Janielle Medeiros
Graduada da Escola de Ministros Rhema
em Recife-PE

 “Jesus prosseguiu viagem e entrou numa cidade. Uma mulher chamada Marta o recebeu em casa, deixando-o bem à vontade. Era irmã de Maria, que se assentou aos pés do Mestre e ouviu atenta a tudo que ele dizia, enquanto Marta estava ocupada com os afazeres na cozinha. Algum tempo depois, ela os interrompeu: ‘Mestre, o senhor não se incomoda em saber que minha irmã deixou todo o trabalho da cozinha para mim? Mande-a me ajudar!’. Ele respondeu: ‘Minha querida Marta, você está fazendo tempestade em copo d’água. Está se preocupando à toa. Só uma coisa importa, e Maria a escolheu. É o prato principal. Não vou tirar isso dela’” (Lucas 10.38-40 ) versão A Mensagem .

Posturas definem destinos! Vemos aqui uma história bem conhecida e igualmente interessante. Duas irmãs, a mesma oportunidade e posturas diferentes. Marta, recebe aquele que é Fonte da Vida, o próprio Amor, e se ocupa em servi-lO, nesse caso, em cozinhar algo para agradá-lO, dando o seu melhor. Estar com Ele não era a sua prioridade nesse contexto. Já Maria, priorizou Ele e foi esperta o suficiente para aproveitar a oportunidade ímpar de estar com o Mestre ali em sua casa. Ela permaneceu ali tempo suficiente para despertar incômodo na sua irmã, pela má opção que Marta tinha feito.

Maria talvez tenha sido tentada a ir ajudar a irmã, para que não fosse mal interpretada por não estar auxiliando-a, mas o fato é que ela entendia que precisava estar ali, que era humana e, portanto necessitava receber do próprio Amor, arejar suas emoções com as palavras que Jesus falava para ela. Ela estava bebendo da Fonte da Vida. E isso era tudo que importava naquele momento, pois ela entendia que sua reputação não era mais importante que a sua necessidade crucial. Jesus se referiu àquele momento, como o prato principal, como a versão A Mensagem, nos mostra.

Quantos de nós temos agido como Marta, andando em desequilíbrio, emocionalmente cansados, sobrecarregados com problemas que muitas vezes nem são nossos, tentando impressionar a nós, aos outros, ao próprio Deus, como nossa performance, com coisas lícitas, como o trabalho. Joyce Meyer1 fala que se nos sentimos culpados enquanto descansamos, mostra uma compulsão pelo trabalho, como se o trabalho fosse a única coisa que Deus valoriza. E acrescenta: “Ser um prazer para as outras pessoas pode roubar de nós a nossa intimidade com Espírito de Deus. Precisamos trabalhar sabendo quem somos, e não para descobrir quem somos.” Precisamos nos precaver para não sucumbir às nossas emoções, somente reestruturadas na presença d’Ele, pois, no final, a responsabilidade de estar com Ele ou não, será sempre nossa, pois é uma escolha!

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”
(
Mateus 11:28-30).

Na verdade, não importa que tipo de atividade exerçamos no nosso dia a dia, do nosso cargo, status ou posição, todos nós somos seres humanos e precisamos todos da mesma coisa: ser amados incondicionalmente, ser aceitos e ter nosso valor afirmado através de nosso relacionamento com Cristo. Ele é a videira; nós os ramos que se alimentam da seiva que flui através d’Ele. Para isso acontecer, chegar ao nosso espírito, nossa alma, emoções, razões, intelecto, precisa dar o sinal verde e permitir, mas é crescente o aumento de distúrbios mentais em todo o mundo.

A depressão é um transtorno mental que produz alterações do humor caracterizadas por uma tristeza profunda, relacionada com sentimentos de dor, baixa autoestima, distúrbios do sono e apetite e até falta de concentração, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS). Alarmante, essa doença tem comprometido relacionamentos, produtividade pessoal e profissional e, muitas vezes, levado pessoas a tirarem suas próprias vidas, em seu grau mais severo. Todos conhecemos alguém que já sofreu ou sofre desse problema. Não é à toa que é considerada o mal do século.

Em todo o mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno, embora os jovens sejam seu público alvo. O Brasil é o oitavo país no mundo em número de suicídios, 800 mil pessoas por ano em todo o mundo, 11,5 milhões brasileiros e mais de 18,6 milhões de pessoas (9,3% da população brasileira) sofrem com problemas relacionados à ansiedade – Organização Pan Americana de Saúde (OPAS). Isso é um quadro alarmante! A fim de alertar a população para o tema, o Ministério da Saúde do Brasil promove, desde 2015,o Setembro Amarelo, para chamar a atenção da população e alertar para o fato do suicídio não ser a solução de seus problemas.

“Suicídio não acaba com as chances de ficar pior: só elimina as chances de melhorar! Suicídio é uma decisão permanente para um problema provisório. Quem se mata, morre uma vez, mas mata inúmeras vezes aqueles que ficam, e que revivem a tragédia e tentam entender o porquê.”  Edilson de Lira

Ninguém está imune a depressão! Tem aumentado o número de suicídios entre pastores, e isso tem um impacto avassalador para quem fica, em especial, seus liderados. O Instituto Francis Schaeffer 2 traz uma estatística alarmante sobre o tema entre os pastores: cerca de 35% dos pastores lutam constantemente contra a depressão, 43% se dizem estressados, 34% sentem-se “sempre desencorajados”, 24% acham que seu trabalho tem efeito negativo na família e 58% dizem não ter amigos bons e verdadeiros. Cinquenta por cento lidam com algum problema de saúde, e mais da metade (52%) sentem-se incapazes de satisfazer as expectativas da igreja. Essa realidade é triste e muito cruel!

