Nada me é lícito, mas pouca coisa me convém?

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Paulo Pimenta
Graduado da Escola de Ministros Rhema

Sim, eu sei. Você está achando o título estranho – e com razão – pois o que o Apóstolo Paulo escreveu foi completamente ao contrário disso. Infelizmente, pelos séculos, a Igreja tornou-se tão religiosa que o texto de 1 Coríntios 10:23 é usado para muitas e muitas situações, fazendo com que, na prática, poucas coisas sejam lícitas. Em muitas situações, o homem é liberto das correntes do pecado, diretamente para as cadeias da religiosidade.

Interessante é que esse verso é distorcido para que tudo seja ilícito, e esse aqui é muito pouco observado:

Assim saberemos que somos da verdade; e tranqüilizaremos o nosso coração diante dele quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas. Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus.– 1 João 3:19-21

Há pouco tempo atrás, escrevi um texto tratando da Síndrome do Exterior do Copo. Algumas pessoas se preocupam muito com os sintomas, as manifestações externas, e acabam se esquecendo do mais importante: o coração.

A verdade é que existem pessoas que simplesmente faz o que faz porque aprendeu assim, e nunca questionou. E, se não sabe a razão, não o faz por convicção, e sim por tradição. Aí, quando questionado sobre a razão bíblica de sua convicção, acaba sempre nos dizeres “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, ou “fujam da aparência do mal” ou qualquer outra citação genérica e vaga. Via de regra, é possível proibir QUASE QUALQUER COISA utilizando-se desses versos.

Vou dar um exemplo que, infelizmente, ainda hoje é considerado polêmico: piercings e tatuagens. Antes, deixo claro que não tenho nem nunca tive nenhum dos dois, nem mesmo orelha furada, tampouco tenho qualquer vontade ou inclinação para tal. Portanto, não se trata de advogar em causa própria. A intenção é somente analisar o assunto à luz da Palavra.

Historicamente, o homem se adorna e se tatua há milênios em diferentes culturas, mas no mundo cristão ocidental isso não era comum. A tatuagem foi banida pela Igreja Romana em 787, no Sétimo Concílio de Nicéia, pelo Papa Adriano I. Nesse mesmo concílio foi instituído – com grande aclamação popular – o culto das imagens. Provavelmente o motivo da proibição da prática era para se diferenciar dos pagãos europeus, embora algumas sociedades cristãs, como os Cavaleiros de Malta, ainda se tatuassem posteriormente.

Se voltarmos para o início do século XX, poderemos verificar que a prática de piercings e tatuagens não era comum na sociedade ocidental, como resultado da proibição medieval. Portanto, apenas os excomungados e pagãos se tatuavam. Obviamente, a igreja via com maus olhos qualquer um que ostentava uma tatuagem aparente, e logo julgava que aquela não deveria ser uma boa pessoa.

Acontece que hoje em dia essa não é a realidade! As pessoas se tatuam – e aí o piercing entra na mesma categoria – por diversas razões. O ato em si não é pecaminoso, e aí é o ponto onde quero chegar: o importante não é O QUE você faz, e sim POR QUE você faz!

Entendam, não estou dizendo que se tatuar ou usar piercing é correto ou errado! Estou tratando da raiz, da motivação, e não do ato em si!

Jesus nos ensina a examinarmos a nós mesmos. Precisamos examinar as razões pelas quais fazemos todas as coisas.

A Palavra muitas vezes nos mostra que o importante é a intenção, e não necessariamente a ação. Deus é o que sonda mentes e corações! Você sabia que podemos fazer boas ações, mas se tivermos a intenção errada, de nada nos adiantará? Veja o que Paulo diz em 1 Coríntios 13, por exemplo! Se não tivermos amor, de nada – por mais fantástico que seja – adiantará! O próprio Paulo, na segunda carta aos Coríntios, capítulo 9, nos mostra algo interessante:

Assim, achei necessário recomendar que os irmãos os visitem antes e concluam os preparativos para a contribuição que vocês prometeram. Então ela estará pronta como oferta generosa, e não como algo dado com avareza. –2 Coríntios 9:5

Veja que mesmo uma oferta, ao invés de ser algo santo, pode ser uma expressão de avareza! A diferença? A intenção, a motivação! Esse é todo o ensino apostólico, desde Jesus. Sobre a ceia, sobre as ofertas… Jesus sempre ensinou a não sermos hipócritas! Quero terminar com esse texto e uma reflexão:

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo”. – Mateus 23:23,24

Precisamos ter o cuidado de sermos santos, mas será que não estamos pecando dentro de nossa religiosidade? Será que não estamos fazendo com que pessoas que sejam “diferentes” de nosso padrão de usos e costumes se sentirem desconfortáveis em nossos cultos? Será que não estamos fechando as portas dos céus para milhares que estão fora das igrejas, e não querem entrar para não se sentirem julgadas? Onde fica o amor, onde fica o ide?

Será que não estamos coando um mosquito, e engolindo um camelo?

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