
Quando pensamos no papel de um ministro da Palavra, a imagem imediata costuma ser a do púlpito. No entanto, longe dos microfones da igreja e fora da rotina das celebrações, existe um universo pulsante de criação, estudo e inovação que poucos conhecem.
Durante um bate-papo informal na ocasião da Conferência de Ministros Sudeste, que ocorre de 11 a 14 de setembro em Águas de Lindóia (SP), Manoel Dias (Maneco) contou como tem ultrapassado as fronteiras tradicionais do ensino da Palavra para dialogar com a cultura contemporânea. Ele revelou como a criatividade pessoal, os hobbies e até o gosto pela tecnologia podem se tornar extensões do ministério pastoral.

Conhecido pela sua rotina de leitura, ministrações bem fundamentadas e amor pela oração, Maneco demonstrou mais um lado entusiasta: usar a Inteligência Artificial (IA) como ferramenta auxiliar para produzir canções que possam expressar temas bíblicos específicos. Em função disso, o que começou como uma simples brincadeira, durante um evento, transformou-se em um canal com centenas de canções nos mais diversos estilos. Do reggae ao fado português, passando pela bossa nova e forró, as canções têm servido como ponte de fé até para quem jamais pisaria em uma igreja.
Acompanhe a seguir a conversa concedida ao Portal Verbo da Vida, na qual tecnologia, escrita, limites éticos da criação artística e musicalidade se cruzam em uma reflexão inspiradora sobre até onde o Evangelho pode chegar quando a arte ganha novas ferramentas.
Portal: Maneco, além da leitura, você também é um entusiasta das tecnologias. Queria que você contasse um pouco acerca de como começou a musicar as Escrituras com o apoio da inteligência artificial e como surgiu esse interesse.
Eu estava num evento lá na igreja do pastor Eliezer Rodrigues, em Taubaté (São Paulo), eu tenho uma amizade muito afinada com ele. A gente já brincou muito musicalmente, aprecio a unção de Deus em sua vida, ele é muito criativo, muito amplo. E aí ele disse: ‘Maneco, estou fazendo aqui umas músicas na IA’. Então, ele me ensinou durante uns três a cinco minutos e disse que o resto era intuitivo, eu ia aprendendo.
Ele me disse que fez umas canções para ficar tocando no evento, contextualizando a vida da igreja, a comunhão, até num tom de brincadeira, de forma que ficasse tocando como música ambiente. E me ensinou mais ou menos o caminho das pedras, e dai baixei o aplicativo na versão gratuita. Fazia, produzia… Ele havia dito para mim que, se pagasse a assinatura para usar a ferramenta, a qualidade era melhor. Quando paguei, vi que a qualidade subia quase cem por cento na elaboração do vocal, arranjo, de estilo, de produção. A tecnologia da IA para música beira a perfeição, principalmente no quesito afinação. Aprendi a pedir divisão vocal, arranjos específicos. É um mundo sem fim de criatividade.
Com isso, comecei a brincar com músicas regionais e reggae. Acho o reggae um estilo alegre, descontraído, e isso abriu a porta para pensar como um doutrinador, um ministro da Palavra: vi como um meio de a gente meditar na Bíblia.
Portal: Algumas pessoas têm um certo preconceito com o uso da IA para a criação de qualquer obra a partir dela. Mas vale lembrar que ela é só uma ferramenta, que precisa ser conduzida pela criatividade humana. Olhando para isso, sobre os limites éticos entre a IA e a criação artística, para você, onde é que termina a ferramenta e começa a autoria?
Desde criança, eu desejava grandemente, ser músico. Em uma época, pensei até em tocar sax, e meu pai incentivava, na minha casa tinha piano. Porém eu nunca rompi, nunca tive o dom, mas isso não quer dizer que a música não estivesse dentro de mim ou que eu não tivesse ideias.
Não sou músico nem produtor musical, mas olho para dentro de mim e vejo criatividade. Talvez isso venha também do feedback do meu pai, que apreciava muito música clássica e ópera. Tem até uma história engraçada: quando vi Camila cantando pela primeira vez, pensei: ‘Vou casar com ela, porque jamais casaria com uma mulher desafinada’ (risos).
