
Os cristãos acreditam que Deus tem poder para curar qualquer doença. Mas por que muitos deixam para buscá-lO somente depois de recorrer a medicamentos e profissionais de saúde, sem obter os resultados esperados? A partir de que momento de uma enfermidade os recursos divinos para a cura devem ser considerados? Qual deve ser a prioridade: o poder de Deus ou a medicina?
Para esclarecer essas questões, a reportagem apresenta o parecer de Edgley Lacerda, pastor da Igreja Verbo da Vida em Boa Viagem, Recife (PE), e reconhecido cirurgião ortopedista. Ele aborda o assunto a partir da perspectiva profissional e cristã.
MEDICINA E PASTOREIO

Edgley contou que, desde a infância, sempre quis ser médico. Esse desejo também foi influenciado pela família, pois seus pais e vários tios eram médicos. Assim, cresceu em hospitais, consultórios e em meio a relatos sobre cirurgias e pacientes. O ministro comentou que nunca se imaginou fazendo outra coisa. Ele também destacou que se converteu antes de ingressar no curso de Medicina, mas ainda lhe faltava firmeza de propósito em Deus.
A convicção do chamado amadureceu ao longo da faculdade e ajudou a forjar a sua identidade. “A formação médica e o amadurecimento do chamado pastoral aconteceram juntos. Isso me ajudou a viver essa bivocação sem dividir quem sou entre o trabalho secular e o sacerdotal”, explicou.

Para Edgley, compreender a doença e sua origem foi um dos grandes desafios de sua formação. Ele afirmou que, para quem é especialista no assunto, muitas vezes é mais difícil crer em uma solução sobrenatural. Talvez por isso essas experiências sejam tão marcantes. No entanto, revelou que Deus é uma constante em seu trabalho. “Aprendi a depender d’Ele em tudo, inclusive naquilo em que já estou bem treinado para fazer. Aplico o que aprendi e continuo crendo que Deus pode produzir resultados sobrenaturais por meio do que aprendi naturalmente”.
SÁBIOS CONSELHOS



Ao ser questionado sobre como concilia sua atuação como médico e pastor durante os atendimentos, Edgley respondeu prontamente. “O lugar onde sou procurado orienta o meu aconselhamento. Se você me procura no consultório, falo principalmente como médico, sobre o diagnóstico e as perspectivas de tratamento. Mas se me procura no gabinete pastoral, falo da Bíblia e da obra redentora de Cristo. Costumo resumir assim”.
Ele acrescentou: No hospital, você sai com uma receita. Na igreja, com uma oração. Em ambos os casos, respeito a expectativa de quem me procura”. Edgley também reconheceu que é impossível separar completamente essas duas vocações. “Sempre vai existir um pastor no hospital e um médico na igreja. Algo de cada um acaba aparecendo naquilo que eu falo”.
“E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades. Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mateus 9:35-36).
DEUS DEVE SER A PRIMEIRA OPÇÃO

O médico e pastor também esclareceu a dúvida sobre a quem recorrer primeiro diante de uma enfermidade. Em seguida, apresentou seus argumentos: “Acho curioso quando alguém diz: ‘Fizemos tudo o que era possível. Agora, só Deus!’. Essa fala parece equilibrada, mas coloca Deus no fim da jornada. Mas Ele precisa ser sempre a nossa primeira opção. A partir dessa confiança n’Ele, o caminho da cura pode passar pelo auxílio de profissionais e pelos tratamentos que temos à disposição”.
Edgley ainda detalhou: “O conhecimento médico ajuda muito. Em muitos casos, o tratamento cria condições favoráveis para que o próprio corpo reaja, e essa resposta faz parte da recuperação. Como cristão, creio que o Espírito Santo que habita em nós vivifica o nosso corpo mortal. Pela fé, partimos de quem somos em Cristo e cremos que aquilo que Ele conquistou na redenção pode se manifestar em nós”.
Como médico, Edgley mantém uma postura profissional, mas explicou que o chamado de Deus molda sua identidade e transborda em todos os ambientes por onde passa. “No hospital, é comum me chamarem de ‘o pastor’. De algum modo, isso faz com que pessoas que buscam o Senhor se sintam à vontade para conversar comigo”, afirmou.

Ele também explicou que, por conta da sua fé, quando a medicina chega ao limite do que pode oferecer em termos de cura, ele ainda pode cuidar, ouvir e estar presente. Nesses momentos de fragilidade, mundos se cruzam. “Eu ouço o que o paciente está vivendo e, quando ele demonstra abertura, compartilho o que é verdade em mim. Posso falar do que creio e encorajá-lo a buscar a Deus, sempre respeitando suas convicções e o contexto do atendimento”.
O CRIADOR TEM A PALAVRA FINAL

Com relação à insegurança por parte dos enfermos, devido à falta do entendimento sobre a medicina ou desconhecimento do agir de Deus, Edgley orientou: “Buscar atendimento quando necessário e usar um medicamento quando indicado são atitudes que podem caminhar junto com a fé. Costumo dizer que é melhor crer sem dor. Posso receber o alívio que o tratamento oferece e continuar firmando a minha confiança n’Aquele que continua a curar”.
Ele também afirmou que, como médico, precisa ser claro sobre o diagnóstico, propor tratamentos baseados em evidências e falar com honestidade sobre os resultados que pode esperar. Dessa forma, prometer cura ultrapassa esse limite. “Posso manter essa responsabilidade profissional e, ao mesmo tempo, estar cheio de esperança. A minha vida com o Senhor me ensina muito sobre isso. A esperança é o alvo da nossa fé”.

