
Pastor na Igreja Verbo da Vida em Okazaki, Japão
Cresci entre o cuscuz com bode da cultura brasileira e a disciplina rígida da escola japonesa. Essa rigidez, infelizmente, levou muitos jovens ao suicídio. Eles precisam de Jesus, e é exatamente isso que temos feito lá. O Senhor nos deu uma visão. Há uma visão global, uma visão local, dentro da sua igreja, e há também o propósito individual que Deus colocou no seu coração. Quando a visão não está clara, você não consegue correr sua carreira.
Muitas pessoas me perguntaram como foi chegar no Japão e como seu pai nos comunicou essa decisão. A viagem para o Japão foi algo iminente para mim. Meus pais foram em 2001, e eu nasci em 2002. Em 2010, nos mudamos como família.
“Vestindo” a visão
A ida ao Japão queimava tão forte no coração dos meus pais, que eu sentia que partiríamos a qualquer momento. Comíamos com hashi em casa. Quando me convidavam para festas de aniversário, eu hesitava em confirmar, com medo de embarcar para o Japão de repente. Aquela visão estava impregnada em nós. Meus pais vestiram a visão, falavam, viviam e respiravam aquilo. Hoje, chegou o tempo de você também vestir a camisa, declarar a visão e viver aquilo que Deus lhe mostrou.
As pessoas estranhavam quando eu dizia que iria para o Japão, especialmente porque nem sequer nasci em São Paulo ou no Pará. Mas fui ensinado a amar um povo que eu ainda nem conhecia. Quando cheguei lá, era o único diferente. Sabia, no entanto, que isso mudaria. O Japão tem uma cultura da vergonha; a sociedade dita o que é certo ou errado. Por ser diferente, ninguém queria conversar comigo.
Naquele contexto, questionei ao Senhor. Dizia: “Estou aqui porque amo esse povo, mas… o que o Senhor quer de mim? Por que escolheu a minha família?” Minha mãe é cearense, meu pai pernambucano, e eu nasci na Paraíba! Comecei a culpar Deus por ter nos escolhido. Éramos tão diferentes, falávamos alto, abraçávamos… Mas, naquele momento, com apenas nove anos, tive uma das experiências mais marcantes com o Espírito Santo. Ouvi claramente: “Você está errado. Eu escolhi Jusciê, Joanice, Josué e Calebe para essa missão”. A partir dali, entendi que era hora de amar ainda mais aquele povo.
Chamado não vem por afinidade
Nestes 15 anos no Japão, ouvi muitas vezes pessoas dizerem que amam o país desde a infância. Mas chamado não vem por afinidade. Tem japonês que não gosta de sushi, assim como tem brasileiro que não gosta de feijoada. Não confunda as coisas. Você não precisa amar uma nação de antemão para ser chamado para ela.
Se você tem um chamado para um lugar, você vai aprender a amar aquele lugar e vai aprender a lidar com as coisas ruins também.
Muitas características da cultura japonesa não combinam com a minha personalidade, nem com a do meu pai. E é justamente por isso que estamos lá. Às vezes, as pessoas olham para quem tem um talento e acham que tudo aconteceu de forma fácil. Vêem-me traduzindo e pregando em japonês, mas não sabem que passei horas repetindo kanjis todos os dias. São mais de 11 mil kanjis! E de onde vinha a força para estudar? Do amor pela nação. Se você sabe para onde está sendo chamado, cadê o esforço? Cadê o estudo do idioma, a preparação? Como pretende viver nesse país?
Passei por situações difíceis. Na escola, um dia me empurraram por trás, meu nariz sangrou e minha roupa ficou manchada de sangue. Meus pais, ao presenciarem aquilo, decidiram me tirar da escola japonesa temporariamente. Estudei por um tempo numa escola brasileira, mas logo percebi que não era para mim. Não adiantava fugir dos desafios. Disse aos meus pais que queria voltar para a escola japonesa. Minha mãe ficou apreensiva, preocupada com o que eu havia sofrido. Reunimos a família e oramos. Declaramos que, dessa vez, tudo seria diferente.
Ame a nação
Voltei a estudar numa nova província, novamente como o único brasileiro. Preparei minha mochila quadrada e, antes de sair de casa, meu pai me perguntou:
— Quem é você?
— Sou forte e corajoso. Sou filho de Deus.
— Por que você vai aprender japonês?
— Para pregar aos japoneses e ganhá-los para Jesus.
Meu pai contratou uma professora particular para me ajudar com os kanjis. Chorei muitas vezes, quis desistir, mas me lembrava do propósito. A visão era clara. Eu sabia por que estava naquele lugar.
As portas começaram a se abrir. Estudei intensamente por seis meses, fiz o teste de proficiência diante do diretor e fui aprovado. Quando a visão se conecta com o esforço, a graça de Deus se manifesta. Pouco tempo depois, houve uma eleição na escola para escolher representantes de turma. Fui selecionado como redator da turma. Anos depois, no sexto ano, houve nova votação, agora, para presidente da turma, e fui eleito.
Visão, esforço e graça
O brasileiro carrega algo especial. Temos facilidade para fazer amizades. Somos barulhentos, alegres e acolhedores. Tive o privilégio de traduzir o líder geral da JOCUM no Japão. Durante uma de suas ministrações, ele declarou: “Precisamos da unção dos brasileiros. Vocês têm o poder de abençoar as nações”.
Tem pessoas depressivas que só precisam de um grito cearense. Você é brasileiro, e as nações esperam por você.
Aqueles japoneses que eram quietos, que inicialmente não gostavam do nosso jeito, vieram falar conosco: “Queremos o que vocês tem”. Os japoneses são gentis e fofinhos, mas eles precisam de Jesus como qualquer outro povo.
A visão, esforço e graça dependem dessas coisas: a presença do Senhor, uma vida de santidade, relacionamento bom com as pessoas e ser um bom exemplo na igreja.
Evangelho que transforma
A realidade espiritual do Japão é desafiadora. A média de idade dos pastores é de 70 anos. As previsões para 2030 apontam que das 8 mil igrejas existentes, apenas 4 mil permanecerão abertas. A média é de apenas um batismo por ano. Apenas 0,4% da população é cristã e, em sua maioria, de igrejas tradicionais. O Japão é a segunda nação menos alcançada proporcionalmente no mundo. São 125 milhões de pessoas que nunca ouviram o verdadeiro Evangelho.
Muitos pastores japoneses se fecharam para missionários estrangeiros por medo de críticas e imposições. Passei meses apenas servindo pastores locais. Convidei o grupo de louvor de uma igreja japonesa para ministrar em um culto de jovens. No final, como é costume no Verbo da Vida, fizemos convites de salvação, cura e batismo no Espírito Santo. As filhas do pastor foram batizadas naquele culto. Dias depois, a mãe delas nos ligou pedindo que realizássemos os cultos de jovens naquela igreja, pois os jovens estavam sendo transformados.
A cultura de uma igreja mudou pelo servir. O poder do Espírito Santo flui onde existe honra e submissão. Submissão, servir, boa fama, isso vai lhe abrir portas.
Os japoneses tinham preconceito pelos pentecostais, mas os alcançamos servindo. Pagamos um preço por escancarar que somos da Palavra da Fé, mas tem um galardão.
Valeu a pena aqueles anos de estudo. Portas se abriram. Sirva de verdade, esforce-se, dê o sangue. Não desista. Existem pessoas esperando essa paixão que você carrega.
*Trechos da ministração do dia 27 de julho de 2025, no JPN Global.
















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