Jesus: expectativas e realidade

Vale a pergunta: que Jesus cada um carrega no coração? É possível servir a um Jesus idealizado, moldado pelas próprias expectativas, em vez do Jesus revelado nas Escrituras.
Nick Moretti
Nick Moretti
Líder de adolescentes na Igreja Zion em São Paulo (SP)

Vamos fazer uma jornada pelo tempo de pentecostes.

“E aconteceu que, ao terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e um sonido de buzina mui forte, de maneira que estremeceu todo o povo que estava no arraial. E todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; e a sua fumaça subia como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente” (Êxodo 19.16,18).

No terceiro dia após a chegada do povo ao monte Sinai, o Céu se manifesta de um jeito que ninguém ali esqueceria: trovões, relâmpagos, nuvens espessas e o som de uma trombeta tão forte que sacode todo o acampamento. Não é só a descrição de um fenômeno natural. É Deus falando por símbolo, ensinando um povo inteiro de um jeito que marcaria a memória coletiva dali para frente.

Vale reparar em um paralelo direto com a igreja primitiva. Um grupo de discípulos reunido em oração, sabendo que algo decisivo havia ocorrido três dias antes. No meio da oração, vem um som forte, como de vento impetuoso, e línguas como que de fogo pousam sobre a cabeça de cada um. O Pentecostes funciona como espelho profético de Shavuot: primeiro o som, depois o fogo, e no centro dos dois episódios, uma identidade sendo formada.

UM POVO, UMA CULTURA

Para que um grupo de pessoas se torne, de fato, um povo, costuma bastar um entre três elementos: uma língua em comum, um território em comum ou uma cultura em comum. O povo judeu atravessou mais de dois mil anos de dispersão, sem território fixo e sem uma língua unificada em toda parte, e ainda assim permaneceu como povo. O que o manteve unido foi a cultura, um código de identidade recebido em Sinai que estabelecia uma forma própria de agir, pensar e viver, diferente das demais nações. Esse código vinha por meio da lei.

Vale a pena notar que o mesmo princípio se repete em quem nasce de novo em Cristo. Paulo escreve aos efésios, e reforça depois aos filipenses, que o crente se torna concidadão do Reino de Deus. Ao nascer de novo, a pessoa recebe uma nova nacionalidade, e essa nacionalidade não está presa a nenhuma língua nem a nenhum território específico. Ela está enraizada na cultura do Reino dos Céus. Receber uma identidade nova significa também receber um destino novo, o que exige deixar para trás, na cultura de origem, tudo o que não combina mais com os valores do Reino.

GUIADOS PELO ESPÍRITO

Falta, no entanto, uma convicção mais firme a respeito dessa identidade. Existe na tradição judaica uma palavra: rutzpah, usada para descrever a determinação de ser, até o fim, exatamente quem se nasceu para ser. Em Shavuot, o povo se tornava parte de uma nação porque seguia um conjunto de leis. No Pentecostes, o crente se torna parte desse povo não porque segue um livro externo, mas porque esse livro passa a viver dentro dele. Já não se é guiado pela lei escrita, mas pelo Espírito, e isso deveria produzir uma justiça ainda maior do que a de quem apenas observa regras. É o que Jesus ensina no Sermão do Monte, ao afirmar que a justiça de seus seguidores deveria exceder a dos fariseus.

QUANDO A FÉ VIRA ROTINA

Existe um risco real quando a fé cristã deixa de ser experiência de minoria perseguida e passa a ser aceita pela maioria. Quando não se é mais estranho ou perseguido por causa da fé, é possível perder também a urgência espiritual que sustentava gerações anteriores. Ganha-se visibilidade, mas nem sempre se ganha profundidade junto. Um jejum cumprido por hábito, uma leitura bíblica feita apenas por disciplina externa, um culto frequentado por rotina, tudo isso pode conviver com um coração distante. O chamado, nesses casos, não é apenas para orar por vitória, mas para morrer para aquilo que já deveria ter morrido.

O JESUS QUE ESPERAMOS E O JESUS QUE EXISTE

O relato dos discípulos no caminho de Emaús, em Lucas 24, ilustra bem esse risco. Jesus já havia ressuscitado, mas dois discípulos caminhavam tristes e desanimados, sem reconhecê-lO ao lado deles. Ao serem questionados sobre o motivo da tristeza, respondem:

“E nós esperávamos que fosse ele quem havia de remir Israel; mas agora, além de tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram” (Lucas 24.21).

Eles reclamam de Jesus para o próprio Jesus, sem perceber que Ele caminhava ao lado deles.

