Enxergando além do natural

Quando se crê na visão de Deus, o Departamento Infantil deixa de ser um fardo e se torna um dos ministérios mais estratégicos dentro da igreja.
Ferreira Neto
Graduado no Centro de Treinamento Bíblico Rhema
Ferreira Neto
Graduado no Centro de Treinamento Bíblico Rhema

Há muitos anos, decidi deixar tudo para trás e abraçar uma visão que fazia sentido ao meu coração. Deixei um cargo de liderança em outra denominação e cheguei sem nenhum título, apenas com o desejo de mergulhar no centro da vontade de Deus. Foi assistindo a um convite para servir no Departamento Infantil que decidi, ao lado de minha esposa, dizer sim a um chamado que, à época, parecia pequeno diante de tantas outras possibilidades de serviço na igreja.

Aceitamos servir sem conhecer quase ninguém e, pouco depois, enfrentamos um momento em que as portas físicas da igreja precisaram se fechar. Diante disso, passamos a gravar conteúdos em casa, usando cenários simples e criatividade para ensinar as crianças sobre temas como a obediência. Não havia pretensão de aparecer ou se destacar. Havia apenas o entendimento de que o chamado não é para servir pessoas, mas para servir a Deus e que Ele enxerga cada gesto de fidelidade, mesmo os que passam despercebidos aos olhos humanos.

UM CHAMADO QUE EXIGE ENXERGAR ALÉM DO NATURAL

O ministério infantil carrega, com frequência, uma imagem distorcida. Fala-se das dificuldades, da falta de voluntários, da carência de recursos materiais, da ausência de reconhecimento, mas raramente se fala da grandeza do propósito que existe ali. É comum ouvir queixas sobre estrutura, sobre cadeiras quebradas, sobre salas pequenas e calor excessivo. Esses relatos, quando compartilhados apenas como reclamação, geram um ambiente de murmuração que afasta possíveis voluntários em vez de atraí-los.

A mudança começa quando se decide enxergar além do que é natural aos olhos. Assim como um terreno tomado por mato pode se tornar uma igreja inteira quando alguém crê na visão de Deus para aquele espaço, o Departamento Infantil pode deixar de ser visto como um fardo e passar a ser reconhecido como um dos ministérios mais estratégicos de qualquer igreja. Quem for chamado a prestar contas sobre a próxima geração não poderá se justificar dizendo que a responsabilidade era de outra pessoa. Cada um que serve às crianças é convidado a ser parte da solução, e não apenas relator dos problemas.

Vale lembrar, também, que a alegria genuína pelo crescimento do ministério deve superar qualquer desconforto com o aumento do número de crianças ou com a chegada de crianças atípicas e de pessoas com deficiência. Acolher verdadeiramente vai além de uma saudação de boas-vindas. Envolve estrutura, cuidado e amor prático, capazes de fazer com que famílias que já passaram por várias igrejas sintam, finalmente, que encontraram um lugar de pertencimento.

A CURA DO CEGO BARTIMEU E O CONVITE A NÃO SE CALAR

A passagem de Marcos 10.46-52 narra a história de Bartimeu, um cego que, ao saber que Jesus passava por perto, começou a gritar por misericórdia. Muitos tentaram silenciá-lo, mas quanto mais pediam que se calasse, mais alto ele clamava. Jesus parou, mandou chamá-lo, e Bartimeu antes de se aproximar, lançou fora sua capa, símbolo que o identificava como mendigo. Ao ser questionado sobre o que desejava, respondeu que queria voltar a enxergar, e assim aconteceu, pois sua fé o salvou.

Essa história traz três ensinamentos centrais para quem serve no ministério infantil. O primeiro é que toda dependência deve estar em Jesus, e não em recursos, estrutura ou reconhecimento humano. O segundo é que a fé pode existir mesmo sem que se enxergue completamente o caminho, bastando confiar que Deus é capaz de transformar a situação. O terceiro, talvez o mais desafiador, é a recusa em se deixar silenciar. Assim como a multidão tentou calar Bartimeu, existem vozes que tentam desanimar quem serve, sugerindo que o esforço não vale a pena ou que ninguém reconhece o trabalho realizado. A resposta a essas vozes não deve ser o silêncio, mas a perseverança na convicção de que o chamado é legítimo e necessário.

SERVIR COMO QUEM CONSTRÓI UMA VITRINE PARA A PRÓXIMA GERAÇÃO

Cada iniciativa voltada às crianças, seja um evento especial, um momento lúdico ou uma simples aula, deve ter um propósito que vai além do entretenimento. O ambiente pode ser divertido, mas o objetivo maior é conduzir as crianças à salvação, ao batismo no Espírito Santo e à experiência real com Deus, incluindo curas, milagres e uma vida de oração genuína. Ensinar uma criança a orar pelos próprios pais, por exemplo, é uma forma concreta de formar uma geração que compreende o poder da fé desde cedo.

UM LEGADO QUE ULTRAPASSA GERAÇÕES

O compromisso de servir às crianças jamais deveria ser tratado como um trampolim para outros ministérios, mas, sim, reconhecido como um chamado completo em si mesmo. Envolve responsabilidade, entrega e disposição para investir tempo, energia e recursos em algo cujo fruto muitas vezes só será visto no futuro. É um serviço que exige integridade também na forma como se conduz cada momento com as crianças, evitando negligência, superficialidade ou promessas que não são cumpridas.

Servir com excelência exige, ainda, um olhar atento não apenas para as crianças, mas também para os pais, reconhecendo que a formação de uma geração passa igualmente pelo fortalecimento das famílias. O amor, quando vivido em prática, tem o poder de moldar identidades e formar um legado de fé que atravessa gerações.

Que cada pessoa envolvida nesse chamado possa lembrar que a maior recompensa não está no reconhecimento imediato, mas na certeza de que Deus vê cada gesto de fidelidade e recompensa com justiça aquilo que é feito com amor e dedicação.

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