Ainda estamos aprendendo a lidar com os níveis sem precedentes de liberdade de expressão que a internet e, especialmente, as redes sociais nos garantiram nos últimos anos. Qualquer pessoa pode se passar por especialista em qualquer coisa. Um anônimo pode se tornar herói, mesmo sem nunca ter conquistado nada, se conseguir popularidade através de “views” ou “curtidas”.
Trouxemos ao nosso dicionário e dividimos o palco da internet com os “haters” (pessoas que odeiam o sucesso dos outros e vivem para criticar e destruir) e os “mimimis” (pessoas que não conseguem conversar com quem pensa diferente, são sempre vítimas de algo e nunca culpadas ou responsáveis por nada). O que parece ser a “bênção da liberdade de opinião”, se torna para alguns o medo de ser hostilizado por pensar diferente.
As diferenças
Enquanto muitos veem nessa onda um crescimento da liberdade individual, outros enxergam no movimento um confinamento intelectual. Ao limitar o que você vê apenas ao que os seus “amigos” ou contatos publicam e comentam, você se projeta dentro de uma mentalidade de rebanho. As redes sociais muitas vezes criam bolhas sociais de isolamento, que minam o pensamento crítico e a capacidade de responder construtivamente a uma ideia diferente.
Se não acredita nisso, basta citar um autor de direita numa página de esquerda, ou um pensamento cristão numa página ateísta, ou uma ideia heterossexual numa página LGBT (calma, já estamos sim falando sobre o assunto). Perdemos, de forma geral, a capacidade de discutir diferenças de uma forma saudável.
Dentro desse mundo polarizado entre vários extremos e grupos de pensamento, nós, cristãos, devemos refletir seriamente sobre o nosso papel de influenciadores da sociedade e da cultura. Nossa natureza pacífica, normalmente, nos joga para dois extremos toda vez que uma nova tensão cultural aparece:
- Ou nos sentimos irados, frustrados ou ameaçados a ponto de nos retirarmos da cultura em questão, atacando, protestando ou condenando quem pensa diferente.
- Ou ficamos tão cansados de lutar que fazemos de conta que aquela tensão não existe, e aceitamos passivamente toda mudança que acontece ao nosso redor.
Nosso alvo
Andar num desses extremos requer menos de nós, e é mais confortável. Porém, vemos na Bíblia a história de pessoas (como Daniel ou mesmo Jesus) que conseguiram se manter relevantes e influenciar pessoas no meio de uma cultura hostil aos seus valores. Se não nos inspirarmos em suas condutas, corremos o risco de transformar a comunidade LGBT no mais novo integrante da lista de povos não alcançados que os nossos missionários tanto falam.
Para um tempo como este, surge a pergunta que nós, cristãos, devemos fazer: eles são nossos inimigos ou nosso alvo de evangelismo?
Falar em trazê-los para a igreja desperta um incômodo desnecessário e uma preocupação sincera em muitos líderes cristãos genuínos: como alcançar os diferentes sem comprometer a nossa essência e os nossos valores? Como conciliar o amor pela Verdade com o amor pelas pessoas? Cada igreja, cada líder e cada cristão tem respondido esses questionamentos de formas diferentes.
Algumas igrejas e líderes escolhem um extremo e usam do “conhecimento bíblico” para massacrar pessoas com “duras verdades”, tornando-se “paladinos da família tradicional” e ferozes rivais de seus “inimigos LGBT”, esquecendo-se de que uma verdade dita sem amor pode ser tão danosa quanto uma mentira dita por amor.
Misturando-se entre idólatras
Vale a reflexão: Será que vamos conseguir mudar o mundo inteiro, quando julgamos o mundo por estar sendo mundano? Foi do apóstolo Paulo o pensamento sobre o assunto: “Pois, como haveria eu de julgar os que estão fora da igreja? Todavia, não deveis vós julgar os que são de dentro?” (I Coríntios 5.12).
