Celia Regina ensina equilíbrio entre cultura e fé. Inspire-se!

Em entrevista, a missionária relatou adaptação ao campo, desafios e testemunhos marcantes em Moçambique, África.

Desde 2019 em Moçambique, a missionária Celia Regina tem acompanhado de perto a expansão da Palavra da Fé no país africano. Atuando na igreja local, na Escola Bíblica Verbo da Vida e em diferentes departamentos, ela acompanhou testemunhos impactantes na vida de alunos e famílias. Em entrevista, Celia compartilhou experiências marcantes, desafios culturais e a convicção de estar vivendo o propósito de Deus no campo missionário.

Ao relembrar o início de sua jornada em Moçambique, a missionária destacou que essa fase começou sob a liderança de Iranice e Jorge Barroso. Já em 2020, com a pandemia, surgiu a oportunidade de iniciar a Escola Bíblica em formato on-line. A iniciativa, que envolveu 14 nações, tornou Moçambique um polo do ensino das Escrituras e gerou resultados duradouros.

Muitos alunos daquele período atualmente são monitores e influenciam a sociedade como médicos, promotores e comunicadores digitais. Entre eles, destaca-se a cantora Marllene, conhecida como Preta Negra, que utiliza sua influência nas redes sociais para difundir a Palavra da Fé.

Celia Regina relatou que a adaptação no país africano foi natural, graças à receptividade do povo. Uma das tradições que mais a marcou foi o gesto de honra ao presentear visitantes com a capulana, tecido típico da região. “Eles não entregam de qualquer forma. Colocam a capulana em você, dançam, fazem todo um ritual. É como se estivessem oferecendo o melhor que têm”, explicou.

Além disso, a alegria da comunidade tornou-se parte de sua rotina. “Eles são muito festeiros. Sempre estão dançando e acabam colocando você para dançar também”, recordou.

“Eu amo aquele lugar e aquele povo.”

Outra curiosidade cultural surgiu por causa de seus cabelos brancos. No contexto local, pessoas com cabelos grisalhos são chamadas de madala, termo usado para se referir a alguém de idade avançada. Por isso, ela acabou sendo conhecida na igreja como tal.

Ela também se impressionou com a vaidade das mulheres da região. Mesmo em meio a limitações materiais, elas fazem questão de cuidar da aparência. Usam cabelos trançados, capulanas bonitas e turbantes, além de se vestirem com cuidado. Segundo Celia, esse hábito começa ainda na infância, quando as meninas aprendem a se arrumar e a trançar os cabelos.

Essa percepção também se refletiu em uma experiência marcante durante um chá de mulheres, quando ela realizou uma dinâmica com espelho. A proposta era que cada participante dissesse três qualidades e três defeitos sobre si mesma. No entanto, algo chamou sua atenção: “Elas só falavam coisas boas. Diziam que eram bonitas, alegres… Nenhuma falou defeito”, relembrou.

Para Celia, essa atitude revelou sobre a forma como aquele povo enxerga a si mesmo. Apesar de possuírem poucos recursos, demonstram alegria e autoestima. A missionária acredita que isso também contribui para a forma como recebem a mensagem bíblica. Por isso, Celia afirmou que pregar naquele contexto se torna algo muito especial: “É muito fácil ministrar para o povo africano, porque recebem bem a Palavra”.

Apesar da alegria e autoestima do povo, a missionária observou a forte presença de práticas ligadas ao ocultismo. Curandeiros são respeitados e influenciam a interpretação de acontecimentos cotidianos. Situações simples, como uma fruta ensacada no pé, ou roupas desaparecidas do varal, podem ser associadas à feitiçaria.

Para ela, esses comportamentos refletem uma forte presença de superstições culturais transmitidas de geração em geração. Mesmo dentro da igreja, onde a Palavra é ensinada, ainda é possível perceber resquícios dessas crenças. “A gente ensina a Palavra, mas às vezes ainda percebe algumas coisinhas. É cultural, porque eles cresceram ouvindo e vendo essas práticas desde pequenos”, observou.

Esse tipo de mentalidade também se manifesta em outras áreas da vida, como durante a gestação. Muitas mulheres evitam anunciar a gravidez nos primeiros meses por medo de inveja ou de possíveis malefícios contra o bebê. Por isso, o nome da criança só é escolhido após o nascimento.

Diante desse cenário, Celia destacou que a renovação da mente por meio do ensino bíblico ocorre de forma gradual. Ainda assim, ela ressaltou que o trabalho com crianças tem acelerado esse processo: “A criança aprende mais rápido. Quando você ensina desde cedo, ela já cresce com uma mentalidade diferente”.

Apesar dessas particularidades culturais, a missionária afirmou que não enfrentou grandes dificuldades para se adaptar ao país ou ao relacionamento com as pessoas. Segundo ela, existe uma identificação natural com o lugar e com o povo. “Eu gosto muito de estar lá. Sinto que estou na graça do Senhor, fazendo aquilo que amo fazer”, completou.

