Suicídio de Pastores

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por Paulo Pimenta
(Pastor da Igreja Verbo da Vida em Montes Claros-MG)

“Porque, embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas. (…) Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele.(…)Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado” (I Coríntios 9.19,23,27)

Para quem não está no ofício, a vida de um pastor pode parecer maravilhosa. O pastor é o “topo da cadeia”, em relação à igreja local. Temos o respeito do povo, admiração, carinho. O pastor normalmente é o que recebe mais tapinhas nas costas, presentes e honra. Por isso, muitos (inclusive alguns que não são chamados para isso) almejam chegar a essa posição. Existe uma ilusão de glória e brilho nesse cargo.

De fato, é emocionante quando somos separados para esse ministério. Existe, por dentro, a certeza de estarmos cumprindo uma vontade de Deus, e também existe a expectativa do sucesso – e junto com ele – do galardão reservado para nós no Grande Dia.

Porém, pouquíssimos tem a noção exata dos desafios que vem junto com essa posição. Das lutas, dificuldades, renúncias, e das injustiças que nós sofremos diariamente.

Nessa semana foram noticiados dois suicídios de pastores, da mesma denominação, porém, em Estados diferentes da federação. As causas não foram divulgadas, mas existem estudos que indicam alguns problemas que afligem pastores. Segundo esses estudos, traições ministeriais, baixos salários, isolamento, falta de amigos e problemas conjugais estão entre os maiores problemas enfrentados pelos pastores.

Eu gostaria de resumi-los em dois: problemas de relacionamentos e dificuldades financeiras. Tratemos sobre cada um, separadamente:

É difícil, para um pastor, líder de uma igreja, ter relacionamentos exatamente iguais aos que tinha antes de chegar a essa posição, por dois motivos: primeiro, a gente começa a se cobrar de nunca mostrar fraqueza, nunca errar, e nunca decepcionar ninguém, em nenhuma esfera. Apesar de nós sabermos que isso é IMPOSSÍVEL, é uma carga que martela dia e noite em nossas mentes.

É impossível, primeiro, porque também estamos em crescimento; segundo, porque as pessoas também estão em crescimento, logo, podem julgar que estamos errando quando na verdade, às vezes, nem estamos. Dessa forma, até amigos antigos, mesmo que não fazem parte da igreja, começam a julgar. “Nossa, mas um pastor pode ser assim, ou falar assim, ou brincar assim, ou se vestir assim, ou assistir futebol?”. Comentários como esses (e outros) começam a ser a regra em nossas vidas.

Logo, com medo de escandalizar e trazer mau testemunho ao Evangelho, o pastor começa a se tornar cada vez mais cinza, cada vez mais “padronizado” com o que todos esperam que ele seja, e cortando de seu agir todo tipo de coisa que pode, minimamente, fazer com que alguém, algum dia, em alguma situação, pense mal dele.

Em relação às finanças: muitas vezes para o povo, um pastor rico é um pastor ladrão, que se aproveita do suor de suas ovelhas para ter luxo na vida. Se ele troca de carro, tem comentário maldoso; se viaja de férias, pior ainda. Por outro lado, para outros, um pastor pobre é um pastor sem fé. É um pastor que não vive o que prega e que não consegue fazer com que o Evangelho se torne real nem em sua vida, como vai fazer algo por alguém?

Além disso, entenda que essa dicotomia rico/pobre é variável. Não existe “classe média” nessa história, porque depende do julgamento de cada um. E o pastor está sendo julgado em cada uma de suas ações, por ricos e pobres.

Além disso, o pastor tem a pressão das finanças pessoais e a pressão das finanças da igreja. Normalmente, o pastor é quem mais oferta dinheiro, quem mais investe, em todos os sentidos, na igreja local. Se a instituição se sair bem, é fiscalizado com mil olhos, e qualquer aumento de salário é julgado. Se a igreja estiver mal, é acusado de ser relapso, mal administrador, de não ser guiado pelo Espírito Santo ou até de estar em pecado. Na maioria das vezes, sacrifica o seu próprio salário para sanar a igreja, pesando nas finanças pessoais.

