Ministério é serviço, não exaustão

Ministros foram chamados para servir ao Senhor e isso é uma grande responsabilidade.

por Carol Honorio

Ao analisarmos atentamente as Escrituras, vemos que a palavra mais utilizada para se referir a ministros é diákonos, que significa servo, assistente, agente a serviço de alguém, aquele que executa uma tarefa em favor de outro, sendo a ideia central a de função de serviço sob autoridade e não de posição.

“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:11-12).

Muito embora no texto acima não vejamos a palavra ministério ou ministros, entendemos que aqui, o apóstolo Paulo está se referindo ao que é chamado de dons ministeriais. Veja que Paulo fala claramente que os dons ministeriais não foram dados com vista ao aproveitamento ou crescimento do ministro em si, mas para o aperfeiçoamento do Corpo.

A palavra traduzida por aperfeiçoamento, no original é a palavra katartismós, que significa: colocar algo em condição adequada, ajustar, restaurar, preparar para funcionar corretamente. A ideia central é ajudar, preparar e capacitar os cristãos para que eles possam cumprir o propósito que Deus designou para eles. Ou seja, os dons foram dados para servir ao corpo de Cristo.

Ao olhar para os evangelhos, Jesus por diversas vezes ressalta a importância do servir, como por exemplo em Lucas 22:26, no qual Ele deixa claro que o Reino de Deus não é como no sistema do mundo, onde as autoridades dominam o povo. Outro texto que pode ser analisado é 1 Coríntios 4:1, no qual Paulo usa duas figuras interessantes, a primeira delas é “ministros de Cristo”, que no original a palavra ministros é hyperétēs que originalmente se referia aos remadores de navio inferior, aqueles que ficam na parte de baixo, invisíveis. Na maioria das vezes essa função era designada aos escravos e ao prisioneiros de guerra, só obedecendo ao ritmo do comandante.

Nesse mesmo texto, Paulo traz outra expressão interessante: “despenseiros dos mistérios de Deus” e em seguida diz que devemos ser encontrados fiéis a essa missão. É importante analisar um pouco melhor a palavra despenseiros. Do grego: oikonomoi = mordomo / administrador da casa. Era o servo de mais confiança de uma casa rica. Embora ele não fosse o dono, ele tinha um certo nível de autoridade delegada pelo dono da casa e era quem administrava os bens, cuidava dos alimentos e provisões, supervisionava os outros servos, representava o seu senhor, entre outras funções. Mas, ele não era o dono de nada, apenas administrava o que pertencia a outro e devia prestar contas ao dono.

Ao compreender melhor essas duas figuras hyperétēs e oikonomoi, conclui-se que os ministros são servos encarregados que administram aquilo que o Senhor os confiou para que os santos possam ser alimentados, se desenvolvam e cheguem ao lugar que Deus designou para eles. Em resumo, o ministro cristão é um servo subordinado à autoridade de Cristo (hyperétēs) que administra com responsabilidade os tesouros espirituais de Deus (oikónomos), sabendo que nada lhe pertence e que prestará contas de tudo.

“Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel” (1Coríntios 4:1-2).

Ministros foram chamados para servir ao Senhor e isso é uma grande responsabilidade. Felizmente vemos muitos homens e mulheres de Deus que entenderam para o que foram chamados e têm cumprido fielmente seus chamados e sido despenseiros fiéis. Muitos estão gastando as suas vidas em prol do Reino e assim como Paulo disse em Atos, não consideram suas vidas por preciosas em prol de completarem as suas carreiras. O que certamente é digno de honra.

Contudo, infelizmente, muitos ministros sofrem justamente por causa do trabalho para o Senhor e não me refiro às perseguições e injúrias que Cristo disse que sofreriam, mas, sim, a problemas de ansiedade, exaustão, depressão e burnout.

Em um estudo realizado pelo Barna Group em parceria com organizações como World Vision, Gloo, Brotherhood Mutual entre outras, mostra que 56% dos pastores relataram sintomas de depressão e 65% sentiam solidão. Cerca de 1 em 3 estavam em risco de burnout. O Artigo Científico – Sinais de Burnout, Ansiedade e Depressão em Pastores Evangélicos no Brasil, publicado na Revista Summae Sapientiae, com instrumentos como BDI (Beck Depression Inventory), MBI (Maslach Burnout Inventory), mostra que entre os 327 entrevistados 22,3% tinham sintomas de depressão, 35,5% de ansiedade e 16,5% de burnout.

Será que era isso que o Espírito Santo tinha em mente quando inspirou os autores da Bíblia a usarem as palavras acima analisadas para descreverem o que é ministério? Claro que não, essa não era a ideia do Espírito Santo e como bem sabemos, Deus em hipótese nenhuma usa qualquer tipo de doença para ensinar nada a ninguém. Inclusive Jesus ensina uma lição preciosa que pode evitar muitas dessas doenças.

Em Lucas 10:38-42, Jesus repreende Marta por estar inquieta e deixa claro que Maria escolheu a melhor parte. A Bíblia diz que Marta estava “ocupada em muitos serviços”, veja o sentido original de algumas palavras para entender melhor que o texto nos diz: ocupada = periespato, que significa: ser puxado para todos os lados, distraído, sobrecarregado mentalmente. Muito = pollēn, que significa: muito, grande, numeroso. Serviços = diakonia, que significa: serviço, assistência, ministério, prestação de ajuda.

Com isso, conclui-se que Marta estava tão absorvida pelo serviço que se afastava do que realmente importa, que é desfrutar da presença. Jesus estava em sua casa, mas ela estava tão sobrecarregada de trabalho que isso a deixava inquieta e a impedia de desfrutar do Mestre e por isso ela foi repreendida por Ele.

O serviço é lícito, é importante, mas ele não pode tomar o lugar de estar com Jesus, de ter um tempo de comunhão com Ele. Estar na igreja todos os dias, estar envolvido nos departamentos não é sinônimo de ter comunhão com o Senhor. Servir é importante, mas isso não pode roubar o tempo da comunhão. Na verdade, a comunhão com o Senhor deve ser a coisa mais importante, pois é dessa forma que se torna mais assertivo e eficaz no trabalho para Deus.

Ao negligenciar o tempo de comunhão em prol do serviço, tudo se torna mais pesado e difícil. Sem perceber, deixa-se de desfrutar e confiar na graça de Deus para servir, e começa-se a fazer as coisas na força do braço. É nesse momento que se abre a porta para a exaustão e todas as outras doenças. E essa nunca foi a vontade de Deus para os Seus ministros. Não quero dizer com isso que a causa desses problemas é sempre o excesso de trabalho, mas, sim, que o excesso de trabalho pode ocasioná-los.

Além disso, trocar o tempo de comunhão pelo serviço é o mesmo que alimentar os famintos enquanto se morre de fome e isso é um caminho perigoso que nenhum ministro deve seguir.

Para ser um bom servo, é primordial ter prazer na lei do Senhor, como diz o salmista. A verdade é que para ser um despenseiro fiel é preciso desfrutar da presença e jamais permitir que o serviço tome o lugar da comunhão. Escolha a melhor parte.

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do Senhor e na sua lei medita de dia e de noite” (Salmos 1:1-2).

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