Nasci em Planaltina, Distrito Federal; meus pais se separaram muito cedo. Meu pai teve três filhas no primeiro casamento; eu sou a mais velha. Quando eles se separaram, eu tinha quatro anos de idade. Minha mãe saiu de casa e nos deixou com a vizinha. Ela era muito jovem e deixou uma carta escrita para o meu pai. Na carta, ela dizia que casar cedo não estava sendo muito fácil. Hoje, com a maturidade que eu tenho, creio que ela teve um conflito emocional muito grande para fazer isso. Ela também deixou escrito que teve alguns relacionamentos extraconjugais. Ela falou que já não estava mais conseguindo conviver com essa situação e que preferia ir embora. Quando meu pai chegou no final do dia, a vizinha contou que minha mãe tinha ido a Goiânia para recuperar uns documentos dele. Logo, ele percebeu que havia algo estranho e, quando chegou em casa, encontrou essa carta. Ela tinha ido embora e deixado nós três com o meu pai.

Eu penso que esse primeiro momento, para ele, foi algo muito difícil, pois era um homem com três bebês. Eu era a mais velha; tinha quatro anos na época. Ele teve que encarar a vida e se ajustar com o trabalho. Essa vizinha foi alguém que deu muito apoio. Minha madrinha também foi um braço muito forte; ela era casada, mas meu padrinho não podia ter filhos. Então, ela nos acompanhou bem de perto, cuidando muito da minha irmã mais nova. Na época, ele trabalhava em dois empregos; acabava se dividindo, tendo que conciliar as crianças com o trabalho. Em um dos empregos, ele trabalhava à noite em um edifício bem antigo de Brasília. Então, quando não conseguia conciliar tudo, acabava me levantando para o trabalho, pois eu logo adormecia. Deve ter sido um período bem tenso para ele. Quando somos crianças, não conseguimos entender a proporção de tudo; hoje, eu consigo visualizar a dificuldade. No entanto, não demorou muito para ele conhecer outra pessoa.

Quando eu já estava com seis anos de idade, ele se casou novamente. Ela era viúva, possuindo dois filhos. Ele tinha três filhos, mas, na verdade, a minha irmã mais nova acabou sendo criada pela minha madrinha. Depois do casamento, eles tiveram mais uma filha; então, a família ficou ainda maior. Antes desse neném completar um ano, eles decidiram se mudar para Goiânia. Eu já estava com cerca de 8 anos nessa época. Quando fomos para lá, perdemos contato com a minha irmã caçula, pois a distancia ficou maior. Meu pai sempre procurava vê-la, mas, para nós, era mais difícil. Em Goiânia, eu vivi boa parte da minha vida.      

Essa pessoa com quem o meu pai se casou é maravilhosa. É minha mãe mesmo! Porém, ela era muito limitada no seu estado de saúde. E a família ficou um pouco grande. Quando chegamos em Goiânia, por volta de um ano lá, meu pai ainda não tinha conseguido um emprego fixo, registrado. Ele possuía profissão de pedreiro e estava fazendo alguns trabalhos, em busca de algo mais sólido. Ele sofreu um acidente; caiu de cima de uma casa e acabou fraturando a bacia. Ficou muito tempo sem andar. Éramos muito pequenos. Minha mãe possuía muitos problemas de saúde, e um deles era um problema mental. Ela possuía uma perturbação mental. Depois que aceitou Jesus, ficou liberta. Sabemos, então, que era um espírito maligno que a perturbava. Ela fazia muitos tratamentos com remédios controlados e acabava perdendo a memória mesmo. Então, sofria bastante com isso. Eu sempre tive um jeito muito alegre e muito espontâneo. Acho que é uma força de Deus que nasce com a gente; eu sempre gostei muito de cantar. Minhas brincadeiras sempre possuíam música envolvida.