Atualmente, Celia Regina integra a diretoria da igreja ao lado de Katy e do pastor Ricardo Ramalho. Além dessa responsabilidade, também colabora em diferentes departamentos, oferecendo suporte conforme as necessidades surgem. Para ela, essa postura faz parte da essência do chamado missionário.

Em sua visão, quem decide sair da própria nação para servir em outra precisa estar disposto a ajudar em qualquer área. “Muitas pessoas pensam que o missionário vai apenas pregar ou ministrar. Mas não é assim. O missionário precisa ter muito essa veia de servir, estar disposto a ajudar onde for necessário”, explicou.

Segundo Celia, o trabalho missionário só faz sentido quando há disposição genuína para servir. “Não faria sentido deixar a minha nação para ir para outro lugar e não fazer nada. Se fosse assim, seria melhor ficar aqui. Eu estou lá para servir mesmo”, declarou.

Essa dedicação, no entanto, não representa um peso. Pelo contrário, ela afirmou que realiza tudo com alegria e convicção. “Eu amo servir. Às vezes até digo que o meu nome é serviço”, comentou.

Entre as áreas em que atua, está o Departamento de Mulheres, do qual passou a estar à frente. Nessa função, deseja investir ainda mais no fortalecimento da identidade e da mentalidade das mulheres da igreja. Segundo Celia, Katy lhe concedeu liberdade para desenvolver esse trabalho, o que tem possibilitado ampliar as ações voltadas para esse público.

Além disso, ela também colabora no Departamento Infantil por meio de um projeto chamado Saber, uma iniciativa da igreja voltada para as crianças. Paralelamente, participa da Escola Bíblica, onde atua como vice-diretora ao lado de Katy. Apesar do cargo, destacou que a rotina envolve diversas funções: “Na Escola, a gente faz de tudo. De manhã estamos lá trabalhando de forma simples, e à noite nos preparamos para as atividades”.

Celia afirmou ter convicção de que está exatamente no lugar onde Deus a direcionou. Segundo conta, desde o início da sua chegada ao país percebeu sinais de que estava no tempo certo para aquela missão.

Ao recordar sua chegada a Moçambique, ela contou que a filha dos líderes da igreja da época tinha um restaurante frequentado por muitos muçulmanos, o que despertou nela o interesse de se aproximar mais dessa realidade. “Eu queria ir para o restaurante porque lá tinha muitos muçulmanos, para conhecer melhor esse contexto”, contou.

Em um determinado dia, enquanto os funcionários trabalhavam na cozinha, Celia os convidou para orar. Foi nesse momento que algo inesperado aconteceu. “Quando demos as mãos para orar, uma das meninas começou a se manifestar”, relatou. Para evitar que a situação chamasse atenção dos clientes, ela conduziu as pessoas até o quintal do restaurante.

Ali, segundo seu relato, a jovem começou a gritar e declarou algo que a marcou: “Depois que ‘essazinha’ chegou aqui, as coisas começaram a mudar”. Naquele momento, ela repreendeu o espírito em nome de Jesus e afirmou que percebeu claramente a autoridade espiritual naquele ambiente.

Para ela, aquele episódio confirmou que sua presença ali fazia parte do propósito de Deus. “Aquilo foi muito marcante para mim, porque até o próprio diabo disse que, depois que eu cheguei, as coisas começaram a mudar”, afirmou. Outro período significativo foi durante a pandemia, quando a Escola Bíblica precisou continuar suas atividades em meio a desafios. Iranice era a diretora na época, e ela decidiu apoiá-la nos bastidores. “Eu disse a ela: ‘Pegue mesmo a direção, porque eu vou trabalhar nos bastidores’. Então eu vesti a camisa da Escola Bíblica”, explicou.

Nesse período, também aconteceram outras iniciativas importantes, como a Escola de Missões e o treinamento de ministros realizados de forma online. Para a missionária, esses acontecimentos formaram uma sequência de momentos estratégicos para o crescimento da obra naquela nação. Ela também acompanhou a transição pastoral e afirmou continuar servindo com a mesma disposição.

“Eu servi Iranice e continuo servindo agora com Kate da mesma forma”, disse. Segundo ela, tem sido gratificante acompanhar o crescimento da igreja e a transformação na vida das pessoas ao longo desse tempo. Celia também contou testemunhos que a impactaram, tanto de crianças quanto de adultos.

Um dos exemplos foi o de um ex-muçulmano que participou da Escola Bíblica. Após sua conversão, ele havia sido expulso de casa pelos pais por causa da fé cristã. No entanto, durante o curso, uma das matérias o impactou. “Depois daquela matéria, ele decidiu se reconciliar com o pai, perdoou e hoje voltou a falar com ele”, contou. Para ela, esse jovem tem um papel importante no avanço do Evangelho entre muçulmanos. “Eu disse para ele que aquilo que eu não posso alcançar, ele pode. Como ex-muçulmano, ele sabe como se aproximar e falar com eles”, explicou.