Nunca pensei que chegaria uma ferramenta que me permitisse explorar alguns desejos internos na área musical. Muitas vezes, eu sugeria uma ideia para alguém, mas era levada adiante.

Hoje faço minhas composições no estilo que quiser. Acho que a tecnologia chegou como um recurso. Ela não vai neutralizar os músicos nem as origens, embora possa alterar um pouco o cenário; haverá uma adaptação.
Na parte criacional, por exemplo, tudo precisa ser comandado: a letra, a resposta e divisão vocal, a intensidade com que a música termina, os instrumentos, o tom, as pontes, as transições e até um solo instrumental. Com essas possibilidades, resgatei instrumentos que acho lindos. No reggae, por exemplo, gosto muito dos instrumentos de sopro. Fiz algumas músicas com guitarras e outras com instrumentos de metal, explorando os vários estilos do reggae.
Nesse processo, também fui aprendendo mais musicalmente. Passei a compreender melhor a divisão das músicas, como primeira estrofe, ponte e transições. Eu tinha uma noção, mas não percebia os bastidores da criação como percebo hoje. É uma janela que termina desenvolvendo a intuição para isso. No início, algumas músicas saíram ruins, e eu nem postei, deletei. Outras serviram como um ponto de partida para aprender e explorar. Algumas ficaram lindas, verdadeiras obras, bonitas de ouvir e apreciar, chegando quase à perfeição humana. É fantástico!
Por que você escolheu o Telegram para compartilhar as músicas? Você tem acompanhado até onde elas têm chegado?
Acho que o Telegram é uma ferramenta fácil de alimentar quando produzo, o compartilhamento é muito simples e muita gente usa. Então, para mim, era mais fácil. No entanto, nunca foi uma pretensão fazer isso; foi fruto do que foi acontecendo e do pedido das pessoas. Eu mostrava para alguém, a pessoa pedia outra e fui fazendo.
Inclusive, no próprio Telegram consigo pesquisar aonde as músicas estão chegando. E, para minha surpresa, elas têm chegado a vários lugares. Conheço pessoas na África e em Moçambique que compartilham com outras pessoas. Um dia pesquisei aonde tinham chegado e vi que estavam na Ucrânia. Fiquei assustado. O que era uma brincadeira tinha chegado do outro lado do mundo e havia alguém ouvindo e sendo edificado.

Também recebi um testemunho interessante: compartilhei uma música, no ritmo de bossa nova, com um dos pastores da nossa igreja em Campina Grande (PB), que gosta desse estilo e viveu nos anos 1960 e 1970. Ele colocou a música em casa. Uma vizinha dele, que não é crente e é até esotérica, ouviu e perguntou se poderia escutar também, porque estava gostando muito das músicas e ele aproveitou e compartilhou com ela.
Então, a gente não sabe onde a música vai chegar. Ela tem esse poder de tocar pessoas que jamais entrariam numa igreja, mas uma canção pode alcançar a vida delas.
Antes que alguém feche a porta para o Evangelho, pode abrir uma porta por causa da apreciação musical por um estilo. E esse estilo comunica o Evangelho de uma forma que um pregador ou ensinador talvez não consiga. A música suave, a Palavra cantada, faz aquela verdade chegar ao coração sem a pessoa fechar as portas.
Como você percebe isso em relação ao propósito de ensinar e transmitir a Palavra de Deus?
Como fui do louvor por muitos anos, sempre penso que a Palavra de Deus deve estar presente na música. Todas as verdades bíblicas podem estar na música: verticalmente, para Deus; horizontalmente, entre nós, na igreja; e evangelisticamente, para aqueles que não conhecem, fora das quatro paredes.
Como pregador, a gente sabe que a Palavra não voltará vazia. Ela pode ser pregada, ensinada e compartilhada em livros, mas também pode ir através de canções, pois a música é um instrumento poderoso para propagar a Palavra.
