Verbo FM

Bastidores da perda de um filho

Elizabete Girão
Membro da Igreja Verbo da Vida em Fortaleza-CE

Amigos o propósito desse texto não é sensibilizar ou comover ninguém, levantar a bandeira de ‘coitadinha’ ou muito menos fazer algum tipo de apologia ao caos. Pelo contrário, o meu intuito é compartilhar uma experiência de vida e como foi encarado tal fato, pois em meio a um percalço da vida temos a oportunidade de ver a bondade de Deus em cena e confiar plenamente no Deus de toda suficiência e, inspirar outros que possivelmente passem por isso ou qualquer situação que surja em sua vida, porque o Deus que tem me consolado, fortalecido e me feito perceber um futuro de possibilidades fará com qualquer que decidir o mesmo: ter sua vida nas mãos D’Ele é estar seguro.

Depois de 10 anos da nossa primeira filha, eu e meu esposo decidimos ter outro filho, então interrompi o uso do contraceptivo.

Passados alguns meses descobri que estava grávida e a partir desse dia tudo mudou, a minha vida começou a ter outro sentido, a alegria estava em cada detalhe. No dia em que recebi o resultado fiz questão de ir a uma loja de artigos de bebês e comprei um par de sapatinhos e juntamente com o resultado do exame, levei para o meu marido e minha filha e a emoção tomou conta!

Minha gravidez foi maravilhosa, nada de enjoos, cansaço, ou qualquer mal estar, tudo iria conforme qualquer gestante espera nesse período.
Ao completar as 16 semanas realizei meu exame de ultrassonografia para descobrir o sexo do bebê, e logo veio a noticia de mais uma princesa.

Estava me programando para deixar tudo encaminhado até o 7º mês, assim estaria tudo prontinho e sem correria para receber nossa pequena.

Mas, por volta do sexto mês percebi já inchaços nas pernas e a pressão um pouco alta, a médica orientou repouso, uma medicação e monitorar o pressão arterial.

Organizei todos os preparativos do chá de fraldas, e foi tudo muito lindo, conforme imaginei.
No entanto, durante esse período minha filha foi acometida de uma doença rara, precisando ser internada por dez dias. E isso talvez mexeu com a gravidez.

Permanecia indo às consultas, mas a pressão arterial insistia em ficar alta e isso já começou inspirar cuidados, e desenvolveu um processo muito rápido de pré- eclampsia, fiz inúmeros exames ,ultrassons até que foi decidido que iria ter minha bebe prematura, pois seria um grande risco esperar mais tempo.

Tomei a injeção para fortalecer seu pulmãozinho, e foi marcada a cirurgia para o dia 4 de outubro à noite, mas no dia anterior enquanto arrumava os últimos detalhes do seu quartinho, comecei a entrar em trabalho de parto, muitas contrações e dores.

Corremos para a maternidade, dei entrada por volta da meia noite e às duas horas da manhã Lais nasceu.

Na realidade precisei ir numa maternidade de urgência, tive o privilegio de ser atendida por um grande profissional que estava de plantão, um parto de alto risco seria administrado por um médico tão humano quanto Dr.Elson Almeida, esse médico tinha em sua responsabilidade um caso de alto risco, pois ele não acompanhou minha gestação e naquela ocasião não tinha exames nenhum do meu histórico.

Não imaginava que alí estava apenas dando inicio a uma grande saga…

Enfim, eram duas da madrugada do dia 04/09/2012 quando fui encaminhada para sala de cirurgia, 1 mês antes do previsto, meu marido acompanhou tudo. Então nasceu o nossa pequena Lais com 32 semanas e 1:490 kg ,seu apgar foi 7 e 8, o que significa dentro do padrão.

Lais era muito pequena e a pediatra foi muito querida em poder me propiciar dar um beijinho nela antes de ser encaminhada para UTI Neonatal.

Enquanto isso, só estávamos vivendo a primeira etapa do que viria posteriormente, agora ainda precisava regularizar a pressão para receber alta, então fui para o quarto, confesso que não há sentimento mais vazio do mundo o qual você dar a luz ao seu filho, e não poder senti-lo em seus braços, ir para o quarto sozinha, foi algo que mexeu muito comigo.E como  dividia o quarto com outra mãe era doloroso   ver ela com seu bebê ao seu lado.

Muitas mães não sabem o grande valor dessas pequenas coisas, como dar de mamar, sentir teu bebê ao seu lado no centro cirúrgico, sair da maternidade toda exibida com seu bebezinho no colo e tudo mais…

Mas, mesmo assim já havia uma profunda gratidão a Deus pelo parto ter sido bem sucedido, pois o relatório do medico é que havia grandes riscos para a mãe e para a bebê, minha pressão arterial estava em 20/9, o médico nos informou que a placenta já estava descolada em 50% e o risco estava ainda mais iminente.
Lembro do sorriso do meu esposo ao olhar para mim e dizer: ela é linda!

Enfim, após 48h já estava de alta e ter que retornar para casa sem minha filha foi muito frustrante para nós, mas o momento era de cuidar da minha própria recuperação e depois receber Lais .

A partir daí, minha rotina era a mesma todos os dias, ir aos horários de visitação para o hospital, que confesso contava os minutos para chegar esse horário e quando estava lá com minha pequena os minutos passavam voando, em seguida ia coletar o leite para ser fornecido para Lais .Estava feliz por ter leite e fiz o impossível para mantê-lo até que eu estivesse com ela em meu colo.