Edgley comentou que já esteve diante de muitos casos que reconhece como milagres de Deus. Essas experiências são tão presentes em sua vida que, segundo ele, fica difícil escolher apenas uma para contar. “Escolher viver atento aos milagres de Deus a cada dia tem me transformado profundamente. Talvez eu mesmo seja o maior desses milagres. Deus me salvou do orgulho do conhecimento e da arrogância do saber, e continua me fazendo uma pessoa melhor a cada dia”, completou.
Acerca de quem tem a palavra final, Edgley foi taxativo: “Tenho por certo que o Criador tem a palavra final. A medicina oferece soluções e, a cada avanço, levanta novas perguntas. Em algumas áreas, já conseguimos fazer uma diferença enorme na vida das pessoas. Em outras, ainda estamos longe de encontrar respostas”. Ele finalizou: “Uma coisa tenho por certo. Deus está profundamente comprometido com a cura. Isso fica claro na vida de Jesus, que, movido de compaixão, dedicou parte significativa do seu ministério a curar os enfermos e, assim, manifestar a vontade do Pai”.
“Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (Atos 10:38).
OUTROS PARECERES
Alguns profissionais da Medicina que também são cristãos compartilharam seus pontos de vista sobre a pergunta que norteia esta matéria: “Cura divina e medicina: quem tem a palavra final?”. Confira as respostas a seguir.

“A medicina está dentro da cura divina. O paciente pode ser curado divinamente através de intervenções médicas, seja por cirurgias ou medicamentos, ou a cura divina sem intervenções médicas. Porém, na minha prática de neurocirurgião médico, o que mais vejo é cura divina se manifestar pelo articular da Palavra com a ação médica. Como diria o Irmão Hagin, ‘o extraordinário (ou o milagroso) acontece quando você junta o natural com o sobrenatural’. Por isso, creio que a medicina está dentro da cura divina, e isso sim sempre terá a palavra final!” (Artur Bastos Rocha – neurocirurgião).

“A Palavra final quem teve, tem e terá é o Senhor! Sabemos que somos capacitados para administrar protocolos que a medicina estabelece, mas que acima de tudo são funcionais mediante a vontade divina! Deus é tão bom que nos permite viver como queremos, mas Ele é tão justo que nos faz ter o destino que plantamos” (Matheus Tavares – clínico geral).

“O plano original de Deus transmitido no novo nascimento é a saúde divina, como mais um presente entre outros que seguem o ato da salvação. Porém, como alternativa para preservar a humanidade criada por Ele, e tão amada, entra a cura divina como alternativa de amor e fé para alcançar a todos e garantir o cumprimento dos planos e propósitos divinos, alcançando aos necessitados com restauração física, emocional e espiritual. A medicina, por outro lado, é uma área do saber terreno compromissada com a cura natural e humana. Porém, com restrições, por desconhecimento de doenças que não se conhece tratamentos, ou por tratamentos que servem parcialmente ou temporariamente nas resoluções, poucos têm curas definitivas. A medicina é um importante recurso e talento humano, porém, com muitas limitações. A cura divina, por sua vez é sobrenatural e já foi estabelecida por Deus na Sua Palavra” (Ionilde Oliveira – clínica médica).

“A cura divina e a medicina não são excludentes, mas complementares. Contudo, a palavra final é sempre de Deus, pois a ciência humana, quando desprovida da fé na cura divina e no poder soberano do Criador, limita-se a tratamentos paliativos e deixa de alcançar a verdadeira e integral restauração dos pacientes. Tenho vários exemplos de pacientes que a ciência me dizia que era de prognóstico ruim, chance altíssima de morrer, e ficaram curados. Até hoje não sei explicar. Como também há pacientes com doença inicial, que não tiveram fé na cura, e rapidamente a doença progrediu e morreram” (Gilney Porto – cirurgião de cabeça e pescoço).

“O impacto da fé (mencionada como ‘espiritualidade’) no desfecho de pacientes graves, já foi demonstrado em diversos estudos baseados em evidências científicas. Deixando claro que isso não significa sermos contrários aos tratamentos necessários, mas de ter em Cristo, Aquele que cura, a plena confiança. Na minha subespecialidade médica, Ginecologia e Obstetrícia, assisto todos os dias milagres e a certeza irrefutável de que, sim, a última palavra é a de Deus” (Rafaela Guedes – ginecologista e obstetra).















