povo, não lho permitiram os discípulos.
E também alguns dos principais da Ásia, que eram seus amigos, lhe rogaram que não se apresentasse no teatro” (Atos 19.30-31 -NTLH).

Paulo queria falar ao povo, mas os irmãos não deixaram. Alguns altos funcionários daquela província, que eram amigos de Paulo, mandaram um recado a ele, pedindo que não fosse ao teatro.

Paulo

Acho isso absolutamente fascinante. Paulo queria entrar no teatro. É difícil imaginar o nível de fé e de coragem que ele devia ter para querer ir e se dirigir a mais de 20 mil pessoas (sim, este era um teatro enorme) que estavam fora de controle. Os crentes não permitiram que ele entrasse, e altos funcionários do governo (amigos de Paulo) imploraram para que ele não entrasse. Acho que eles perceberam que Paulo teria morrido se tivesse entrado e tentado se dirigir à multidão.

Aqui está uma lição vital do papel de Paulo nisso: você não precisa comparecer a todos os tumultos para os quais é convidado. Paulo deixou Éfeso depois disso – ele reconheceu que havia se tornado um para-raios, e que sua presença provavelmente criaria mais problemas para a igreja. Mais tarde, Paulo se referiu a ter lutado com feras em Éfeso (1 Coríntios 15:32). Se Paulo estava falando literal ou figurativamente, eu não sei, mas isso nos lembra que vivemos em um mundo onde por vezes há muita maldade e ódio.

Então, o que aprendemos?

  • Esta história em Atos 19 (e ao longo de toda a história humana) nos ensina que alguns anseiam tanto pelo poder que farão qualquer coisa para possuí-lo. Como cristão, devo usar qualquer influência que tenho para servir aos outros, não para dominá-los.
  • O medo (pânico) e a raiva (fúria) são ferramentas poderosas que motivam as pessoas a agir de maneiras que normalmente não fariam. Como cristão, sou chamado para ser semelhante a Cristo e a demonstrar o fruto do Espírito.
  • A confusão não é nossa amiga. Se nos sentirmos confusos, devemos recuar e ver o que está nos influenciando – a quem estamos ouvindo? Como cristão, sou chamado para andar em clareza e na sabedoria de Deus, não para fazer parte de uma multidão frenética.
  • Com Paulo, aprendemos que há um tempo para se envolver e um tempo para se desligar. Paulo teve a humildade de ouvir seus amigos que o advertiram a não entrar naquele teatro. Lembre-se, você não precisa fazer parte de todos os motins para os quais é convidado.

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