
Professor do Centro de Treinamento Bíblico Rhema
Quando olhamos para as Sagradas Escrituras, especialmente para o texto de Jeremias 1.5, fica evidente que cada um de nós nasceu com um propósito. Fomos chamados desde o ventre. Há uma designação da parte do Senhor, um ofício, uma missão. E a pergunta que precisa ecoar em nosso coração é simples: como estamos administrando aquilo que Deus nos confiou?
Em Mateus 25, a partir do versículo 14, Jesus apresenta a conhecida parábola dos talentos, inserida no contexto do sermão profético sobre sua volta. Embora muitos enxerguem ali apenas um anúncio do retorno de Cristo, o foco central da passagem é outro: existe um modo pelo qual o Senhor espera que vivamos enquanto aguardamos esse dia. Jesus apresenta termos como fidelidade, discernimento, perseverança e vigilância, ensinando que nossa vida deve produzir frutos em conformidade com o que recebemos do alto.
UMA ENTREGA INTENCIONAL
A expressão “confiou-lhes os seus bens”, no versículo 14, não fala apenas de uma posse, mas de uma entrega intencional. Seu chamado não é fruto do acaso, nem ocorreu por acidente. Deus designou cada um de nós para cumprir Seus propósitos nesta terra, e Ele espera que aquilo que nos foi conferido cresça, frutifique e multiplique. Carregamos sobre os ombros um encargo de responsabilidade que não nos pesa, pelo contrário, nos dignifica. Dentre tantos, o Senhor escolheu você.
Desde o momento em que nascemos de novo, morremos para o mundo e passamos a viver para Deus. Houve uma mudança de status: das trevas para o Reino do Filho do Seu amor. Em I Coríntios 6.20, Paulo afirma que fomos comprados por preço, e a palavra “comprado” carrega o sentido de redenção e resgate. Isto é, desde o instante em que somos resgatados, nossa vida consiste em fazer a vontade daquele que nos comprou.
A URGÊNCIA DOS QUE FORAM BEM-SUCEDIDOS
Para compreender mais profundamente a parábola, é preciso voltar ao contexto histórico. Nos dias de Jesus, um denário equivalia ao salário diário de um trabalhador. Já um talento correspondia a aproximadamente seis mil denários, valor suficiente para sustentar uma pessoa por cerca de dezesseis anos. Portanto, mesmo aquele que recebeu apenas um talento foi generosamente abençoado.
O texto destaca uma palavra crucial: “imediatamente”. Os dois primeiros servos entenderam que a confiança depositada sobre eles era tão honrosa que não havia outra resposta possível senão se envolverem com os negócios do seu senhor. Eles colocaram as mãos à obra, multiplicaram, frutificaram. Esse senso de urgência precisa abrir nossos olhos: não podemos perder tempo com as coisas deste mundo, porque a volta de Cristo é iminente, ou seja, pode acontecer a qualquer momento.
A NEGLIGÊNCIA DISFARÇADA DE CUIDADO
No mundo antigo, era comum enterrar bens em períodos de instabilidade política como forma de proteção. Foi a essa imagem cultural que Jesus recorreu ao narrar a atitude do terceiro servo. Aparentemente, esconder o talento demonstrava cuidado, mas, na verdade, revelava negligência. O problema desse servo foi a falta de produtividade diante daquilo que lhe fora confiado. Ele escolheu a inércia, contrariando a expectativa daquele que o chamou.
Infelizmente, essa atitude se repete em muitos cristãos hoje. Há quem pense que basta frequentar a igreja, dizimar e adorar. Essas práticas são bíblicas e necessárias, mas há também um chamado individual que precisa ser desenvolvido. Congregar não substitui o comprometimento pessoal com o propósito que Deus traçou para cada vida.
CONSCIÊNCIA DE ETERNIDADE
Quando perdemos o senso de urgência, passamos a viver distraídos, preocupados em acumular bens, consumir entretenimento e satisfazer prazeres pessoais. A Bíblia, porém, nos lembra constantemente que esta não é a nossa pátria. Em I João 2.17, está escrito que o mundo passa, mas quem faz a vontade de Deus permanece eternamente. Em Filipenses 3.20, Paulo afirma que nossa cidadania está nos céus.
Ademais, não há problema em realizar sonhos, acumular bens ou prosperar. O erro está em permitir que essas coisas tomem o coração, a ponto de impedir o envolvimento integral com as coisas do Reino. Dessa forma, a consciência de eternidade molda a forma de viver, posiciona a santidade como inegociável e mantém os olhos fixos na missão.
Imagine alguém que aluga um quarto de hotel por uma única noite e, ao chegar, decide gastar todos os seus recursos reformando o ambiente, trocando móveis e pintando paredes. Qualquer observador concluiria que se trata de um desperdício, já que a estadia é temporária. Este mundo é como esse quarto. Por mais que ofereça coisas atrativas, não pode nos fazer esquecer a missão, porque nosso destino final está em outro lugar.
O AJUSTE DE CONTAS
Mateus 25.19 declara que, depois de muito tempo, o senhor voltou e ajustou contas com seus servos. Em II Coríntios 5.10, Paulo afirma que todos compareceremos perante o tribunal de Cristo. A palavra “tribunal” vem do grego bema, que designava a plataforma onde, no mundo romano, eram reconhecidos aqueles que haviam tido êxito em suas responsabilidades.
Esse julgamento não avaliará o que recebemos, mas o que fizemos com aquilo que recebemos. A pergunta central será: “Como você desenvolveu os encargos que confiei a você?”. O servo negligente foi descrito por Jesus como apático, preguiçoso, passivo e espiritualmente indiferente. Não é essa a categoria em que Deus deseja nos inserir, pois Ele nos escolheu antes mesmo do nosso nascimento, já vendo em nós o potencial de frutificação.
DÊ O SEU MELHOR
Além disso, há tanta coisa que Deus deseja realizar por meio de cada um de nós. Existem pessoas que só podem ser alcançadas através do seu círculo social, da sua influência, da sua voz. Você é extensão do Reino nesta Terra. Sendo assim, não se cale, não se omita, não se distraia. Comprometa-se a dar o melhor do seu tempo, da sua disposição, dos seus recursos e dos seus dons.
A maior conquista da vida não está nas realizações deste mundo, mas em ouvir, no dia da prestação de contas, as palavras: “Servo bom e fiel, entra no gozo do teu senhor”. Assim, não enterre aquilo que Deus confiou a você. Multiplique, frutifique, desenvolva. Há uma unção que capacita, que vai além das suas próprias forças e habilidades. O Espírito Santo habilita aqueles que se dispõem a servir.
Não se conforme com menos quando o nosso Deus é mais.