Além desses testemunhos, a missionária revelou que muitas pessoas — mulheres, crianças e famílias — costumam se aproximar para expressar gratidão pelo seu trabalho e presença. Segundo ela, sua própria personalidade contribui para essa proximidade. “Eu tenho muito esse jeito de mãe, então acho que isso facilita estar perto delas”, comentou.

Diante de tudo o que tem vivido, Celia reafirmou a convicção que carrega desde que chegou ao país. “Vejo claramente que estou no tempo certo e no lugar certo”, destacou.

Ao ser questionada sobre o que uma pessoa precisa para exercer seu chamado na África, ela enfatizou a importância de preparação prática antes do “Ide”. Por isso, Celia Regina orientou que o missionário leve consigo habilidades que possam ajudar no sustento e também na conexão com a comunidade local.

Ela ressaltou que possuir alguma profissão ou habilidade pode fazer grande diferença no campo. Como exemplo, mencionou Katy que atua como cabeleireira. “Ela é uma ótima cabeleireira e, quando tem tempo, atende alguns clientes. Antigamente tinha até muitas mulheres muçulmanas como clientes”, contou.

Para a missionária, qualquer habilidade pode se tornar uma ferramenta útil: fazer unhas, atuar na área da saúde, dar aulas ou exercer outra profissão que beneficie a comunidade. Segundo afirmou, quanto mais ferramentas o missionário tiver, mais preparado estará para servir.

Celia Regina também compartilhou uma conversa recente com um jovem que sentia o chamado para missões, mas estava sendo pressionado a interromper seus estudos para ingressar imediatamente na Escola de Missões.

Na ocasião, ela o encorajou a concluir a formação acadêmica. “Eu disse a ele que estava correto em terminar o curso. Isso não é falta de fé. Pelo contrário, quanto mais ferramentas você tiver, melhor”, afirmou. Embora a igreja ofereça suporte ao missionário, ela ressaltou que ter habilidades profissionais pode evitar muitas dificuldades.

Por essa razão, a missionária costuma aconselhar pessoas que desejam atuar no campo missionário — seja na África, na Europa ou em qualquer outra região — a se prepararem adequadamente. Segundo Celia, é importante investir em capacitação e adquirir ferramentas que possam contribuir no trabalho. “Aprenda inglês, estude, adquira ferramentas. Tudo o que você puder levar como recurso vai servir”, afirmou.

Outro ponto que ela enfatizou é a postura do missionário ao chegar a uma nova nação. Segundo Celia, muitos chegam imaginando que continuarão fazendo as mesmas atividades que exerciam em sua igreja de origem. “Lá você vai fazer aquilo que estiver precisando. Não é porque na sua igreja você fazia só uma coisa que será assim também”, explicou.

Para ela, o mais importante é manter a disponibilidade em servir e obedecer à liderança local. “É ter mesmo um coração de servo, obedecer ao líder, servir ao pastor e estar disponível”, afirmou.

A missionária também destacou a importância da humildade ao chegar à outra cultura. Segundo ela, o missionário precisa reconhecer que está entrando em um ambiente que não é o seu. “Quando você chega a uma nação, precisa entender: eu não sei de tudo. É hora de aprender e, muitas vezes, ficar calado”, disse.

Celia reforçou que respeitar a cultura local é essencial para manter bons relacionamentos e testemunho. “Eu estou na casa de outro povo. Não é do meu jeito, não é do jeito do Brasil. Eu preciso me adaptar à cultura deles — claro, não nas coisas erradas, mas respeitando”, explicou.

Para ilustrar, comparou essa postura com a atitude de quem entra na casa de alguém. “Quando entramos na casa de outra pessoa, precisamos ser educados”, afirmou. Segundo ela, o comportamento expansivo típico do brasileiro pode, em alguns contextos, ser interpretado de forma negativa.

Mesmo após sete anos vivendo em Moçambique, ela afirmou continuar observando atentamente o comportamento das pessoas que já estão há mais tempo no país. Na sua avaliação, o respeito pela cultura e pelo espaço das pessoas contribui diretamente para a forma como o missionário é recebido pela comunidade. “Muitas vezes as pessoas perdem o respeito justamente por invadir espaços. Mas quando você respeita, as pessoas também passam a respeitar você”, concluiu.

1 Comentário

  • Gloria a Deus , louvamos ao senhor pela ousadia dos nossos missionarios , a irma Celia Regina tem sido uma benção, quantos testemunhos cremos num grande mover de Deus em todas as nações que os sinais maravilhas e prodigios acompanhem os nossos missionarios no campo.

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