Há 11 anos, eu recebi a incumbência do Apóstolo Guto Emery para estudar sobre Disciplina, devido à escassez de conteúdos em literatura sobre o tema. Desde então, muitas coisas aconteceram. Entre elas, em 2021, Sylvia Lima incluiu esse assunto como um dos seminários da Escola de Ministros Rhema.
No ano passado, surgiu uma instrução ainda mais veemente do nosso apóstolo para que eu oficializasse o conteúdo em um livro. Este título não é apenas para líderes e pastores. O objetivo ao escrevê-lo foi ter base bíblica para aquele que está disciplinando, mas também para aquele que está sendo disciplinado, além de uma base para quem está acompanhando ou assistindo alguém em um processo de disciplina.
A ideia é dar um fundamento bíblico para isso, porque não tem jeito: a disciplina é parte daquilo que a gente precisa fazer. Querendo ou não, esse processo vai ocorrer em algum momento. Não é fácil ou prazeroso disciplinar alguém, mas nós precisamos estar prontos para o que vai acontecer. O pastor Bud dizia que disciplina na igreja é tão comum quanto o louvor e a adoração.
MOTIVOS PARA A DISCIPLINA
Um dos motivos pelos quais precisamos disciplinar alguém é porque uma pessoa que está em pecado pode contaminar alguém que não está. A Bíblia diz que “um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gálatas 5:9). Nós, como líderes, precisamos ter esse cuidado de tirar o fermento quando for necessário.
Um colega chamado Landinho, trabalhava em um lugar onde cuidava de alguns processos gerenciais com um parceiro de trabalho. Havia também um estagiário que os ajudava, mas, de vez em quando, aquele estagiário fazia algumas coisas indevidas, erradas, no processo. Então, eles precisavam sentar com ele e corrigir aquilo que ele estava fazendo, mas, algum tempo depois, ele errava novamente. Até que chegou o tempo em que descobriram que o estágio dele estava acabando. Foi quando ele errou novamente e Landinho falou: “Já que ele vai sair em breve, acho que não vale a pena corrigi-lo, pois ele não tem futuro aqui”.
Sabe, irmãos, correção é um sinal de que você acredita no futuro das pessoas. Você não corrige alguém se não tem expectativa de que essa pessoa estará com você no futuro. Nós corrigimos porque apostamos e acreditamos no futuro delas. O que a pessoa fez no passado pode ser corrigido para que possamos ver um futuro melhor para ela. Correção é algo bíblico e divino, pois o próprio Deus faz isso conosco. “Pois qual é o filho a quem o pai não corrige?” (Hebreus 12:7).
Você precisa disciplinar, não como um policial que está pegando um bandido, mas como um pai que corrige o seu filho.
CADA CASO EXIGE DISCERNIMENTO
Algo interessante acerca da disciplina é que, às vezes, as pessoas esperam que ela ocorra como um padrão para todos. Todas as pessoas precisam ser corrigidas, mas não da mesma forma. Podemos nos inspirar entre uma situação e outra, mas um caso não pode determinar exatamente como vamos agir no próximo. Cada situação deve ser tratada da maneira adequada.
Um erro é achar que, para o Senhor, todos os pecados têm o mesmo tamanho. Isso é um mito. Não é isso que vemos na Palavra de Deus. Pelo contrário, até mesmo na sociedade entendemos que crimes diferentes devem ter punições diferentes. Até crimes parecidos possuem circunstâncias que podem agravar ou atenuar a pena.
Em Levítico, vemos Deus instruindo o povo de Israel sobre sacrifícios diferentes para pecados diferentes. Era interessante porque até a situação econômica ou a função das pessoas influenciava na modalidade do sacrifício. Assim, o Senhor nos ensina que, para pecados diferentes, devem haver disciplinas diferentes. Assim como para pessoas com responsabilidades diferentes, pode haver consequências diferentes.
A Bíblia fala, no Antigo Testamento, de pecados que não eram passíveis de sacrifício para perdão, como a violação do sábado e a blasfêmia, cuja penalidade era o apedrejamento. Jesus, diante de Pilatos, disse: “Quem me entregou a ti tem maior pecado” (João 19:11). E Paulo também trata disso: “Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade, e imoralidade tal, qual nem mesmo entre os gentios” (1 Coríntios 5:1).
PECADOS NÃO SÃO TODOS IGUAIS
O Novo Testamento ainda fala sobre pecados que são perdoáveis e pecados que não são, pecados fora do corpo e contra o corpo, pecados para morte e pecados que não são para morte. Então, não dá para dizer que Deus considera todos os pecados iguais. Sendo assim, não podemos colocar todas as disciplinas no mesmo nível. Cada caso é um caso.