Quando entrava na UTI, era uma alegria imensa poder ficar pertinho dela,mesmo que só podendo fornecer a minha mão e o meu carinho para ela. Ficavamos ali todo o tempo da visita, orando sobre ela, declarando aquilo que acreditávamos como verdade de Deus e aquelas janelinhas da incubadora eram disputadas por mim e pelo meu marido, um pouco cada um ficava na janelinha mais próxima ao rostinho dela.

O leite era fornecido via sonda gástrica, mas como meu leite não estava sendo suficiente Lais precisou tomar leite industrializado, até que um dia ela teve intolerância, foi quando comecei uma campanha para pedir doação de leite humano, acionei as redes sociais e fiquei impressionada com a solidariedade das pessoas.Recebi doação por muito tempo.

Um grande avanço da nossa pequena guerreira foi não precisar ser entubada, geralmente os prematuros precisam, pois os pulmões ainda não estão totalmente formados e precisam de auxílio respiratório.

Certo vez, em uma das visitas, acompanhei a equipe de plantão reanimando um bebe até que ele não resistiu e vi aquela cena com o coração apertado. E ao ver Lais passar por tudo isso, constatava o quanto ela foi uma guerreira desde o começo, queria muito viver.

Foram 37 dias internada na UTI, ela foi submetida a algumas transfusões de sangue, fez ecocardiogarma e foi verificado que ela tinha sopro cardíaco e um leve espaçamento entre os átrios, já sendo submetido a um eletrocardiograma. Foram tantos procedimentos…
Comemoramos um mês de Lais na maternidade, com direito a bolo e salgadinhos.

E finalmente no dia 11 de novembro Lais recebeu alta, já ganhara o peso estabelecido e se alimentava com a chuquinha, então fomos para casa!

Esse dia marcou muito, foi muita emoção, uma alegria que transbordava e a nossa grande guerreira estava no aconchego da sua casa, do lindo quartinho dela, onde me fechei e sentei tantas vezes para orar e declarar seu retorno.

Lais comemorou seu segundo mês em casa, passamos a viver uma rotina prazerosa com momentos tão mágicos, as madrugadas, seu chorinho, dar banho, as medicações que um prematuro precisa enfim, tínhamos os cuidados naturais de um bebe recém nascido.

Laís ficou um mês conosco em casa, celebramos a noite de natal em família, no entanto no dia seguinte, ela apresentou alguns sintomas, levamos ao pronto socorro e precisou ir a UTI.

E mais um processo de hospital se iniciava, mas estávamos confiantes que tudo sairia bem, comemoramos seu terceiro mês com a equipe do Hospital Luis França. Mas, Lais não respondia com melhoras, seu quadro se agravava a cada dia, pois pegou infecções e partiu para estar com o Senhor…

A verdade é que Lais ultrapassou as regras da medicina, quando havia um diagnóstico irreversível, mas a vimos lutando por muitos dias para nos fazer feliz enquanto esteve conosco.

Em 4 de outubro Lais faria 1 aninho, sua história foi interrompida, mas seus dias ao nosso lado foram suficientes para aprendermos, crescermos enquanto seres humanos e filhos de Deus, enquanto família. Enfim, Lais nos deu a oportunidade de provarmos que vale a pena ver a vida com os olhos de Deus.

Gostaria sim, sinceramente, de hoje estar nos preparativos do seu aniversário, de contar essa história com ela em meus braços, mas não foi assim…

Não Quero fazer dessa história uma tragédia que ocorreu, mas um passo para um novo tempo de Deus em nossa vida.

Lais passou quase 4 meses conosco, mesmo sem palavras ela nos ensinou coisas preciosas que ficarão impressas em toda nossa vida. Uma pequena, mas grande em força.

Estávamos nos despedindo dela, lamentando sua perda e ausência, mas Deus tem nos consolado e fortalecido de uma forma tão surpreendente que seria injusto questionar um Deus tão bom quanto o Senhor!

Lembro que em um dado momento de tristeza em que fui orar, Deus me fez lembrar que mesmo Lais não estando viva, Ele manteve minha vida preservada para contar seus feitos nessa Terra, para viver os Seus planos, para declarar que um Deus vivo e real existe.

Minha vida não parou por causa de tamanha perda, estou pronta para uma nova gravidez, para desfrutar dos planos que Deus tem para mim e minha família. Deus permanece o mesmo, Seu caráter não mudou, minhas convicções estão cada vez mais fortes, portanto não tenho o que temer, porque o Todo Poderoso é comigo.

Agradeço à minha família, aos amigos e irmãos em Cristo, a todos os profissionais que tanto se empenharam em manter Lais viva.
Ao meu esposo que permanece me apoiando! Deus é muito bom!

2 Comentários

  • A SUA HISTORIA SE PARECE MUITO COM A MINHA.ME EMOCIONEI MUITO,REVIVI UM FILME REPASSADO POR EU E MEU ESPOSO.MAS SERVIMOS A UM DEUS MAIS QUE SUFICIENTES .ESTAMOS AVANÇANDO.HOJE TENHO MAIS DOIS FILHOS LINDOS QUE SERVEM AO SENHOR COM EXCELENCIA.XERO NO CORAÇÃO

    Resposta
  • Não tive como não me emocionar. Tenho uma filha pequena e muitas vezes queremos dar o melhor aos nossos filhos. Mais o que realmente importa e vai durar o resto da vida dela são os momentos e os ensinamentos que vou passar pra ela. Que Deus abençoe a você e a sua família. E que sua próxima gestação seja ainda mais abençoada. Deus tem coisas maravilhosas pra você e o que você passou foi apenas um treinamento para ser ainda mais abençoada e ter a maturidade para desfrutar destas bençãos. Fica na Paz!

    Resposta

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