Sendo a mais velha, eu acabei assumindo as rédeas de algumas coisas dentro de casa. Eu tinha a responsabilidade de dar comida e medicação e colocar ordem na casa. O tempo foi passando e eu fui crescendo com essas responsabilidades. Uma ou duas vezes por ano, ela tinha essas crises. Ela desmaiava, e tínhamos que cuidar dela como se cuida de uma criança mesmo. Chegamos a passar privação de muitas coisas. O alimento era o básico. Tivemos o apoio de um casal de primos do meu pai; eles moravam em Goiânia também e não tinham condições financeiras excelentes, mas o pouco que tinham era dividido conosco. Como minha irmã mais nova tinha uns 3 anos, minha mãe conseguia pegar pão e leite do governo. Brigávamos para sobreviver mesmo, para não faltar o arroz e o feijão. Isso, graças a Deus, nunca nos faltou.

Eu fui crescendo nesse meio tumultuado. Tudo que eu queria era poder, um dia, me casar e sair de casa. Possuía esse desejo. Aquela vida, para mim, não possuía realização. Eu sempre gostei muito de estudar; sempre fui uma ótima aluna na sala de aula. Nunca dei problemas de estudo para os meus pais, mas não conseguia enxergar a possibilidade de me formar. Lá em casa, eles nos deram o segundo grau, porque era a o que o governo oferecia. A frase que eu ouvia dentro de casa era que faculdade era para filho de rico. Eu sempre ouvi que deveríamos trabalhar como doméstica. De fato, eu trabalhei muito tempo como doméstica, mas sempre quis algo maior para a minha vida. Eu sempre quis trabalhar e ter dinheiro. Quando eu tinha treze anos, a minha mãe começou a me ensinar a fazer unha. Eu machucava ela e tudo, mas ela não desistia. Então, ela foi a minha maior incentivadora.

Meu pai foi muito guerreiro; ele não nos deixou por nada nessa vida. Ele não parou diante da dificuldade. Ele é realmente um herói para mim. Apesar de ter recebido o Senhor Jesus somente depois, ele sempre foi um homem de caráter e de princípios. Ele defendia os valores da família, nunca nos deixou jogados; sempre foi muito rígido. Hoje, eu olho a minha vida e vejo o cuidado de Deus, pois eu era uma pessoa que tinha tudo para me perder. Eu sempre sonhava, mas sempre corria atrás. Como minha mãe já havia me ensinado a fazer unha, eu comecei a ganhar uns trocados, fazendo a unha da vizinha e das amigas. Eu também passava roupa para alguns conhecidos; minha tia trabalhava em um hospital e conseguiu umas duas clientes para eu passar roupa. Meu pai me ensinou a passar roupa, pois ele era uma pessoa que gostava de andar só com roupa social. Isso foi muito bom, pois eu me virava.

Quando fiz 17 anos, havíamos nos mudado de um bairro para outro. Meu pai começou a ficar bem insatisfeito com o meu namoro na escola e viu que não teria como proibir; então, resolveu vender a casa e se mudar para outro bairro bem distante. Era de um extremo a outro de Goiânia. No início, esse menino ainda ia no meu colégio, mas, com o tempo, nos afastamos. Apesar de não irmos para a igreja, minha avó (mãe da minha mãe) sempre foi cristã; então, todas férias, passávamos natal e ano novo com a família. Só não íamos quando não dava mesmo. Além de ter ficado sem a minha mãe biológica, eu não tive praticamente contato com ninguém da família dela. Hoje, eu conheço alguns, mas, na época, não tinha ninguém. Então, os tios e os primos que eu considero e fui crescendo junto são da família da minha mãe adotiva mesmo. Minha avó sempre foi cristã da Igreja de Deus; como eu sempre gostei muito de cantar, ela me ensinava hinos da harpa. Eu ia para a igreja com ela. Portanto, eu fui conhecendo Jesus por meio da minha avó. Apesar da minha mãe não ser cristã na época, minha avó sempre ensinou os filhos a temerem a Deus. Antes de nos mudarmos de bairro, minha mãe foi apresentada a Jesus por meio de uma vizinha nossa. Começamos a ir na igreja, mas nada muito envolvente. Depois que nos mudamos, ela se firmou mesmo. Começamos a congregar na Igreja Cristã Evangélica do Avivamento; foi uma igreja em que passamos muitos anos das nossas vidas. Foi onde eu comecei a me envolver mesmo.