Quando faço uma canção, sei que ela vai cumprir esse papel. Às vezes, ela pode até abrir um entendimento e uma revelação que um pregador não consegue, pela forma como a mensagem é construída. A música não apenas prega ou ensina; ela transmite um sentimento de relação entre quem está emitindo e quem está recebendo, onde o Espírito de Deus se move, isso acontece.
Então, quando estou produzindo as letras, algumas partes eu coloco até como se fosse Deus falando. É impressionante quando você escuta e, de repente, no meio da canção, encontra um texto bíblico como se Deus estivesse falando com a pessoa. Não há como medir a plantação das sementes e nem a colheita que virá pela Palavra semeada de forma cantada.
A facilidade de musicar as Escrituras ganhou mais força com a agilidade da IA?
Exatamente. Comecei a fazer dez, vinte, trinta, cinquenta músicas e percebi que não tinha fim. Como estou sempre ministrando, toda vez que terminava uma ministração, pensava: ‘Essa aqui dá uma música’. Houve uma ocasião em que fui a um evento em Caxias do Sul (RS) chamado Céus Abertos. Eu estava com todo o roteiro do que ia ministrar e já tinha estudado durante dias. No dia anterior, pensei: ‘Vou fazer uma música’. Então fiz uma canção passeando por toda a Bíblia, com os textos sobre céus abertos, tendo ‘Os céus estão abertos‘ como refrão.
A partir daí, comecei a pensar nessa forma de deixar tudo registrado. Era uma brincadeira, mas fui fazendo muitas coisas no reggae e colocando em um canal no Telegram para compartilhar com uma pessoa ou outra. De repente, foi crescendo: 50, 100, até chegar perto de 300 pessoas ou mais.
Algumas pessoas disseram que as letras eram muito grandes. Elas são grandes porque penso em uma música para meditar em alguma verdade de forma mais extensa, para fixar uma ênfase da Bíblia. Nessa ocasião, expliquei que não estava fazendo música para cantar nas igrejas, embora uma vez, no Mês da Família, em Campina Grande (PB), colocaram uma das minhas músicas e quando cheguei à igreja, reconheci e disse: ‘Eu conheço essa música, não acredito, não!’ (risos).

Nesse processo, diante à facilidade, também fui ampliando os estilos. Quando cheguei a Portugal, pensei: ‘Será que existe fado cristão, evangélico?’. O fado, para o português, é como a ópera para o italiano. É uma música refinada, rebuscada, que lida com a saudade e com a emoção da alma portuguesa. Então comecei a fazer alguns fados cristãos.
Para você, cantar a Palavra gera a internalização dela?
Não tem como não gerar. É a internalização através da música. Lembro que cresci ouvindo minha mãe dizer uma frase muito popular: ‘O homem é produto do meio’. A influência cultural ao nosso redor, a atmosfera que geramos, vai sendo internalizada em nós.
Outra razão pela qual fiz muitas músicas foi uma conversa com minha esposa. Por causa do louvor, eu sentia falta de músicas adequadas para a Ceia. Lembro que, na minha antiga igreja, havia uma música muito bonita de Asaph Borba que falava sobre o pão e o cálice. A gente quase não ouve músicas sobre isso. Então eu disse a Camila que queria mais músicas sobre a ceia e falei: ‘Vou fazer umas 100 músicas’. E chegou o dia em que eu tinha feito mesmo as 100 músicas diferentes sobre a ceia. É um assunto que ensinei por mais de 30 anos, então está dentro de mim. Cada versículo que eu abria se tornava uma celebração da ceia, da presença do Senhor, do partir do pão e do cálice.
Hoje são muitas músicas sobre a Ceia, em vários estilos. Para mim, é uma forma de meditação. E isso também acabou resultando em um livro que estou escrevendo e fui fazendo os dois juntos.
O livro também é sobre a ceia?
É, sim. Sempre pensei em escrever um livro sobre a Aliança de Sangue, mas não queria que fosse puramente sobre isso. O Senhor me inspirou a abordar tudo isso pelo viés da ceia, pela ótica dela, como uma janela para voltar a esse tema nesse contexto.