Tudo isso leva o pastor a querer buscar isolamento, fuga. Quanto menos pessoas participarem da minha vida pessoal, próximos a mim, menos “pedradas” eu recebo, certo? Menos tempo eu preciso me preocupar para passar a imagem correta para o povo, menos tempo em preciso me preocupar em não ser condenado por não ter feito nada.

Existem pessoas que se aproximam de nós e, para mostrar que são “íntimos do pastor”, começam a distorcer falas, ações e comportamentos, só para ter assunto. Logo, o isolamento acaba sendo uma opção automática.

Depois de ler isso tudo, alguns podem argumentar (com certa razão) que, alguém que chega a uma posição de pastor, é porque já tem crescimento espiritual para suportar essas coisas. Além disso, a unção do Espírito Santo pega junto e nos ajuda a seguir em frente. Claro, com certeza! Mas as tentações continuam a existir, certo?

O meu objetivo, nesse texto, é conscientizar o maior número de pessoas possível a não julgar o seu pastor, ou nenhum pastor. Deixe que, caso necessário, Deus o julgue e corrija! Seja um facilitador do ministério do pastor, não um obstáculo! Seja um apoiador, não um peso. Pense o melhor dele, não o pior. Dê a ele sempre o benefício da dúvida, que é “na dúvida, ele está fazendo o melhor possível”. E, caso o veja em algum erro, ore por ele, para que Deus lhe ajude. Se puder, ofereça-lhe ajuda também.

Você que – fora ou dentro da Igreja – propaga calúnias, mentiras, julgamentos e pensamentos ruins em relação a pastores, reflita sobre algo: esse pensamento geral que demoniza os pastores em nossa sociedade é resultado desse tipo de comportamento seu. E, acredite, as mãos de quem se comporta assim estão sujas do sangue desses pastores que cometeram suicídio, e tantos outros. Lembre-se que uma palavra maldita pode ser mais mortal que qualquer arma.

Não deixe que seu julgamento seja um peso na vida de nenhum pastor. A maioria dos pastores sofre em silêncio. Seja uma mão amiga, um ouvido atento e um abraço em nossas vidas. Antes de sermos pastores, somos gente, que nem você. Podemos errar, mas queremos acertar.

Ajude-nos a acertar.

6 COMENTÁRIOS

  1. Maravilhosa e necessária essa reflexão! Diante de uma realidade que os nossos pastores tem sofrido para seguirem em frente com o chamado que o Senhor os confiou.

  2. Gostei muito da palavra exposta aqui pelo amado pastor. Tem todo sentido tudo que foi dito aqui, me identifiquei com essa palavra pois temos vivido momentos de dor e aflição por conta de línguas ferinas de caluniadores sem compaixão nem piedade. Mas Deus comtempla tudo. Vam9s permanacer firmes mesmo diante da calunias e confiar no poder do nosso Deus pra nos proteger e nos livrar de pessoas que se dizem cristãs mas são instrumentos de Satanás.

  3. Achei o texto perfeito é exatamente o q penso a carga a ser carregada é muito grande e sempre estão sozinhos para isso. Mais penso o seguinte tbm q n foi dito os pastores precisam pedir socorro como fazem as suas ovelhas. Pq td é qlqer ser humano acha q so só ele tem problemas e o seu e mais urgente q o do próximo

  4. Um texto de reflexão… Pastor é um chamado ministerial. Há uma graça disponível para fluir nessa chamada, mas como bem disse o senhor, existem tentações, cobranças, pressões. Alguns sentem-se sozinhos mas é importantíssimo para um pastor ter uma outra pessoa para prestar contas, para desnudar-se em suas emoções e pensamentos. A Igreja, as ovelhas, precisam compreender a necessidade de que o tempo seja investido em nos colocarmos na brecha em oração uns pelos outros, e também pela nossa liderança local, nosso pastor.

  5. Estou saindo de uma dituação depressiva Graças s Deus pela mão amiga de Pastores sensatos,que me abraçaram….lamento pela morte destes ministros…mas ainda é tempo de rever algumas coisa como Igreja e andarmos com leveza ea Igreja nossos irmãos compreender que Pastor não é um Super homem!!!

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