Teve uma época em que a minha mãe resolveu ir para a Assembleia de Deus. Foi uma época bem engraçada. Eu tinha 10 anos de idade. Ela fumava e acabou se frustrando com a igreja, pois não conseguia parar de fumar. Ficamos lá, então, por pouco tempo, cerca de um ano só. Minha avó tinha me ensinado uma música que falava de todo tipo de religiosidade que existe. A música era “vamos para o céu; vamos ver Jesus. Só vai para o céu quem andar na luz”. Não entrava mentira, ladrão, quem fumava, quem bebia, quem tirava a sobrancelha, que falava da vida alheia… ia listando quem não entraria no céu! Só entravam os lavados com o sangue de Jesus. Toda vez que eu chegava na igreja, me davam oportunidade para cantar essa música. Eles não me deixavam cantar outra coisa! (risos)

Foi um período em que começamos a ter algum contato com a igreja, mas, como eu cantava muito essa música e minha mãe não conseguia parar de fumar, ela acabou desistindo. Somente quando nos mudamos de bairro, ela conseguiu ser liberta, pois começou a congregar mesmo. Ela realmente foi liberta daquele espírito perturbador. Foram diversos exames sem diagnosticar o que ela tinha na mente. Sem as crises, ela era uma pessoa extremamente lúcida e equilibrada. Quando ela sofria das crises, ela ficava sem memória e sem conhecer ninguém dentro de casa. Minha irmã caçula cresceu com esse sofrimento; hoje, como resultado de tudo isso, ela é uma pessoa extremamente nervosa.

Meu pai nunca teve grandes vícios; ele só precisava receber Jesus no coração. Sempre foi um homem de caráter e de moral. Ele e a esposa, então, começaram a se envolver com a igreja de forma bem ativa. Entretanto, aquele sonho de construir a minha própria vida ainda estava lá. Eu namorava um rapaz da igreja. No dia do meu aniversário, meus pais fizeram um culto em casa; quando eu cheguei em casa, além do culto, esse rapaz me fez um noivado surpresa. Eu recebi a aliança, mas acho que até o rapaz se sentiu pressionado. Depois que ficamos noivos, ele começou a dar uns perdidos. Ele foi se afastando, e acabou não dando certo. Eu rompi o noivado. Eu gostava dele, mas, do jeito que estava, não dava. Sempre tive que correr muito atrás de tudo, mas eu não sabia como construir o que eu queria. Quando eu rompi o noivado com esse rapaz, comecei a me envolver com o filho da vizinha da frente. Era uma família que não era da igreja. Ele não era crente e não trabalhava fora. A irmã dele era de muitas festas e tudo; então, eu acabei sendo levada. Não cheguei a me afastar totalmente da igreja, mas fiquei naquela fase em cima do muro.

Logo que começamos a namorar, eu engravidei aos 18 anos. Então, decidi me casar. Para os meus pais, foi um choque muito grande. Eu ainda estava para terminar o ensino médio. Querendo ou não, vejo que fui uma filha em quem eles depositavam muita expectativa. Eu acho que eles viam em mim uma pessoa centrada. Eles não esperavam isso de mim. Minha mãe teve uma crise nervosa. Eu lembro do meu pai me dizendo que eu não precisava me casar por causa da criança, mas tudo que eu queria era sair de casa. Meus pastores também ficaram muito tristes com isso, pois eu era muito intensa na igreja; no entanto, minha concepção de romance foi muito influenciada pelas músicas e novelas que vi.