Logo, fui escrevendo e, a cada página, pensava: ‘Isso dá uma música’. Então fui celebrando a presença, o fluir de Deus, o Seu amor. Dá para falar sobre tudo relacionado à comunhão, que é mais do que um memorial. É um momento de enchimento, de tocar a eternidade.
Às vezes, a ceia é tratada como um cerimonial, um rito vazio. Para algumas pessoas, é apenas um pedacinho de biscoito com um suquinho de uva. Mas, quando existe revelação, você entra em um lugar de presença, intimidade, revelação e renovo, respira a atmosfera dos céus, da presença e da glória. As músicas ajudam nessa meditação que transcende a religiosidade e nos coloca em intimidade com a revelação das Escrituras. A Ceia vai além do ritual.
Quando pensei no livro e nas músicas juntos, um termina ajudando o outro. O que meditei, posso ouvir. O que ouvi, vou meditar.
E sobre outros estilos? O que mais você começou a explorar?
Sempre achei o ritmo da bossa nova, muito brasileiro, aconchegante, carioca, leve, descontraído, bonito e apreciável. E eu não conhecia nada cristão nesse estilo, depois soube que existia. Então comecei a colocar várias letras nesse estilo. Percebi que é um deslumbramento para meditar. Tanto que, descrevi no canal do Telegram, como: ‘Uma música para meditar e acalmar’. Às vezes, usamos a música apenas para agitar, despertar e animar. E a bossa nova tem esse poder de lentidão. A forma de cantar e os instrumentos ajudam. Muitas vezes, nem meditamos no que estamos cantando porque o estilo é tão agitado que não aquietamos para ouvir.

Depois disso, muitos cariocas ouviram e, por ser um estilo deles, apreciaram mais rapidamente. Mas, quando você escuta, percebe até um resgate da música brasileira, entranhada com uma possibilidade de transmitir a Palavra de Deus.
De forma geral, a bossa nova é associada ao barzinho, ao toque do violão, às pessoas bebendo. E isso me fez pensar também naquele livro, Fator Melquisedeque. Um dos fatores que ensinei em alguns momentos, sobre antropologia missionária, é que, quando o Evangelho chega a uma cultura, precisa santificar o que é santificável.
A música pode ser santificada. Sei que, para alguns portugueses, foi desafiador. Mas depois eles disseram: ‘Eu estou ouvindo os fados’. O fado emociona porque tem esse aspecto da saudade, para o brasileiro, a bossa nova também tem esse fator de brasilidade.
Você também começou a musicar temas para a família. O que o levou para este tema?
Fiz muitas músicas de bossa nova sobre família, porque algumas pessoas me disseram: ‘Maneco, é uma música que coloco para eu fazer uma faxina em casa e deixar tocando’.
Imagine você em casa, pensando e meditando sobre família, cuidando da casa e valorizando os filhos, dizendo que Deus está no seu lar, que sua família é ungida e guardada, falando sobre unidade, amor, propósito, a bênção do Senhor, obediência e filhos consagrados. Lembro que fiz uma canção baseada em Isaías 61 e na família.
Mesclei os dois temas: a família ungida, a unção no lar. Explorei vários versículos daquele texto e um dos últimos versículos de Isaías 61 diz que a família será bendita do Senhor. Essa mesclagem resultou em uma música que emociona e edifica. É esse o propósito!















1 Comentário
Que materia o nosso amado profeta Manoel Dias e um verdadeiro erudito da palavra, tem uma bagagem excelente e um dos escudeiros desse ministerio, somos gratos ao senhor pela vida desse grande homem de Deus, nosso pai na fe apostolo Bud, foi muito guiado em formar a sua diretoria, hoje o nosso ministerio e formado por homems e mulhes de Deus que não tem de que se envergonhar e que maneja bem a palavra da verdade. Ver hoje o nosso apostolo dando continuidade com muito esmero e dedicação, obrigado senhor pelo nosso ministerio diarimente eu oro pela nossa liderança.