“Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” (Romanos 9:11-22).
O texto apresenta complexidade, e alguns o utilizam para argumentar que Deus exerce controle absoluto sobre todos de maneira fatalista e arbitrária, utilizando Romanos 9 como prova. Essa interpretação parece defender uma eleição incondicional para a salvação, na qual somos meros instrumentos nas mãos divinas e os destinos individuais de Jacó e Esaú foram determinados sem qualquer consideração de suas respostas ao Senhor.
O capítulo 9 de Romanos precisa ser analisado à luz de toda a mensagem da carta. Se acreditarmos que este capítulo se refere à salvação de alguns indivíduos porque Deus assim quis, haverá uma contradição dentro da própria mensagem de Paulo.
Alguns versículos nos informam claramente sobre o desejo do Senhor em salvar a todos: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego (Romanos 1:16); Leia também Romanos 2:6-12 e 3:9-30 – Salvação e punição para Judeus e Gentios – 5:18 – 10:1-4 – 10:11-13 – 10:21.
Pense acerca da incoerência: o Senhor lhe predestinou para não crer, não ser salvo, sabendo que não crerá, ainda assim estende a você a salvação?
“Que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos. Esse foi o testemunho dado em seu próprio tempo” (I Timóteo 2:4-6 NVI).
“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2:11 NVI).
“Vemos, todavia, aquele que por um pouco foi feito menor do que os anjos, Jesus, coroado de honra e de glória por ter sofrido a morte, para que, pela graça de Deus, em favor de todos, experimentasse a morte” (Hebreus 2:9 NVI).
A Bíblia nos mostra que há espaço para o homem atender ou não ao convite da salvação, rejeitando ou aceitando a mensagem – (Mateus 10:12-15).
Em Romanos 3:1-2 e 9:4-5, O Senhor mostra a vantagem de ser judeu, porém esse benefício não lhe garante a redenção (Romanos 3:9-21), ou seja, não era a obediência à lei que lhes abençoaria com a salvação, mas a fé em Cristo – (Romanos 3:22-30)
Paulo diz: “Vocês são descendentes de Abraão”, então, vamos lá. Em Romanos 4:1-16 – O pai deles teve a justiça imputada porque creu, não porque fez alguma obra. O início do capítulo nove (Romanos 9:1-5) nos dá o tom para tudo o que é dito nos capítulos 9 a 11.
O apóstolo expressa sua angústia em relação aos seus compatriotas judeus, por terem rejeitado o Evangelho. A compreensão desse sentimento é crucial para a interpretação correta de diversas afirmações presentes nos capítulos em questão. Se a condenação incondicional de determinados indivíduos é a vontade soberana de Deus, então a angústia de Paulo em relação aos perdidos e seus esforços para salvá-los, como expresso em Romanos 11:14: “Para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles”, podem parecer contraditórios.
Do que realmente esses capítulos tratam? O apóstolo vai nos ensinar que o Senhor não rejeitou o Seu povo (Romanos 11:1), porém, a fé em Jesus é a estrada para a redenção. Não é só pelo fato de ser judeu, descendente físico de Abraão, que a salvação está assegurada a eles (Romanos 3:1-12); crer em Cristo é o único caminho por meio do qual o homem é redimido.
Observamos isso no capítulo 9, no qual aprendemos que, a despeito da posição privilegiada que o judeu ocupa por pertencer a ele a adoção, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas, ele precisava se sujeitar à justiça que vem de Deus. “Pois, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Romanos 10:3).
A preocupação do apóstolo também se estende aos gentios, para que não se vangloriem. Ele enfatiza que, embora alguns ramos naturais tenham sido podados, Deus não os pouparia caso não permanecessem na graça divina. E se os judeus crerem, o Senhor é poderoso para enxertá-los novamente (Romanos 11:17-29).
Em Romanos 9:6-9, Paulo utiliza a figura de Ismael e Isaque para ilustrar o que vem expondo: Ismael, nascido segundo a carne, era o primogênito e, naturalmente, detentor do direito à benção. Entretanto, ela recaiu sobre Isaque, nascido segundo a promessa. O que isso significa? A salvação não é assegurada apenas pelo nascimento como judeu, mas pela fé. O propósito da eleição é que quem recebe a Palavra, crê e invoca o nome do Senhor seja salvo pela fé e não por obras.
O Senhor não se refere aqui ao indivíduo Jacó, mas à nação dele (Israel). Em Gênesis, quando a predição foi feita (Gênesis 25:23), foi declarado a Rebeca: “Duas nações estão em seu ventre, já desde as suas entranhas dois povos se separarão […] o mais velho servirá ao mais novo”. Assim, a referência não é à eleição individual, mas a uma escolha coletiva de uma nação — a de Israel.
Independentemente da eleição coletiva de Israel como nação, cada indivíduo precisa aceitar o Messias para ser redimido. O apóstolo afirmou: “Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus pelos israelitas é que sejam salvos” (Romanos 10:1).
