Missões é para todos

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por Rascen
*Missionária em países de acesso criativo

Talvez, você se pergunte em algum momento: “O que é Missão?”. Bem, o conceito do dicionário é de que essa é uma tarefa que deve ser cumprida por alguém a mando de outro. No sentido Bíblico, também dizemos que é um dever, um trabalho, uma obrigação dada por Jesus à Sua Igreja para anunciar o Evangelho a todos os povos, tribos e nações.

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém”
(Mateus 28.19-20) .

Quando somos jovens, não gostamos muito da palavra “dever”. Isso nos passa uma ideia de obrigação, de algo que fazemos sem gostar. Mas eu quero trazer uma definição para você:

“Todo verdadeiro discípulo nasce no Reino de Deus como Missionário.”

Essa definição está no livro “Desejado das Nações”. Entenda que o autor não se refere a todo crente sentado no banco da igreja e nem a todo mundo que se diz cristão. Essa é uma definição sobre aquele que se entende discípulo. Aquele que tem a consciência de Reino e que sabe ser necessário seguir os passos de Jesus.

Como Corpo, precisamos saber que existem diferentes estratégias para a Missão ser cumprida. Mas, ainda que os métodos e lugares sejam diferentes, a Missão é a mesma: Somos agentes de transformação, de multiplicação. A salvação que chegou a cada um de nós precisa também ser levada a outros. 

E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito”
(Gálatas 5.24-25).

A primeira vez em que passei por uma situação de risco em uma nação de acesso criativo foi quando levávamos Bíblias em um território onde isso não era permitido. Naquele país, a lei não autorizava que fossem portados Evangelhos no idioma local, a não ser turistas levando as Escrituras apenas para uso próprio. Nós tínhamos o hábito de levar cópias do Evangelho embrulhadas em papel de presente na mala e tentávamos distribuir como podíamos, o máximo possível.

Um dia, fomos denunciados. Estávamos em uma caminhada de oração e recebemos a notícia de que a polícia se encontrava no apartamento onde todos estavam alojados. Era a minha primeira experiência desse tipo. Lembro que pensei na minha vida, na minha família recebendo uma má notícia sobre mim. Mas nós começamos a orar. Voltamos para o apartamento depois que eles saíram, pegamos todos os Evangelhos e distribuímos tudo na mesma noite, porque precisávamos ir embora daquele país. Partimos para a Tunísia, onde vivenciamos a “Primavera Árabe”, cheia de conflitos externos, explosões e situações arriscadas. Para protegermos as nossas vidas, nos abrigamos em uma igreja com compartimento subterrâneo. 

“Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé”
(Filipenses 3.7-9).

 

Hoje, entre os 7,7 bilhões de pessoas no mundo, 4,2 bilhões são consideradas não alcançadas. Isso representa mais de 60% da população mundial. Todos os dias, mais de 100 mil pessoas morrem sem ouvir falar sobre Jesus. Temos hoje cerca de 400 mil missionários para alcançar bilhões de pessoas.

É interessante essa consciência de “perder a própria vida”, de viver para Cristo. Quando nos tornamos parte de experiências missionárias, nós mudamos, nós crescemos. Experimentamos da provisão e do livramento de Deus. O Senhor que nos dá a ordem do “ide” também diz “Eu estarei convosco”.

Lembro de estar servindo em um campo de refugiados perto da Síria quando fui alertada para não andar nas ruas à noite se eu fosse na região de Istambul, principalmente sendo solteira e estrangeira. Mas aconteceu que precisei estar naquele local, justamente naquele horário, sem sequer saber falar o idioma. Eu me perdi. Pedia informações em espanhol e ninguém entendia. Encontrei um grupo de turistas que me passou algumas instruções, mas àquela altura, eu já havia chamado a atenção o suficiente. Homens já me encaravam. Eu tentei sair, mas um deles me puxou.

Olhei para algumas meninas que estavam próximas e elas vieram em minha direção. Consegui me soltar e elas me levaram a um outro local. Eu puxava uma mala à noite, sozinha, perdida e começou a chover. Comecei a me perguntar por que eu estava ali. Uma convicção dentro de mim me lembrou que eu estava ali por amor às pessoas, por algo maior. E foi então que aconteceu.

Comecei a caminhar e ouvi nitidamente passos me acompanhando. Eu olhava em volta e não havia ninguém. Mas senti uma presença tão tangível que fiquei parada, desnorteada. Deus estava comigo. O meu cansaço virou força. O medo virou ousadia. E logo, foram aparecendo pessoas para me ajudar.

Naquela semana, missionários me relataram que haviam orado por mim. Daí a importância da consciência de se entender parte da Missão, de saber que se você não vai, então as suas orações precisam gerar coisas naquele lugar. O entendimento de que a sua prosperidade, os seus recursos, não são só seus, mas são também por algo maior. 

Deus está fazendo algo lindo nas nações lá fora. Eu vi afegãos sendo alcançados, pessoas felizes pela salvação mesmo cientes de que serão perseguidos e de que sofrerão nos lugares onde vivem. Eu vi tudo e me dei conta de que nós, brasileiros, não sabemos o que realmente acontece no campo. Por isso, aprouve ao Senhor me trazer até aqui, em uma viagem que não estava programada. Para que ouçam o que não podem ver.

Missões não é apenas para os que vão transculturalmente. Os seus dons, os seus talentos, o que você tem nas suas mãos precisa ser luz na vida dos outros. 

Eu saí do Brasil apenas com R$ 1.600,00, para fazer um curso que até hoje nem sei como foi pago. Passei por situações. Hoje, temos uma Secretaria, uma rede de apoio, pessoas para ajudar. Há uma graça, mas também há o desconforto de estar em um local aprendendo tudo do zero. Missões se cumpre com perseverança. Se você desistiu, ou esmoreceu na visão em seu coração, desista de desistir. Não é sobre lugares, Deus é o nosso lugar. Escondidos à sombra do Altíssimo, Ele nos guiará.

 

*Trechos da mensagem de 25 de julho de 2021 durante do Jovens Para as Nações.