Tive uma gestação muito tranquila, pois era jovem. Na época, eu estava trabalhando em um salão de beleza. Trabalhei minha gestação inteira. Quando eu me casei, fui morar na casa dos meus pais, pois me casei com um rapaz que estava começando a trabalhar. Ele era novinho também. Tinha 19 anos na época. Ele começou a trabalhar no supermercado. Começamos a morar em um quarto na minha casa. O que, antes, era difícil sozinha, agora, tinha a pressão da família. Eu não me afastei da igreja, muito pelo contrário. Esse meu marido começou a me acompanhar para a igreja; ele nunca foi totalmente convertido, mas me acompanhava. Ele recebeu Jesus e se batizou nas águas; creio que ele teve um encontro com o Senhor, apesar de estar desviado hoje. Quando o Pedro Henrique nasceu, eu ainda morava na casa dos meus pais. Quando eu olhei para aquele bebê, era como se eu tivesse encontrado o motivo das forças de continuar vivendo. Eu olhava para ele e falava: “Meu Deus! Como eu vou criar essa criança?” Era como se a responsabilidade tivesse caído a ficha. Quando ele nasceu, eu pensei: “Como vai ser?” Eu comecei a enxergar as imperfeições e as incapacidades do pai dele. Eu comecei a ver que eu não poderia contar tanto com a ajuda dele.

Quando Pedro Henrique estava com quatro anos, minha mãe decidiu vender a casa em Goiânia e se mudar para Brasília. Minha irmã do meio, a Cristiane, já estava casada e morava em outro bairro de Goiânia. Eu havia conseguido um contrato temporário na Secretaria de Educação, por meio de uma amiga da igreja; trabalhava o dia todo. Como era a minha mãe que cuidava do Pedro Henrique, ficou o dilema de quem iria cuidar dele. A mãe do pai dele não quis, pois estava procurando emprego e não podia assumir essa responsabilidade. Em meio a essa procura por alguém para cuidar dele, chegou o dia da minha mãe se mudar, e eu não havia encontrado ninguém. E, então, precisei tomar uma decisão que, na época, apesar de ser a mais acertada, foi a mais difícil: a dele ir para Brasília com a minha mãe. Ele ficou seis meses morando com a minha mãe. Todo mês, eu comprava uma passagem de Goiânia para Brasília, para passar um fim de semana com ele. Em Brasília, ele aprendeu a andar de bicicleta e começou a ter as primeiras instruções sobre o temor do Senhor. Foi um tempo em que nos distanciamos, mas em que ele ficou protegido. O pai dele estava muito envolvido com drogas e, então, estava cada vez mais ciumento. As brigas de casa estavam cada vez mais perigosas.

Na Secretaria de Educação, eu conheci um casal em que o marido trabalhava na Telegoiás. Eu contei, para a mulher, a minha história e a dor de estar longe do meu bebê; e eu falei: “O meu sonho é conseguir um trabalho de meio período, para trazer o meu filho de volta. Eu fico com ele em um horário; depois, ele vai para a escola e eu vou para o trabalho. De noite, a avó dele disse que fica com ele”. E ela disse: “Então, eu vou te ajudar. Meu marido trabalha na Telegoiás; lá, é Call Center. As pessoas só trabalham seis horas por dia mesmo. Me dá o seu currículo, porque eu vou pedir para o meu marido arrumar uma vaga lá para você”. Aquilo, para mim, foi uma felicidade enorme. Eu levei esse currículo para ela. Quando eu consegui, em dezembro daquele ano, busquei o Pedro Henrique. Eu ficava pela manhã em casa com ele; levava para a escola e ia para o trabalho. Só que, nesse período, o pai dele estava cada vez mais problemático e mais envolvido com drogas. Ele estava cada vez mais alucinado. E começou a ser um perseguidor dessa alucinação. Se eu estava na fila para trocar de ônibus e estivesse uma pessoa perto de mim, para ele, essa pessoa já estava comigo. Ele começou a me vigiar. Eu parei de ir de ônibus e contratei um transporte escolar para ir para o trabalho. Eu já não dormia mais. Guardava as chaves da moto que possuíamos e as chaves da casa. As facas da minha casa ficavam na casa da minha sogra. Eu vivia em constante medo; sem saber se, de repente, ele teria uma crise de loucura e iria fazer algo comigo. No entanto, sempre crendo e sempre acreditando que ele iria sair dessa.

