Em tempos de pandemia, muitas pessoas estão ansiosas, inquietas, estressadas e relatam dificuldades para dormir e sono de má qualidade. Não só no Brasil, mas em diversos lugares do mundo, a exemplo da China, a situação tem se repetido. Inclusive, os relatos incluem a ocorrência de sonhos ruins durante o sono. Tal fato é tão relevante que tem despertado a atenção da mídia nacional, fazendo com que emissoras de TV reservem tempo, em programas no horário nobre, para discutirem sobre o assunto.

Recentemente, as queixas sobre ansiedade e níveis de estresse têm aumentado entre a população nesta época de isolamento social. Essas queixas podem alterar a qualidade do sono?
Além da ansiedade e do estresse, há também outros fatores que contribuem para alterações na qualidade do sono, como por exemplo: dormir pouco, que pode acarretar o desenvolvimento de sinais de ansiedade no dia a dia. Observamos então, literalmente, que existem os fatores causais, ou seja, aqueles que geram um problema (sono de má qualidade) e o problema em si, aumentando os fatores causais (ansiedade, inquietação e outros), em um modo contínuo que traz muitos prejuízos para todo o organismo.
Adicionalmente aos fatores emocionais envolvidos com a questão da pandemia COVID-19, destacamos alguns outros fatores que também podem alterar o sono, que são: a insônia, a apneia do sono, a privação do sono e uma higiene do sono inadequada.
O que caracteriza a insônia, apneia e privação do sono e a higiene inadequada e quais as principais causas?
A insônia pode ser definida como um distúrbio comportamental do sono que se caracteriza pela dificuldade de começar a dormir, manter-se dormindo ou acordar antes do horário desejado. A apneia do sono é um distúrbio respiratório do sono onde, por diversos fatores, o indivíduo tem dificuldade de manter uma respiração adequada durante o sono, acarretando a queda da oxigenação em períodos intermitentes. A privação do sono, que também é um distúrbio comportamental do sono, diz respeito a dormir menos horas do que seria necessário para o descanso e restabelecimento adequado do corpo e da mente. E, por sua vez, uma higiene do sono inadequada diz respeito a não nos preparamos e não preparar um ambiente saudável e propício para o sono de boa qualidade.
Anteriormente, a senhora disse que a má qualidade de sono pode afetar todo o organismo, de que forma?
Independente da causa, um sono alterado, de má qualidade, pode trazer graves consequências à saúde, desde prejuízos à memória e aprendizado, redução da atenção e até o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e metabólicas. O sono inadequado também interfere na nossa saúde mental, amplificando a reatividade emocional básica e assim contribuindo para os estados negativos de humor. Também é importante lembrar que existe uma relação direta entre sono e imunidade. Pesquisas mostram que alterações na qualidade e tempo de sono podem alterar o equilíbrio do nosso sistema imunológico, nos deixando mais vulneráveis a agentes infecciosos.
Como podemos identificar se possuímos algum distúrbio do sono?
Atualmente existem medidas eficazes para promover um sono saudável e vários profissionais fazem parte da equipe de saúde que atua na área do sono com este objetivo. Uma avaliação adequada do seu sono e medidas terapêuticas bem direcionadas irão ajudar você a ter um sono saudável e reparador.
Caso você esteja observando dificuldades em relação ao seu sono não deixe de procurar ajuda! E procure também constituir hábitos de higiene do sono que irão ajudá-lo, principalmente, neste momento que estamos mais em casa, com uma rotina muito diferente da usual.
Quais seriam esses hábitos de higiene e como desenvolvê-los?
Estabeleça horários de acordar e dormir semelhantes ao longo da semana. A exposição diária a luz solar, mesmo que seja na janela ou varanda, é muito benéfica para a nossa saúde. Evite a exposição à luz branca ou azul durante a noite, como a luz de eletroeletrônicos (celular, tablet, televisão e outros) e lâmpadas frias. Isto facilitará com que o hormônio que nos prepara para dormir (melatonina) e o hormônio que nos prepara para a disposição para acordar (cortisol) funcionem de maneira adequada.
Uma alimentação leve de noite e de fácil digestão, não muito próxima da hora de dormir, assim como evitar bebidas alcoólicas ou que contenham cafeína, a leitura de um bom livro ou um bom banho quente também podem ajudar a iniciar uma noite de sono de forma mais tranquila e a ter um sono de melhor qualidade.
Com o consultório fechado, devido à pandemia, a senhora tem utilizado suas redes sociais para falar sobre a saúde do sono. O que motivou essa iniciativa?
O que me motiva é compartilhar o conhecimento, quando as pessoas têm as informações corretas, elas começam a lidar melhor com as situações. Quando conhecem o que está acontecendo, as repercussões de uma noite de sono mal dormida elas começam a ficar mais atentas com a saúde. Interessante que muitas delas acreditam que não dormir bem é normal, outras acreditam que não têm problema de sono, porque onde chegam e se encostam adormecem, e isso já reflete um problema de sono, pois quer dizer que você não está dormindo bem à noite.
Então, as videoconferências, as lives, os e-mails que temos enviado tem sido com o intuito de informar e de prestar assistência aos nossos pacientes, bem como informar as pessoas em geral sobre o assunto.
Quem quiser conhecer mais sobre o assunto, como deve proceder?
Quem tiver alguma dúvida relacionada ao seu sono entre em contato conosco pois teremos enorme alegria em pode ajudar. Neste momento de quadro epidemiológico mundial e em acordo com as atuais normativas sanitárias de prevenção de contaminação estamos disponíveis para uma conversa amiga, esclarecimentos ou informações pelos sistemas remotos (WhatsApp, Skype e telefone: +55 11 98651-8023) e ainda no site da ATERPO.
Mas temos certeza de que tudo ficará bem e de que em breve poderemos nos encontrar!
SOBRE A ENTREVISTADA

Ela atua com a Dra. Vivien Schmeling Piccin, Fisioterapeuta com Especialização em Fisioterapia Respiratória pelo ICHC-FMUSP, Doutora em Ciências pelo Departamento de Patologia – FMUSP e Pós-Doutora pelo Laboratório do Sono do InCor-FMUSP. Ambas atendem na clínica ATERPO, São Paulo (SP).