É verdade que a pressão sobre um líder é muito maior, mas existe maior graça. Quando um líder é atingido, as pessoas que dependem dele também o são, por tabela. Essa estratégia do diabo é explícita e não é novidade. Vou trazer um exemplo com o vírus do HIV. Sabemos que toda doença vem da mesma origem, que não é Deus. O vírus do HIV liga-se (como um encaixe de quebra-cabeça) a um receptor na superfície do linfócito CD4 (peça chave na defesa imunológica do organismo), pois essa célula dá o comando para expansão de duas outras células, o linfócito B e o linfócito T CD8, responsável por produzir anticorpos para neutralizar o vírus e por combater diretamente as células infectadas, respectivamente 3. Uma vez que o vírus ataca o linfócito “líder” CD4, todos os outros linfócitos submetidos a ele ficam inertes e sem função e a doença se alastra com as consequências que já sabemos. Por isso, é muito mais estratégico destruir o líder! (The Well Project, 2019).

A carta de 1 Pedro 5.8 nos fala que o diabo, nosso diabo, anda buscando brechas onde algo foi violado em nossa vida, para nos alcançar e tragar por completo. Exatamente como o vírus do HIV age no organismo, nas células que infecta. Rick Rhenner explica que, no original grego, o significado da palavra “tragar” ou katapinõ (kata “para baixo” e pinõ “beber”) poderia ser representada por um leão que bebe o que sobrou das vísceras de sua presa dilaceradas pela sua fome e fúria. Na analogia com o linfócito CD4 acima explicado, essas brechas poderiam ser representadas pelos receptores CD4 que dão acesso ao vírus, ao interior da célula, assim como assuntos mal resolvidos em nossa alma são o acesso ao diabo, para o começo do nosso fim. Toda depressão que culmina em suicídio começa por um pequeno acesso que damos, conscientes ou não.

Todos precisamos fechar as brechas da alma, em especial, quem é líder. Guardem seu coração, protejam suas emoções n’Ele, e impeçam que o “vírus da depressão” se ligue as suas fragilidades e tenha acesso a sua alma, criando nela uma casca impenetrável ao agir do Espírito de Deus. Recentemente, um jovem pastor dos EUA, líder influente que ajudava pessoas com depressão e pensamentos suicidas, acabou tirando sua própria vida. Imagina como isso é devastador para as pessoas que ele auxiliava com esse problema! Se a pessoa que te trazia esperança sucumbiu no problema, qual a esperança e força que restou para eles? É disso que falo!

Pastores também são humanos, portanto, sujeitos aos mesmos problemas. E muitos esquecem disso e se perdem do seu propósito em sua jornada, tentando ajudar a outros. Não sabem fazer o caminho de volta (a si mesmos)! Talvez se percam em meio a tantos gritos das almas de quem cuidam e acumulam problemas em “juros compostos”.

“Vinde a Mim…” e deixe Minha presença molhar suas emoções”. (parafraseando)

Líderes, cuidem-se! É necessário não apenas falar d’Ele, mas reaprender a ir até Ele e receber do Amor que venceu a morte. O Ajudador, que nos guia em toda a verdade, sempre saberá nos conduzir ao caminho de volta, segurando firmemente em nossa mão (Isaías 41.10).

Líder, seja forte e corajoso, não tome isso como um peso, mas como uma motivação extra, para crer e se deixar ser conduzido pelo Espírito de Deus ao local de ajustes em sua alma, como um “pit stop” espiritual. Permita-se ser confrontado com si mesmo (sim, isso dói, mas é libertador e necessário), enfrente seus medos, assuma suas fragilidades, libere perdão (comece por você!), arrependa-se, restaure seus relacionamentos e feche as brechas que os tornam vulneráveis aos ataques do diabo. Deixe cair toda casca em sua alma, que te impede de seguir sua jornada de forma livre e feliz. Não tenha medo de admitir para si mesmo que você é humano, porque afinal, heróis também sangram, não é mesmo?

Referências:

  1. Joyce Meyer- Obstáculos na Busca de Deus (https://www.youtube.com/watch?v=7O-ZqKo_gSQ&t=580s)
  2. Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) e Organização Mundial da Saúde (OMS) – https://www.paho.org/bra
  3. Instituto Francis Schaeffer (http://files.stablerack.com/webfiles/71795/pastorsstatWP2016.pdf / https://www.portalraizes.com/augusto-cury-depressao-cristaos/)
  4. Portal da Educação (https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/farmacia/dinamica-da-integracao-entre-sistema-imunologico-e-o-hiv/44791#

1 Comentário

  • Olá, estou escrevendo como forma de agradecimento. Atualmente eu e meu esposo estamos liderando um departamento em nossa igreja e queremos agradecer por esse texto tão precioso que edificou as nossas vidas. De fato palavras de encorajamento, de sabedoria e cheias de amor!
    Leiam e sejam edificados.

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