O dia a dia no Japão e os desafios da vida prática

Há um outro lado que nem sempre aparece nas fotografias: os imprevistos, as dificuldades e os desafios de estar em um país diferente.

Quem acompanha uma viagem missionária pelas fotos e pelos relatos pode imaginar que todos os dias são feitos de lugares bonitos, experiências extraordinárias e momentos inesquecíveis. E, de fato, tenho vivido tudo isso no Japão. Mas existe um outro lado que nem sempre aparece nas fotografias: os imprevistos, as dificuldades e os desafios de estar em um país onde a língua e os costumes são diferentes daqueles com os quais estamos acostumados.

E foi justamente esse lado da viagem que quero compartilhar neste diário de bordo. Porque viajar para outro país não é apenas conhecer lugares novos. É também aprender a resolver problemas quando você está longe de casa, não domina o idioma local e precisa encontrar soluções para situações que, no Brasil, seriam extremamente simples.

Uma mala, uma roda quebrada e um problema inesperado

Uma das primeiras dificuldades foi a roda da minha mala, que quebrou enquanto eu caminhava pelas ruas de Tóquio. Pode parecer um detalhe pequeno, mas imagine precisar caminhar por uma cidade enorme, percorrer longas distâncias e ainda ter que carregar uma mala que já não funciona como deveria! Aquilo que deveria facilitar minha locomoção acabou se tornando mais um desafio. E, quando estamos em uma viagem missionária, precisamos lidar com essas situações enquanto continuamos cumprindo os compromissos e nos adaptando à rotina. Foi uma daquelas experiências que nos lembram de que nem tudo acontece como planejamos.

A aventura de lavar roupas no Japão

Se você acha que lavar roupas é uma das tarefas mais simples do mundo, permita-me apresentar minha experiência com as coin laundries japonesas! As coin laundries são lavanderias de autosserviço, nas quais você utiliza máquinas de lavar e secadoras mediante pagamento. São muito úteis para quem está viajando e precisa lavar as próprias roupas sem depender de uma lavanderia tradicional. O problema começou quando precisei encontrar uma.

Encontrei uma lavanderia, entrei e me deparei com as máquinas e as instruções praticamente todas em japonês. Não havia orientações em inglês que me ajudassem a entender como colocar as roupas, selecionar o ciclo, fazer o pagamento e iniciar a lavagem. Tentei utilizar o tradutor do celular, mas algumas traduções não faziam sentido naquele contexto. E, quando você está diante de uma máquina cheia de botões e não sabe exatamente qual apertar, não dá para simplesmente sair pressionando tudo e torcer para dar certo!

Precisava encontrar uma solução. Então, comecei a procurar na internet outra lavanderia que tivesse instruções em inglês. Finalmente encontrei uma opção em Ikebukuro, mas havia um detalhe: eu precisaria caminhar aproximadamente seis quilômetros até lá, levando minha mala com as roupas. Sim, você leu certo: seis quilômetros!

Lá fui eu, caminhando pelas ruas de Tóquio, carregando minha bagagem e tentando resolver um problema que, em casa, provavelmente teria sido solucionado sem grandes dificuldades. Depois de todo esse percurso, finalmente encontrei uma lavanderia com instruções em inglês. Dessa vez, consegui entender como utilizar as máquinas e lavar minhas roupas.

Missão cumprida: roupas lavadas!

Pode parecer engraçado agora, mas, naquele momento, foi uma verdadeira conquista. E eu aprendi, na prática, que até as tarefas mais comuns podem exigir planejamento, paciência e disposição quando estamos em outro país.

A fome não fala japonês, mas o cardápio falava!

Outra situação aconteceu na hora do almoço. Entrei em um restaurante, pensando que conseguiria fazer meu pedido tranquilamente. Afinal, eu sabia que o inglês me ajudaria em muitas situações durante a viagem. Mas, naquele estabelecimento, o cardápio estava em japonês e ninguém falava inglês. Tentei entender as opções, mas não consegui descobrir como pedir minha refeição. Sem conseguir me comunicar e já precisando almoçar, tive que mudar os planos.

A solução foi procurar um fast-food e comer um hambúrguer. Não era exatamente o que eu tinha imaginado para aquele almoço, mas era o que estava ao meu alcance naquele momento. Essa experiência me fez perceber que, mesmo em uma cidade internacional como Tóquio, não podemos presumir que conseguiremos nos comunicar em inglês em todos os lugares. O idioma me ajudou bastante desde o início da viagem, mas houve situações em que ele simplesmente não foi suficiente. E, nessas horas, precisamos aprender a improvisar!