Em um determinado natal, minha mãe foi passar o fim de ano em Goiânia comigo e com a minha irmã. No dia primeiro de janeiro, ela foi almoçar na minha casa. Nesse dia, eu tive que trabalhar e o Junior me levou. No caminho, ele falou: “Eu vi como você olhou para o Baby (marido da irmã dele)”. Ele foi falando loucuras enquanto dirigia a moto. Quanto mais nervoso ele ficava, mais loucura ele fazia com a moto. E eu, naquele momento, falei com Deus: “Pai, o ano está começando hoje e mais um ano vai começar na minha vida desse jeito?” Como eu estava passando mal com tudo aquilo, pedi para voltar para casa. Acabei conseguindo convencê-lo; aquela volta foi a mais perigosa da minha vida. Por diversas vezes, vi a morte pertinho de mim. Quando cheguei em casa, minha mãe e minha irmã estavam entrando no carro, e eu falei: “Mãe, me espera. Eu não vou trabalhar; vou embora com a senhora”. Eu chamei os pais dele e falei: “Hoje é o dia do basta. Eu estou indo embora de casa”. Minha sogra começou a chorar, pois ela sabia que eu tinha feito tudo que estava ao meu alcance. Nesse dia, eu decidi me separar. Pedro Henrique estava com cinco anos de idade. Eu possuía planos de me ajeitar e ficar em Goiânia mesmo; no entanto, ele começou a me ligar e a me seguir até o trabalho. Com isso, eu peguei meu filho e fui para a casa dos meus pais. De fato, ele nunca foi em Brasília. Para o Pedro Henrique, foi uma mudança muito difícil. O pai dele acabou se afastando mesmo. Eu não o vejo como uma pessoa má, mas como uma pessoa doente. Ainda oro por ele. Eu sei que ele recebeu Jesus no coração dele. Enquanto ele for vivo, creio em sua libertação completa. Hoje, a mãe dele é cristã; eu peço a Deus que ela possa ver essa vitória na vida dela.

Vim morar em Brasília e, logo, consegui um emprego. Minha tia conseguiu um emprego para mim em uma clínica de estética. Fui trabalhar como massagista. Dessa clínica, fui trabalhar em um escritório de contabilidade. Vendo que o mercado da beleza é bem favorável em Brasília, eu saí do escritório e investi no atendimento em domicílio. Nesse período, eu decidi sair da casa da minha mãe, pois existia um conflito muito grande dentro de mim: como eu ia viver trabalhando com a minha mãe cuidando do meu filho? Eu precisava me virar com o meu filho e sustentá-lo. Aluguei um espaço em um prédio comercial, no Venâncio 2000, com a ajuda de uma amiga minha. Ela alugou no nome dela, e eu pagava o aluguel. E comecei a atender a algumas clientes ali, mas aquele era um prédio comercial. Não era um prédio residencial. Meu pai falava: “Como vocês vão morar lá? Lá não pode morar”. E eu falei: “Pai, se eu ficar lá, tem faculdade e tem o shopping do lado. Eu posso atender até mais tarde!” E era o que eu fazia. Eu consegui uma escola pública por perto e consegui organizar a minha vida. Dormíamos escondidos lá dentro, pois os guardas passavam se certificando que estava tudo trancado. Eu dormia na maca de massagem, e o Pedro Henrique dormia em um colchonete embaixo. Para mim, aquilo era muito bom, pois era a minha independência. Era algo que eu estava construindo. No entanto, o aluguel foi ficando caro. Consegui alugar uma quitinete na 508 sul. O Pedro estava crescendo; já estava com oito anos. Essa quitinete ficava embaixo de uma igreja. Isso era tudo que eu precisava, pois eu estava perto da igreja e podia voltar a congregar. O Pedro Henrique estava todo empolgado, pois possuíamos uma casa!