O que é mais importante: provar que eu estou certo ou ajudar alguém a acertar? Paulo, em Atenas, indignou-se com a idolatria do povo (Atos 17.16), mas conseguiu amenizar na sua fala a eles, elogiando-os por serem muito religiosos (v. 22). Os “ídolos” foram atenuados para “objetos de culto” (v. 23), assim, ele ganhou o coração de muitos.
Estava Paulo se tornando um idólatra? Estava ele concordando com a idolatria? Ou ele aprendeu a “tornar-se tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns”? (I Coríntios 9.22). A idolatria para um judeu era algo repugnante, mas ele se misturou entre os idólatras, sem comprometer a sua essência judaica e cristã, salvando muitos gentios.
Temos a mesma disposição nessa geração, de abdicar nossas preferências pessoais em favor da causa do Evangelho? (I Coríntios 9.23). Será que Jesus estava desfrutando da convivência com o ladrão Zaqueu, ou mergulhado em uma missão de resgatá-lo?
Amar e discordar
Se em algum momento desse argumento a sua mente tem parado a leitura e gritado dentro de você: “Espere! Mas… mas…”, talvez você esteja vivendo essa polarização que falei anteriormente. Já naqueles dias, Paulo foi criticado por alguns “crentes da circuncisão” por estar alcançando um povo diferente e com métodos diferentes.
Sim, eu sei dos perigos de se infiltrar… Eu sei, porque vejo outras igrejas escolherem o outro extremo da questão: usam a “pregação do amor” para uma conduta permissiva e liberal, que não acusa o pecado. A mensagem deles é: “Venha do jeito que está e permaneça do mesmo jeito”. Muita gente, hoje em dia, esqueceu de que amar alguém não significa concordar com tudo o que esse alguém faz. Podemos amar e discordar. Podemos ser firmes em nossos princípios, mas suaves em nosso trato com os discordantes.
Contudo, uma coisa é certa: sendo um crítico feroz ou um infiltrado permissivo, ou fazendo qualquer outra coisa, você será criticado e julgado. Só existe uma forma de não receber críticas: não faça nada, não diga nada, não seja nada!
Graça e verdade
No meio destes dois extremos, encontramos o modelo eficaz e contemporâneo de Jesus Cristo de lidar com estes questionamentos. Sua receita está no capítulo 8 de João, ao lidar com uma mulher adúltera. Como em nossos dias, havia uma pressão em Jesus para “expressar o seu posicionamento sobre o tema” e se polarizar. Havia, como hoje, um povo que queria levantar motivos para acusar um “Jesus liberal”, e outro que queria despertar um “Jesus justiceiro”. Qual a receita do Mestre? Graça e Verdade.
O segredo foi que Ele primeiro disse: “não te condeno”, e só depois ganhou crédito para dizer “vá e não peques mais”. Verdade sem graça é opressão. Graça sem Verdade é libertinagem. Graça com Verdade é libertação! Jesus transformou o arrependimento da mulher numa consequência do perdão, não numa condição para recebê-lo.
Cabe a cada um de nós, no nosso mundo particular de trabalho, faculdade ou vizinhos, perguntar-nos a cada dia: “Estou me isolando numa bolha evangélica ou me misturando para fazer a diferença e influenciar os outros?”.
Jesus não queria nos tirar do mundo, mas nos livrar do mal (João 17.15). Não tenha medo de expor a sua identidade cristã. O crente e o mundo são como o navio e a água: o navio deve estar na água, mas a água não pode entrar no navio. Você consegue navegar neste mundo cheio de diferentes, mas resgatá-los com graça e Verdade, sem ser contaminado e sem naufragar na fé?
Existem apenas duas coisas que você não poderá fazer no céu, ambas começam com a letra P: pecar e pregar. Qual delas é o motivo de você permanecer aqui na terra?











3 Comentários
Devemos priorizar o amor acima de tudo, amar o próximo como a ti mesmo.. se conseguirmos isso o nome do Senhor será exaltado sobre as nações.. reflexão nescessária.
Lázaro saia para fora.
Que reflexão extraordinária. Se Jesus for nosso modelo de vida, vamos viver de forma equilibrada nessa Terra.