Quando até a farmácia se torna um desafio

Se a dificuldade para pedir comida já havia sido suficiente, ainda passei por outra situação que me deixou sem saber muito bem o que fazer. Meu nariz estava bastante seco por causa do clima, e eu queria comprar soro fisiológico para fazer a lavagem nasal. Fui a uma farmácia e tentei explicar ao atendente o que precisava. Como ele não falava inglês, recorri novamente ao tradutor do celular. Mostrei a tradução, esperando que ele entendesse meu pedido.

Ele leu, fez um sinal negativo e foi embora. E eu fiquei ali, sem conseguir resolver o problema! Eu não queria nada complicado. Só precisava encontrar um produto para cuidar do ressecamento do nariz. Mas, sem conseguir me comunicar adequadamente, não consegui avançar naquela situação. Foi mais uma experiência que me mostrou como a barreira linguística pode afetar até mesmo necessidades básicas do cotidiano. Quando estamos em nosso próprio país, raramente pensamos no quanto dependemos da comunicação para resolver pequenos problemas. Mas, quando estamos em uma cultura diferente, percebemos que não basta saber o que precisamos: também precisamos conseguir explicar isso de uma maneira que a outra pessoa compreenda.

E, finalmente, um lámen!

Depois de um dia cheio de tentativas, caminhadas e dificuldades de comunicação, chegou a hora do jantar. E adivinhem? Mais uma vez, precisei de ajuda para conseguir pedir minha refeição. Dessa vez, um americano me ajudou a fazer o pedido de lámen, um prato japonês muito conhecido, composto geralmente por macarrão servido em um caldo, acompanhado de diferentes ingredientes. Finalmente consegui jantar!

Pode parecer uma sequência de situações corriqueiras, mas, para quem está longe de casa, elas podem se tornar experiências bastante cansativas. Principalmente quando você precisa resolver tudo sozinho, em um idioma que não domina. Naquele dia, senti na prática a diferença entre conhecer um país como turista e precisar lidar com as demandas reais da vida cotidiana.

Uma coisa é visitar os pontos turísticos, tirar fotografias e admirar a paisagem. Outra é precisar lavar roupas, encontrar comida, comprar um produto na farmácia e resolver um imprevisto com a bagagem. É nessa segunda parte que a experiência internacional realmente nos desafia.

O que tenho aprendido com as dificuldades

Ao olhar para essas experiências, percebo que a viagem missionária também é feita de situações que não aparecem nos registros mais bonitos. Existe a mala que quebra, a lavanderia que você não consegue utilizar, o restaurante cujo cardápio não entende e a necessidade de pedir ajuda quando você não consegue resolver algo sozinho.

E tudo isso faz parte da experiência. Tenho aprendido que estar em outro país exige flexibilidade. Nem sempre conseguiremos fazer as coisas da maneira que planejamos, e nem sempre encontraremos alguém que fale o nosso idioma ou consiga nos ajudar imediatamente. Também tenho aprendido a valorizar as pessoas que aparecem no caminho e estendem a mão. Naquele dia, por exemplo, o americano que me ajudou a pedir o jantar tornou uma situação difícil muito mais simples. Pequenas atitudes fazem diferença quando estamos longe de casa.

E existe outra lição importante: precisamos aprender a continuar mesmo quando as coisas não acontecem como esperamos.

Não estou no Japão apenas para viver experiências agradáveis. Estou aqui para servir, aprender e crescer. E esse crescimento também acontece quando preciso sair da minha zona de conforto, enfrentar dificuldades e encontrar soluções para problemas que nunca imaginei que enfrentaria. Sei que ainda tenho muito a aprender sobre a língua, a cultura e a rotina japonesa. Mas cada desafio tem ampliado minha percepção e me ensinado a lidar melhor com situações inesperadas.

Nem tudo são flores, mas a jornada continua!

Compartilho essas experiências porque acredito que um diário de bordo precisa mostrar a viagem como ela realmente é. Não quero registrar apenas os momentos bonitos, os cultos, as ministrações e as experiências extraordinárias. Quero também contar o que acontece nos bastidores, aquilo que me desafia e as situações que me fazem aprender na prática.

Afinal, uma viagem missionária não é feita somente dos momentos em que estamos diante de uma igreja ou participando de uma atividade evangelística. Ela também acontece nas ruas, nas estações, nas lavanderias, nos restaurantes e nas pequenas decisões do dia a dia. E, entre uma roda de mala quebrada, seis quilômetros caminhando com roupas para lavar e um jantar que só aconteceu porque alguém me ajudou a fazer o pedido, sigo aprendendo a me adaptar a essa nova realidade.

Nem tudo são flores, mas cada experiência tem algo a me ensinar. E sigo em frente, com o coração disposto a servir e com a certeza de que ainda há muito para viver nesta jornada pelo Japão!

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