A igreja foi um sucesso na minha vida, pois eu voltei para o louvor e comecei a me envolver firme. Uma cliente muito amiga minha queria arrumar um marido para mim, pois eu já estava há uns anos separada. Ela me apresentou o Jarrier, que, hoje, é o meu marido. Ele nunca tinha sido casado e era um rapaz muito bom. Ele também teve os seus gigantes para derrubar durante a vida. Era da Sara Nossa Terra quando nos conhecemos. Eu disse que possuía um filho, e, para assumir um namoro, primeiro, ele tinha que conquistar a amizade dele. E eles foram construindo esse relacionamento. Hoje, já estamos com onze anos de casados, e eles nunca tiveram desavença. Isso, para mim, é uma realização muito grande. Hoje, temos o Arthurzinho – meu filho caçulinha. Ele tem cinco anos. É um presente para a nossa família.

Eu costumo dizer para o Jarrier que ele é um empreendedor nato, pois Deus depositou dentro dele o dom de produzir riquezas. Ele é um financiador do Reino dos céus nessa Terra. Tudo que você coloca na mão dele, ele consegue enxergar uma forma de fazer aquilo dar lucro. E eu sei que o propósito dessa riqueza é patrocinar o Reino. Ele é uma pessoa muito batalhadora; começou a trabalhar muito cedo. Dá muito valor ao que constrói, pois sua vida também não foi fácil.

Estava envolvida na igreja, mas parecia que não estava conseguindo absorver tudo que Deus era. Eu me perguntava o porquê de ainda não estar satisfeita e realizada. Em uma madrugada, eu perdi o sono, fui orar e comecei a chorar. Parecia que eu não estava totalmente preenchida. Eu não tinha 100% de Deus. No dia seguinte, uma cliente minha me falou do Rhema. Quando ela me falou sobre o Rhema, parecia ser maravilhoso. Ela me deu um CD com uma ministração do Herênio, em que ele falava sobre a fé. Quando eu ouvi, eu falei: “É isso! Eu preciso fazer essa escola!” Na época, só havia Rhema em Taguatinga, e eu morava na W3 sul. Isso foi em 2007. Quando eu e Jarrier nos casamos, ele já possuía o entendimento de que eu iria fazer esse curso no ano seguinte. Diante do que estávamos vivendo, ele tinha medo de não conseguir pagar pelo curso. Eu tinha somente aquele CD, mas aquela mensagem me alimentou durante os seis meses que se seguiram. Eu permaneci firme na minha decisão. Quando nos casamos, fomos morar em Águas Claras, e a loja dele era no centro de Taguatinga. Eu saía da loja e ia para o Rhema a pé. Quando eu assisti a primeira aula do Rhema – fundamentos da fé com o pastor Humberto – aquilo foi um “era isso que estava faltando na minha vida”. No entanto, eu ainda estava congregando na minha antiga igreja. E o meu pastor, com medo de perder a ovelha, vendo a maneira com que eu falava daquilo que estava aprendendo, começou a querer me dar cargos e a me colocar para pregar nos dias de aula do Rhema. Aquilo foi virando um conflito muito difícil para administrar.

Em meados do primeiro ano, eu acabei sofrendo um acidente de carro, em que quebrei o pé e tive que fazer cirurgia. Eu assisti a aula “Oração que Prevalece” praticamente toda pelo CD, mas como foi importante aprender a orar! Estávamos passando por um período difícil; tivemos que entregar o apartamento, pois o Jarrier teve que fechar o comercio que ele tinha. Tivemos que morar com a minha sogra. O meu marido entrou no começo de uma depressão. Eu falava: “Fica tranquilo. Você vai conseguir se reerguer”. Concluir o primeiro ano foi um desafio muito grande, mas eu não abri mão, pois sabia que o fôlego que eu precisava vinha das aulas. Minha maior alegria era a hora de ir para a aula. Eu tive a instrução do Senhor de ir para o Verbo. A princípio, meu marido não quis se envolver. Naquele momento, eu respeitei a decisão dele. Íamos eu e o Pedro Henrique. Comecei a congregar no Verbo e terminei o segundo ano do Rhema. Sou graduada da turma de 2009. Na hora de pagar a mensalidade, era um gigante a cada mês, mas pessoas se levantaram para abençoar a minha vida. No entanto, algo que Deus sempre colocou dentro de mim foi sobre ser firme com as coisas dEle. Diante de tudo isso, eu nunca deixei de dizimar e de ofertar. Não era fácil, mas Deus via que eu procurava honrar. Ele sempre pegou junto comigo.