Em Gálatas capítulo 6, versículo 1, diz: “Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão; e guarda-te para que não sejas também tentado.” O objetivo é restaurar. Essa é a ideia principal que estamos tratando. Paulo fala de alguém que foi surpreendido em pecado, um fato real, comprovado, não uma suspeita. Nesse caso, ele destaca que a pessoa precisa ser restaurada.
Me lembro que, em 2015, quando comecei a estudar sobre disciplina, em uma Conferência de Ministros, estávamos carregando caixas pesadas na organização do evento e o pastor Marconde Ernesto fraturou um dos dedos da mão. Ele continuou ajudando, mas claramente estava com dor. Eu lhe pergunto: “Já que estava doendo, por que ele não cortou o dedo fora? Já que não estava sendo útil naquele momento?”. Sabemos que havia expectativa de restauração.
Nossa expectativa para qualquer pessoa que erra deve ser de restauração. Por mais que traga incômodo ou dor no momento, talvez precise ser afastado ou isolado, mas deve ser restaurado. Não podemos simplesmente descartar pessoas.
Claro que, em situações extremas, pode ser necessário “amputar” o membro, quando não há mais solução ou quando está comprometendo todo o Corpo. Mas, no dia a dia, nossa prioridade não é amputar, e sim cuidar.
A ideia é sempre trazer o membro de volta à utilidade.
Restaurar pessoas não é trabalho para qualquer um, mas para os maduros espiritualmente. É um trabalho que precisamos fazer como líderes e pastores: apostar nas pessoas e não desistir delas.
“Rogamo-vos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós, e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam” (I Tessalonicenses 5:12).
“Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente; disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade” (II Timóteo 2:24-26).
Nosso trabalho é resgatar pessoas que estão sendo presas pelo laço do diabo. Isso faz parte do chamado de todo pastor e líder. Você foi ungido para isso.
“Mas, em parte, vos escrevi mais ousadamente, como para vos trazer isto de novo à memória, por causa da graça que me foi outorgada por Deus” (Romanos 15:15).
É por isso que precisamos de pessoas maduras para corrigir. Essa pessoa precisa estar dando fruto do Espírito, estando cheia de bondade. Nós não disciplinamos porque estamos com raiva ou buscando justiça humana, mas por bondade de coração.
O PASSO A PASSO DA DISCIPLINA
“Se teu irmão pecar contra ti, vai arguí-lo entre ti e ele só; se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja” (Mateus 18:15-17).
Devemos repreender em particular. Esse princípio vale para todos os relacionamentos. A abordagem deve ser discreta, sem condenar, mas convencendo o outro do erro. Se ele ouvir, você ganhou o irmão. Se não, o próximo passo é levar testemunhas para uma segunda conversa. Se ainda assim não ouvir, leve à igreja; não para envergonhar, mas para restaurar. O apóstolo Guto sempre nos ensina que não podemos corrigir alguém sem dar todas as oportunidades de acerto.
Em Mateus 18, Jesus diz: “Tudo o que ligardes na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado no céu” (Mateus 18:18).
Ele ainda está falando sobre disciplina nesse contexto. Cristo nos diz que o que decidimos como autoridades espirituais reunidas acerca de disciplinar alguém, já foi aprovado no céu por Ele. Não existe uma “tabela pronta” para cada caso de pecado, por isso precisamos de líderes maduros, guiados pelo Espírito, analisando motivações, circunstâncias e consequências para tomar decisões de qualidade.
CUIDADO COM JULGAMENTOS EXTERNOS
Preciso alertar você: algumas pessoas não vão concordar com a disciplina aplicada. Devemos ter cuidado para não entrar no grupo que julga de longe uma situação que não nos diz respeito. Se não somos parte do problema nem da solução, não precisamos saber de tudo.
Pessoas imaturas confundem a consequência do pecado com a disciplina. Uns vão achar severo demais, outros, brando demais. Também precisamos evitar agir como o irmão mais velho do filho pródigo, que se chateou com o perdão dado ao irmão quando ele voltou arrependido.
Fique atento à direção do Espírito, à bondade e ao amor. Trate como um pai trata um filho, mas faça o que precisa ser feito para que aquela pessoa sob sua liderança seja completamente restaurada através da disciplina.
*Trechos da ministração do dia 19 de março, de 2026, na Reunião Anual de Pastores e Diretorias.