Essa fala revela algo importante: os discípulos nunca esperaram um salvador puramente espiritual. Jesus era reconhecido como descendente de Davi, e Davi não foi rei filósofo nem rei poeta, mas rei guerreiro, que expandiu Israel pela força. A expectativa popular era de um libertador que romperia o domínio estrangeiro, um Messias guerreiro. Por isso, quando os discípulos de João Batista, ligados à tradição essênia e dedicados à oração, ao jejum e ao cuidado dos pobres e enfermos, perguntam a Jesus sobre a prisão de João, a resposta dele é reveladora: os cegos veem, os coxos andam, os pobres recebem a boa nova. Jesus está dizendo que as orações daquele grupo estavam sendo respondidas, mesmo que não da forma esperada.

QUAL JESUS VOCÊ CARREGA CONSIGO?

Vale a pergunta: que Jesus cada um carrega no coração? É possível servir a um Jesus idealizado, moldado pelas próprias expectativas, em vez do Jesus revelado nas Escrituras. Esse Jesus inventado costuma ser reduzido a alguém que apenas realiza desejos, sem nunca confrontar, sem nunca exigir mudança. Mas o mesmo Jesus que salva também julgará, e sua misericórdia não anula sua justiça. Não há espaço, no Evangelho, para uma fé em que ninguém é confrontado e todo desejo pessoal é automaticamente validado.

A disputa entre os discípulos sobre quem seria o maior no Reino, e o pedido da mãe de dois deles para que se sentassem em lugares de destaque, mostram que a mesma lógica de poder e território movia o grupo mais próximo de Jesus. A expectativa de conquista era tão concreta que, na última ceia, os discípulos afirmam já possuir espadas, e no momento da prisão, no Getsêmani, um deles chega a golpear um soldado. Jesus repreende essa reação e explica que sua missão não era vencer pela força, mas entregar a própria vida. Quando alguém constrói, na mente, um Jesus que precisa agir conforme seus planos, corre o risco de estar mais alinhado com uma lógica contrária à de Deus do que imagina.

BARRABÁS: FILHO DE UM PAI

O julgamento diante de Pilatos traz um símbolo profético pouco percebido. Ao lado de Jesus, é apresentado ao povo um zelote, membro de um grupo paramilitar judeu que acreditava que o Messias viria à frente de um exército. O nome desse homem, Barrabás, é formado por duas partes: “bar”, que significa filho de, e “abba”, que significa pai. Barrabás significa, portanto, filho de um pai. Diante da escolha entre os dois, Jesus troca de lugar com todo aquele que é filho de um pai, ainda que a multidão, mesmo diante desse símbolo, não o tenha reconhecido.

OLHOS ABERTOS PARA A VERDADE

De volta ao episódio de Emaús, depois que Jesus expõe as Escrituras aos dois discípulos, eles insistem para que Ele fique:

“Chegaram à aldeia para onde iam, e ele fez como quem ia para mais longe. Eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declina o dia. E entrou para ficar com eles” (Lucas 24.28-29).

“E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão, o abençoou, e, partindo-o, lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram; e ele desapareceu de diante deles. E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, ele nos falava, e quando nos abria as Escrituras?” (Lucas 24.32).

Mais adiante, o texto acrescenta:

“Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lucas 24:45).

A palavra grega usada nessa passagem, “dianoigo”, carrega o sentido de revelar algo escondido, trazer à luz o que antes não podia ser visto. É a mesma experiência de ler um texto bíblico já conhecido e, de repente, ele deixar de ser apenas informação e se tornar revelação viva, ou de cantar um louvor repetidas vezes e, em determinado momento, aquela letra deixar de ser apenas som e se tornar verdade proclamada.

Essa abertura de olhos não deve ser buscada apenas como motivação passageira, mas como expectativa constante. É possível estar fisicamente presente em um culto, cantando e levantando as mãos, sem verdadeiramente ter contato com a presença de Deus. É possível também se acostumar de tal forma com os privilégios da fé, com estrutura, conforto e recursos que gerações anteriores não tiveram, que se perde a consciência de que tudo isso é graça, e se deixa de sentir o peso da própria vocação.

UMA CONVOCAÇÃO PARA A INDIGNAÇÃO

A carta de João aos jovens afirma que eles são fortes e já venceram o maligno. É uma convocação, não um elogio de participação. Uma geração pode caminhar sobre o terreno que outra conquistou sem construir nada de novo para a seguinte, se faltar essa convicção. O maior risco não está na geração presente, mas na possibilidade de que a próxima cresça sem a mesma fome espiritual.

Fica então o convite: que a experiência de adoração e de estudo da Palavra não termine apenas em emoção momentânea, mas produza indignação diante de tudo o que desonra o nome de Cristo, e resulte em disposição concreta para servir, para ir, e para viver de forma coerente com a nova identidade recebida em Cristo.

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