A formatura do Rhema foi uma realização. Foi um divisor de águas na minha vida. Eu, hoje, sou quem eu sou, porque eu conheci essa Palavra. Junto dela, vieram os presentes mais maravilhosos que eu tenho hoje: as amizades das pessoas que eu conheci e o meu pai espiritual, o pastor Joselito. Ele é uma pessoa muito única. E eu me sinto privilegiada por poder fazer parte do time dele. Ele e Ana Helena são um casal que nos coloca em movimento. A saúde da igreja vem disso – ele não nos deixa acostumar com a paisagem, dando liberdade para caminharmos. Eles são os pais que ensinam os filhos no caminho mesmo.

Um dia, eu comecei a me ver trabalhando no Rhema; no entanto, estávamos vivendo uma fase financeiramente difícil. Meu marido estava trabalhando para outras pessoas com um salário limitado. Deus começou a colocar no meu coração a vontade de servir no Rhema, mas eu não podia, pois precisava de um salário. Pode parecer loucura isso, mas a proposta que veio no meu coração foi de entregar um currículo para a Ana Helena. Então, em um culto, cheguei para ela e falei: “Eu queria te entregar um currículo meu, mas é um currículo profissional”. E ela permitiu. Isso foi em 2010. Justamente no dia que eu fui entregar esse currículo, ela não estava. Quem estava era a Lucileia. Eu entreguei o currículo para ela e relatei a conversa que havia tido com a Ana Helena. Hoje, quando conversamos sobre isso, nós rimos. No entanto, quando é Deus que coloca a instrução no seu coração, Ele mesmo se encarrega de fazer com que as coisas aconteçam.

Um dia, eu estava em casa e recebi uma ligação. Era a Lucileia. Ela me pediu para ir à escola, para conversar com a Ana Helena. Ela me perguntou sobre o meu desejo de estar lá; eu falei sobre como eu gostaria de servir, mas que eu não poderia abrir mão de ter uma remuneração. Deus conhece o limite das nossas estruturas; Ele não me disse para chegar e abrir mão da minha remuneração. O meu marido não estava preparado para isso. Então, eu falei isso a ela, e ela disse: “Tudo bem, mas você sabe que, aqui, você não terá a remuneração que você tem com a sua profissão”. Para mim, isso não importava. Eu não fui voluntária, mas precisei fazer as minhas renuncias, mostrando que estava ali por fé. Eu comecei a trabalhar com a Lucileide no financeiro da escola. Ela é uma pessoa maravilhosa. Eu comecei a servir no Rhema em janeiro de 2011. Estou lá até hoje. E como eu cresci!

Para mim, cantar é falar de Deus de uma forma harmônica, colocando para fora o que há, dentro de mim, a respeito de Deus em forma de melodia. É tocar o coração das pessoas, pois a música não é só aquilo que escutamos. Eu acredito, de verdade, que nasci com esse dom dentro de mim. A música consegue atrair a minha atenção. Existe uma conexão entre Deus, o homem e a música, porque, se você viver a experiência de se trancar em um ambiente e colocar uma música para tocar, vai conseguir viver uma experiência com Deus de uma forma fora do âmbito natural. Deus tem um chamego com a música. Eu vejo a música como uma ferramenta, como algo para atrair pessoas para Deus. Existe esse poder de harmonizar a atmosfera. Ela consegue aquietar o homem e suas emoções. É como se Deus conseguisse atrair a atenção do homem por meio da música. Ela faz parte de mim. 