A preferência divina por Jacó e a reprovação por Esaú não se referem a esses homens antes do nascimento, mas a um período muito posterior à sua vida. A citação em Romanos 9:13 não provém de Gênesis, época em que viveram (c. 2000 a.C.), mas de Malaquias 1:2-3 (c. 400 a.C.), muito tempo após o seu falecimento. Os atos malignos praticados pelos edomitas contra os israelitas são bem documentados no Antigo Testamento (Números 20). É por essa razão que se afirma que o Senhor odeia essa nação. Ressalta-se que isso não significa que nenhum indivíduo dessa nação será salvo. De fato, há crentes tanto de Edom (Amós 9:12) quanto do país vizinho, Moabe (Rute 1), assim como haverá pessoas no céu de toda tribo, língua, povo e nação (Apocalipse 7:9).
Seria injustiça da parte de Deus (Romanos 9:14), se Ele tivesse o seu modo de executar a Sua vontade? Que a eleição não se dê por simplesmente ser descendente físico de Abraão, pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus?
Faraó
Com o líder do Egito, vemos um homem já levantando o punho em desafio a Deus: “Respondeu Faraó: ‘Quem é o SENHOR para que lhe ouça eu a voz e deixe ir a Israel?’ Não conheço o SENHOR, nem tampouco deixarei ir a Israel” (Êxodo 5:2).
Todavia, o coração de Faraó se endureceu, e não os ouviu, como Deus tinha dito: “Disse o SENHOR a Moisés: ‘O coração de Faraó está obstinado; recusa deixar ir o povo” (Êxodo 7:13-14) e também em (Êxodo 8:15, 19, 32, 9:7,34,35).
O Senhor apenas fortaleceu o coração do líder do Egito na direção perversa que ele já tinha de maneira resoluta escolhido. Seu propósito nisso foi revelar Seu poder (Êxodo 7:5) – (Romanos 1:18 – II Tessalonicenses 2:7-11) As passagens paralelas de Paulo apoiam a ideia de que é o homem que inicia o endurecimento, e não Deus. “Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento” (Romanos 2:5).
Assim como o Senhor não criou a hostilidade do faraó, Ele também não causou a descrença inicial de Israel. Isso não frustrou o plano de Deus em redimir o mundo, antes, o Senhor fez uso da descrença deles para servir ao Seu propósito.
Observamos no livro de Atos que a reação hostil dos judeus à pregação, impulsionou a difusão do Evangelho entre um público gentio cada vez maior. A resistência judaica à pregação tornou-se um meio pelo qual os apóstolos e evangelistas alcançassem as nações. Deus transformou a resistência em oportunidade (Atos 8:1-4,14 – 11:19-23 – 13:46-48 – 17:1-15 – 19:8-10 – 23:1-11 – 28:25-29). Ao afirmar a liberdade divina em ter misericórdia de quem quiser, o apóstolo não está formulando uma doutrina de eleição incondicional, mas estabelecer a liberdade do Senhor em conceder Sua misericórdia além dos limites da identidade étnica judaica (Romanos 9:15, 25; 11:15-25).
Vasos para honra e para desonra. “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Romanos 9: 19-23).
A imagem evocada por essa expressão na mente ocidental é determinista, sugerindo que o indivíduo carece de livre-arbítrio e é subjugado pelo Senhor. A cosmovisão hebraica, contudo, diverge dessa perspectiva. Em Jeremias 18, o bloco de argila pode ser moldado ou desfeito por Ele, em resposta à conduta moral de Israel (Jeremias 18:8). O vaso destinado à desonra refere-se a Israel que se recusa a se arrepender.
Considerando tudo o que foi abordado e o contexto dos capítulos 9 a 11, a referência de Paulo a dois vasos distintos corresponde aos judeus que creram e aos que não creram.
Jerry Walls, em seu livro “Por que não sou calvinista” diz: “Em resumo, Romanos 9 a 11 nos conta a história da determinação de Deus em estender Sua misericórdia para além dos limites da linhagem genética de Abraão, em preservar o status especial dessa nação como “abençoada e chamada”, apesar da desobediência de muitos israelitas, e então conceder a eles uma medida ainda maior de compaixão quando abandonarem a descrença (Romanos 11:23-27).
O Senhor, em Sua liberdade soberana, de fato estende misericórdia até mesmo para os gentios, ao mesmo tempo em que endurece alguns dos judeus desobedientes, embora isso possa ofender a sensibilidade deles. Além disso, a seleção incondicional de Deus por Jacó em
detrimento de Esaú, antes que pudessem realizar quaisquer boas obras, mostra que a redenção do Senhor não será concedida como um direito por ter nascido como descendente de Abraão, nem como uma recompensa pelo fato desses privilegiados possuírem (e cumprirem em parte) a lei mosaica. Antes, é a vontade soberana de Deus que todos os que creem, quer gentios ou judeus, sejam enxertados na sagrada árvore da salvação. A beleza e majestade do plano d’Ele para a misericórdia universal, levam Paulo a uma explosão de
louvor. “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33).