Hoje, a Selma é uma outra pessoa. Eu mudei conceitos, pensamentos e projetos a respeito de mim mesma. Não foi fácil me livrar dos traumas que a vida construiu dentro de mim ao longo da minha infância e adolescência, mas a Palavra traz uma liberdade e um alívio. Conhecer essa verdade o transforma realmente em outra pessoa, na pessoa que Deus quer que você seja. Sou uma mulher que está decidida a viver para o Senhor. A Selma é a pessoa feliz que ela sempre foi, mas, agora, ela pode ser feliz. Ela pode mostrar essa felicidade, sem precisar esconder de ninguém. A Selma conseguiu trazer sua família para onde ela está agora. Meu marido é graduado do Rhema; meu filho se graduou, esse ano, na Escola de Ministros. O Arthurzinho é uma criança que está crescendo, conhecendo a verdade revelada e formando o caráter dele na Palavra. Isso não tem preço! Eu sou uma pessoa mais determinada; alguém que continua tendo que enfrentar desafios, mas eles se tornam cada dia mais fáceis de ser superados, pois, hoje, o conhecimento da verdade me ajuda a prosseguir. Eu sou uma pessoa cercada de figuras ilustres. Eu trabalho todos os dias com a Ana Helena, com a Lucileia e com a Lucileide. Eu sempre honrei suas vidas e sempre quis absorver aquilo que elas tinham para me ensinar. Encaro as adversidades que surgem como se elas estivessem me moldando para entrar onde eu preciso entrar, fazendo parte do treinamento que o Senhor tem para a minha vida. As pessoas que estão ao meu redor contribuem para que eu chegue onde o senhor quer que eu chegue.

Todos os dias eu aprendo com a Lucileide, com a Lucileia, com a Ana Helena e com todas as meninas da secretaria. Todos os dias eu aprendo com os meus filhos, com o meu marido e com os meus líderes. Eu aprendi a observar as vidas das pessoas e a extrair aquilo que elas têm de melhor para me ensinar, fazendo disso os pilares para a minha caminhada. Não podemos olhar para as coisas do Espírito de forma mundana; Deus não trabalha com promoções hierárquicas. No Reino dos céus, o galardão que receberemos é o da fidelidade. Se eu entender que aquilo que Deus confia nas minhas mãos é o que Ele tem de mais precioso, eu deixarei de apenas lançar um boleto no sistema financeiro e passarei a olhá-lo como vida, como o esforço de alguém. As pessoas derrubam gigantes para honrar as parcelas do Rhema; as parcelas que sustentam a escola e que pagam o meu salário são reflexos de renúncias de pessoas. Eu comecei a enxergar o projeto de Deus. Os donativos que entram ali são pessoas que são parceiras e que contribuem para que um projeto de Deus aconteça; então, precisamos de um zelo muito grande para administrar os recursos financeiros. Precisamos ter um cuidado muito grande com aquilo, pois mexemos com a renúncia das pessoas. Cada papel é uma vida. A fidelidade com o meu horário é o compromisso que eu estou tendo com essas vidas. Eu entendo que Deus conta comigo para que aquilo aconteça. No que depender de mim, não importa o gigante que eu tenha que derrubar ou o vento que eu tenha que enfrentar. Às vezes, o vento sopra mais forte, mas nos seguramos umas nas outras e não caímos. Isso é o Corpo! Essa é a segurança que temos que ter com a família Rhema.

2 Comentários

  • Conhecemos a Selma há pouco mais de um ano, e nos identificamos muito com ela, lendo sua história a identificação aumentou, pois os desafios do Rhema nos aproximaram, ela vibra com cada conquista nossa, crescemos dia após dia e acompanhando referências como ela, fica mais inspirador ainda, minha esposa (Gigi) se tornou amiga e se orgulha disso, o sorriso da Selma cativou uma pessoa que não queria mais sorrir.
    Continue assim Selminha, vc está correndo a carreira que Deus te confiou brilhando e inspirando a muitos.

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  • Graças a Deus que nos faz triunfar diante de sua palavra, que é Boa e agradável. Parabéns que Deus te dê mais é mais.

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